domingo, 5 de dezembro de 2010

Carta de Paris

1.
Eu penso em você, minha filha. Aqui lágrimas fracas, dores mínimas, chuvas outonais apenas esboçando a majestade de um choro de viúva, águas mentirosas fecundando campos de melancolia,

tudo isso de repente iluminou minha memória quando cruzei a ponte sobre o Sena. A velha Paris já terminou. As cidades mudam mas meu coração está perdido, e é apenas em delírio que vejo

campos de batalha, museus abandonados, barricadas, avenida ocupada por bandeiras, muros com a palavra, palavras de ordem desgarradas; apenas em delírio vejo

Anaïs de capa negra bebendo como Henry no café, Jean à la garçonne cruzando com Jean Paul nos Elysées, Gene dançando à meia luz com Leslie fazendo de francesa, e Charles que flana e desespera e volta para casa com frio da manhã e pensa na Força de trabalho que desperta,

na fuga da gaiola, na sede no deserto, na dor que toma conta, lama dura, pó, poeira, calor inesperado na cidade, garganta ressecada,

talvez bichos que falam, ou exilados com sede que num instante esquecem que esqueceram e escapam do mito estranho e fatal da terra amada, onde há tempestades, e olham de viés

o céu gelado, e passam sem reproches, ainda sem poderem dizer que voltar é impreciso, desejo inacabado, ficar, deixar, cruzar a ponte sobre o rio.

2.
Paris muda! mas minha melancolia não se move. Beaubourg, Forum des Halles, metrô profundo, ponte impossível sobre o rio, tudo vira alegoria: minha paixão pesa como pedra.

Diante da catedral vazia a dor de sempre me alimenta. Penso no meu Charles, com seus gestos loucos e nos profissionais do não retorno, que desejam Paris sublime para sempre, sem trégua, e penso em você,

minha filha viúva para sempre, prostituta, travesti, bagagem do disk jockey que te acorda no meio da manhã, e não paga adiantado, e desperta teus sonhos de noiva protegida, e penso em você,

amante sedutora, mãe de todos nós perdidos em Paris, atravessando pontes, espalhando o medo de voltar para as luzes trêmulas dos trópicos, o fim dos sonhos deste exílio, as aves que aqui gorjeiam, e penso enfim, do nevoeiro,

em alguém que perdeu o jogo para sempre, e para sempre procura as tetas da Dor que amamenta a nossa fome e embala a orfandade esquecida nesta ilha, neste parque

onde me perco e me exilo na memória; e penso em Paris que enfim me rende, na bandeira branca desfraldada, navegantes esquecidos numa balsa, cativos, vencidos, afogados... e em outros mais ainda!

(Poema de Ana Cristina César (1952-1983), poeta brasileira)

17 comentários:

patricio branco disse...

belíssima fotografia a ilustrar um melancólico texto de saudade, solidão e exilio.

Alcipe disse...

Belo poema!

Anónimo disse...

Gostei de ler!
P.Rufino

Alexandre disse...

Gostei, muito lindo, não conhecia

Anónimo disse...

Aves que aqui gorjeiam...
In Citação de FSC

Lindo de estarrecer...
Isabel Seixas

Anónimo disse...

LINDÍSSIMO!!!

Isabel BP

patricio branco disse...

Seria interessante ir em busca daquela rua e ver se algo resta, o hotel, o bistrot.
Um dos exercicios de nostalgia mais interessantes é procurar agora lugares vistos em películas de há 50 anos, em fotografias de revistas antigas, ou frequentados por nós próprios, etc.
A igreja Ambrose Chappel existe mas leio que fechou, que ali não se celebra mais a missa nem se escondem crianças raptadas em Marrocos.
O hotel da fotografia ainda existe, ainda serve o vinho da casa e o prato do dia?
Em Lisboa, há muitos anos que fechou um restaurante da Baixa onde ia com meus pais almoçar aos domingos. Hoje hesito em qual era a sua localização exacta.
Deambulações nostalgicas provocadas pela entrada do blogue, ilustração e texto.

Margarida disse...

Só um.
Eu nem pensava, sentia. Era o tempo de secretos sorrisos, sinos, grinaldas. Deslizava pelas perfumarias para o inspirar e escolhia presentes infindos para lhe agradar.
Quais lágrimas! Nem da saudade roída, doida, latejante nos pontos cardeais, animada da vontade do abraço, do regresso, da passagem das horas e dos dias – desmesurados anos a cada escoar de um minuto.
A melancolia era apenas a razão, o saber, a antecipação do que haveria de ser.
Esqueci a cidade da guerra, mesmo curvada sob o triunfante arco – homenagem a todos os defuntos, sobretudo os meus -; as cidades crescem ou envelhecem e nós com elas, e com a memória do que foram mais o sonho do provir.
Delirava pela alma em que cria, com o que imaginava, mais do que com o que via ou vivenciava.
E era eu de capa negra com ele no café, era meu o à la graçonne cruzando com o seu melhor amigo os Champs, e todos os mitos a preto e branco a rodopiar em redor, numa girândola incandescente.
Tempos de fuga entre as marés, em que recebia postais mais do que ilustrados e mensagens secretas em cada baforada das chaminés.
As reproches seguiam, desdenhando o desejo e as reproches viriam, esquecendo o mesmo.
...
Adieu.

Correia de Araújo disse...

Bonito poema (post), merecidamente, em letra grande... duma poetisa (prefiro chamar-lhe assim, em vez de poeta) que desconhecia até hoje.

Cunha Ribeiro disse...

Paris,
Minha namorada de ontem e de hoje.
Minha amante de juventude
Paris,
Cidade virgem, onde me sinto vadio
Cheio de alma,
Onde me divirto,
E me sinto menor
à beira da maioridade idosa das ruas, igrejas, e catedrais.

Helena Sacadura Cabral disse...

Lindo.
Mas cada um de nós já não é, também, aquele que, um dia, uma noite, atravessou aquela rua, aquela ponte, aquele bistrot, aquele hotel.
E pode ser igualmente bom "flanar" por todos aqueles locais onde um dia estivemos e dizer, para dentro, sem melancolia, que "todos envelhecemos". Ao mesmo tempo!

cunha ribeiro disse...

Paris, "onde envelhecemos todos
ao mesmo tempo"

Helena Oneto disse...

Leio este lindo poema como uma sinfonia sem partitura onde cada som é dor, cada nota é melancolia e cada espaço é saudade. (“ponte impossível sobre o rio, tudo vira alegoria: minha paixão pesa como pedra”). A separação forçada é devastadora...
Poignant!

Anónimo disse...

Refúgio

A cidade alma refúgio até da culpa
Como se a solidão precise desculpa
A maior das maiores cidadâ do mundo
Remetida no escuro luminoso e fundo

E é vasto como vazio o subterfúgio
Insano de oculto velado de refúgio
Escondido do mal aquele o do prazer
Jamais estado puro aborta ao nascer

E é mas é vida da que não sabe ser
Magoada revida sonho sem florescer
Vive de mágoa desdém autocompaixão

Fuga refúgio grande mal o coração
Mulher maldita a emoção sem razão
Bela paixão,desdita só a esconder

Isabel Seixas

Anónimo disse...

Parabéns, senhor embaixador, pelo nível e diversidade de informação sobre o Brasil. Trazer Ana Cristina César evidencia um conhecimento e uma especificidade bem acima de qualquer média, que nem seriam exigidas de um diplomata!
Mágda Cunha, Porto Alegre/Brasil

Alcipe disse...

Há uns assim, excepcionais, como este embaixador... A Dra Mena Mónica diz que encontrou um diplomata português que nunca tinha ouvido falar de Cesári Verde, o que a levou a concluir num apressado livro que "Cesário Verde era um poeta esquecido"!!! Blame it on diplomacy...or on frivolity?

Helena Sacadura Cabral disse...

Meu caro Alcipe, sempre considerei essa afirmação - que já vi repetida - muito duvidosa. Pertenço à geração que leu Cesário Verde e foi ensinada a apreciá-lo. Mas "o futuro era melhor antigamente"!