segunda-feira, dezembro 27, 2010

O "malho"

Desde que me conheço que me vejo rodeado de dicionários. O meu pai, em Vila Real, tinha dicionários de tudo e mais alguma coisa, de diversos franceses do século XIX (do Gregoire e os Vapereau ao excelente "de la Politique", de Block) aos clássicos Cândido de Figueiredo e Torrinha, passando pelos Lellos (ilustrados ou não). No meio dessa inumerável coleção, havia lá por casa dicionários espanhóis, ingleses, muitos de tradução entre línguas (algumas que nunca falei) e outros cuja utilidade prática verdadeiramente nunca descortinei. 

Com toda a certeza por via dessa saudável influência, desde cedo que comecei a ter os meus próprios dicionários. Lembro-me que ganhei o meu primeiro "Porto Editora" num concurso de cruzadismo e que foi a (depois) minha mulher quem me ofereceu, há bem mais de 40 anos, um fac-simile do "Littré". Aprendi a andar com eles sempre à mão (até nos carros), espalhados por todas as mesas onde trabalhei (e continuo a fazê-lo, porque ainda não acredito nos "on-line" e, muito menos, em alguns imbecis corretores ortográficos). Tenho dicionários um pouco de tudo: de verbos, de sinónimos, etimológicos, onomásticos, de provérbios e incontáveis volumes temáticos (muitos em inglês, francês e espanhol), para além dos óbvios Larousse e Michaelis. Trouxe, do Brasil, o Aurélio (o "Aurelião"), o Houaiss e, claro, o Caldas Aulete. Também tenho as dezenas de volumes da Encyclopaedia Britanica e a Luso-Brasileira  (mas não a da Verbo, com que, desde sempre, embirro), com as respetivas atualizações (até que o bom-senso e a falta de espaço me levaram a parar). E tantos, tantos outros dicionários, enciclopédias e quejandos.

Mas toda esta conversa vem a propósito do "malho". Na minha família o "malho" designa os 12 volumes do Grande Dicionário da Língua Portuguesa, de António de Moraes Silva, na sua 10ª edição, que o meu pai assinara em fascículos durante mais de uma década. Desde miúdo que me habituei a consultá-lo, para ajudar o meu pai e o meu avô nos exercícios de palavras cruzadas, nas noites antigas, em que a televisão nos não monopolizava. Quando a dúvida se instalava sobre um determinado significado, o meu pai dizia, em jeito de desempate definitivo: "vamos ao malho". E eu, impante, encarregava-me com ardor dessa tarefa - de um modo que me levou mesmo a saber de cor as palavras iniciais e finais de cada um dos volumes, inscritas nas lombadas. O "malho*", na sua bela encadernação de couro com ferros dourados, continua a ser o dicionário-rei da minha casa, por mais novos dicionários de língua portuguesa que por aí apareçam - mas que eu não deixo nunca de comprar, sempre...

Mas o (agora) meu "malho" remete para uma historieta curiosa. O meu pai havia mandado encadernar os primeiros seis volumes do "malho" ao sr. Morais (homónimo do autor do dicionário), um dos escassos (mas o melhor dos) encadernadores de Vila Real. Saíu "obra asseada", porque o artesão era excelente, embora um tanto lento.

Uns anos mais tarde, acabada que foi a publicação da totalidade dos fascículos, o meu pai informou o sr. Morais de que estavam prontos para ser encadernados os restantes seis volumes. E aí surgiu uma surpresa desagradável: o homem disse que já não se dedicava a trabalhos tão elaborados, que há muito que havia deixado de utilizar os "ferros" da anterior encadernação e, pedindo embora muita desculpa, informou que não podia levar a cabo a tarefa. O meu pai ficou desolado. Que poderia fazer? A obra ficaria incompleta e não conhecia ninguém capaz de substituir o Morais. Estávamos nos anos 60 e recordo bem do desgosto com que o meu pai falava do assunto em casa.

Na tertúlia diária da Pastelaria Gomes, curiosamente a escassos metros da (então) loja do sr. Morais, o meu pai contou um dia o seu problema a um grupo de amigos. Desse cenáculo fazia parte o comandante da PSP de Vila Real, que logo se prontificou a ajudar: "Não se preocupe. O meu amigo vem comigo ao Morais e o assunto resolve-se já". E lá partiram, o meu pai e o comandante da PSP, rumo ao encadernador. 

A cena que se segue é edificante e bem reveladora dos tempos de então:

- Ó Morais, então o meu amigo não quer acabar a obra que começou?

- Sabe, senhor comandante, já me deixei desses trabalhos mais pesados. Agora estou mais nas revistas e nas encadernações simples.

- Essa agora! Ao iniciar uma obra, um profissional compromete-se a acabá-la. Isso é uma falta grave, ó Morais. Olhe que pode vir a ter problemas...

E, perante o espanto (e o deliciado constrangimento) do meu pai, e graças a este método de (pouco subliminar) convicção, o Morais lá acedeu a acabar o trabalho. Dizia-me o meu pai que ele acabou por se vingar... no preço. Mas o "malho" ficou completo.

* E na pag. 422 do VI volume, lá está a definição de "malho" como"coisa certa, infalível".

7 comentários:

Unknown disse...

Meu amigo embaixador Seixas da Costa. Primeiro, meu abraço de Natal para o senhor e Gina. Delicio-me sempre ao ler suas histórias. E as leio como se o próprio embaixador as tivesse falando, com seu jeito especial e seu sotaque característico. Li sobre o Malho e logo me lembrei da primeira revista humorística do Brasil, criada por Crispim do Amaral, em 1902, que se chamava O MALHO. Como ela foi toda digitalizada e seu acervo está na internet (http://www.jotacarlos.org/revista/index.html ) é muito interessante curtir sua especialidade do início do século: satirizar os políticos e os fatos. Evidente que a revista foi empastelada pela ditadura de Getulio Vargas. Mas se o senhor se interessar por uma leitura de O Malho, na internet, verá que em março de 1927, a seleção portuguesa de futebol venceu a seleção francesa. Meu abraço, caro embaixador, e sempre aguardamos seu retorno por Brasília onde deixou muitos, mas muitos amigos e grandes admiradores. Que 2011 chegue com boas surpresas e ótima saúde para o senhor e Gina. Silvestre Gorgulho

patricio branco disse...

os dicionários são um mundo fascinante, ou seja, é fascinante tentar compilar e definir as palavras ou vocábulos duma lingua em livro. Tarefa impossível e que sempre ficará imperfeita. E a lexicografia é sem duvida uma das ciências humanas mais interessante na medida em que trabalha com a matéria com que comunicamos, e pensamos. Os dicionários citados na entrada do blogue são os clássicos donde provem toda a moderna lexicografia. É um bom exercício e entretem procurar palavras nos dicionários e ver como são definidas, os diferentes sentidos e usos que têm, por vezes opostos.
Portugal tem o Moraes e o candido de figueiredo, brasil o Aurélio e o houaiss, a inglaterra o Johnson, a frança o larousse e o littré, os eua o webster, etc.
Para terminar, por agora, pois talvez volte com comentários, transcrevo a famosa definição que o dr. johnson deu de "oat" no seu dicionário inglês do sec 18:"oat: a grain that sustains horses in england and people in scotland".
Esplendida a entrada, que nos fala do amor pelos dicionários e sua utilização, alem da historieta exemplar sobre o encadernador que nos dá.

Julia Macias-Valet disse...

Patricio Branco, fez referência ao Larousse e ao Littré mas esqueceu-se de um dicionario cujo nome tanto nos fazia rir nos tempos de liceu : o Bordas ! : ))

Anónimo disse...

"Saudável influência"(FSC:2010)

A que soube dar continuidade partilhando os Conhecimentos/saberes
que apreendeu com saber de forma, conteúdo e de atitude pedagógica.

Também considero os dicionários ótimos adjuvantes da memória e enriquecimento dos sentidos da comunicação.

A persuasão do "alfaiate" foi a malho...

Isabel Seixas

Anónimo disse...

Divinal e adorei a expressão "obra asseada" (muito utilizada na minha família).

O que faz ser uma rapariga da idade da Júlia Macias-Valet... acabei por me fartar de rir com as lembranças do tempo do liceu :)

Isabel BP

patricio branco disse...

JM-V, sim, tem razão, o bordas foi esquecido...e tenho 2 na minha estante (temáticos).

Já agora,conhecia a palavra "malho" no sentido de instrumento com que se malha, mas não no de infalível, certeiro, que aprendo no blogue.
Outro dicionário responsável pela formação em cultura geral e gosto por ela de muitos jovens (a partir dos 12 ou 13 anos)foi (e é) o Petit Larousse illustré, que era um prazer folhear e ler e onde muito aprendi.

Mas gostava era de ter um Moraes!

Helena Sacadura Cabral disse...

O primeiro livro que li - forçada pelo meu Pai - foi o Dicionário do Torrinha. Obrigada a marcar com cruzes as palavras desconhecidas, as folhas tornaram-se verdadeiros desenhos de batalha naval. Aprendi, assim, aos 7 anos, a importância destas obras. Hoje dicionários e enciclopédias nascem no chão da minha casa...
A propósito, lembro a fascinante intervenção do actual Ministro da Defesa, que tanto gosta de "malhar na direita"!

D'accord?

Percebo que haja pessoas que tenham razões para não gostar do Acordo Ortográfico que, desde há bem mais de uma década, é utilizado, já com n...