domingo, 12 de dezembro de 2010

WikiLeaks

Ao olhar para alguns dos "telegramas" americanos que têm vindo a ser divulgados, sou levado à conclusão que o estilo de sua escrita acaba por ser bem mais "solto" do aquele que marca a grande maioria da cultura diplomática tradicional. Sem perder o "template" daquilo que é a liturgia da profissão, nota-se que essa escrita largou já o "colete de forças" formal, saindo do modelo de textos muito enxutos, quase tecnocráticos, que faz parte de uma certa tradição britânica e que tem o seu auge na "telegrafia" das missões junto das organizações multilaterais. 

Naquilo que o WikiLeaks tem revelado, é visível uma espécie de escrita quase jornalística, que marca, por exemplo, muitos dos retratos de personalidades produzidos pelos diplomatas americanos, o que não deixa facilitar a sua leitura pelos decisores políticos, a quem, em última instância, o resultado desse trabalho se destina. Contrariamente a uma velha escola, felizmente em progressivo desuso, os textos são corridos e sonoramente adjetivados, abandonando o refúgio em bordões e ambiguidades. Não quero elaborar muito sobre isto, mas quem conhece a escrita diplomática tradicional sabe bem aquilo a que me refiro. 

Num outro registo bem diferente, ao ler alguma dessa "telegrafia" americana sou levado a concluir que a diplomacia dos EUA desenvolve hoje um excelente trabalho de pesquisa e análise, muito mais "nuancé" e muito menos maniqueísta do que se poderia, à partida, esperar. Além disso, e não excluindo que algumas surpresas possam ainda surgir, a verdade é que, com escassíssimas exceções, vejo muito clara a linha distintiva entre aquilo a que os meus colegas americanos se dedicam e o trabalho da "intelligence" - esse sim, muitas vezes estereotipado e reduzido a caricaturas funcionais. Devo dizer - porque é verdade - que essa foi uma positiva surpresa para mim.

Finalmente, lidos e relidos muitos comentários na imprensa e na blogosfera sobre o tema do WikiLeaks, julgo que é de meridiana honestidade concluir que muito do "gozo" sobre esta falha séria no secretismo do governo de Washington deriva, essencialmente, da permanência de um sentimento residual de anti-americanismo, aqui e ali adubado pelo "voyeurisme" deslumbrado de quem acha que o mundo se defende com pombas, até ao dia em que na sopa lhe caiam umas bombas. Só o tempo e as más experiências ajudará essa gente a perceber que a diplomacia discreta é, muitas vezes, a melhor forma de evitar a guerra.

13 comentários:

Anónimo disse...

" "voyeurisme" deslumbrado de quem acha que o mundo se defende com pombas, até ao dia em que na sopa lhe caiam bombas"

In (FSC:2010)

Meu Deus, é mesmo para refletir...

Isabel Seixas

patricio branco disse...

Dando-me ao trabalho (por curiosidade)de ler a peça que ilustra a portada da entrada, vejo que se trata de informação enviada ao DE sobre conversas diplomáticas havidas entre o diplomata americano sam watson (nome sherloquiano e hammetiano) e funcionários islandeses, em reiquiavique, abordando o caso ICESAVE. Os islandeses pedem apoio aos eua mostrando se preocupados com o que se passa.
Posteriormente, sam watson reune-se com o embaixador inglês ian whiting para continuar a falar sobre ICESAVE, desta vez com a outra parte do conflito. Watson tem ainda uma 3a reunião - com o embaixador islandês nos eua que tinha ido a reiquiavique.
A comunicação descreve portanto um trabalho construtivo envolvendo 2 das partes em conflito, mais os eua tentando ajudar ou informar-se. E termina com algumas opiniões de watson.
A peça revela um trabalho sério de gabinete desenvolvido discretamente por diplomatas americanos, islandeses e ingleses, para ajudar a resolver o conflito icecase.
Todos os paises têm diplomacias semelhantes, penso, usando mais ou menos os mesmos métodos. E todos têm telhados de vidro e podem ser objecto dum wikileaks. Muitas revelações são embaraçosas, mas mais para o objecto analisado (presidentes corruptos, coniventes com o narcotráfico, p ex)que para os seus autores (diplomatas americanos). Nenhum conflito intenacional virá ao mundo por causa do WL e nenhum governo lhe quererá dar importancia (abertamente). trata se de material para jornais e curiosos (o inglês guardian está criteriosamente a publicar e comentar peças do conjunto).
Por fim, interessantes os comentários tecnicos e profissionais do embaixador FSC sobre as peças que leu e a forma que usam. Wikileaks poderá tambem ser util, portanto, para uma gramática diplomatica.

ZéBonéOaparvalhado disse...

Haja alguem - com dois dedos de cabeça - que acredite na WIKILEAKS? - a 1ª coisa: é pediram o pagamento - isto é: uma cambada de habilidosos.

Anónimo disse...

De facto sao enormes e muito descritivos para quem se habituou aos "nossos" telegramas portugueses. E descrevem tudo - no El Pais eles publicam os originais, designadamente sobre os "muito engraçados" que saíram da embaixada USA/Lisbon - e que estão, claro, a ser desmentidos, como também foram desmentidos por Moçambique os sobre o Guebuza e companhia.....Há coisas que nunca se deveriam saber. Esta do Guebuza por exemplo é um grande escândalo que os americanos tenham escrito aquelas mentiras todas!

Anónimo disse...

Caro Anónimo,
Quem conheceu Armando Guebuza quando era Governador na Beira e seguiu o seu percurso depois e as suas ligações a Robert Mugabe, talvez não fique não escandalizado com o que ali se diz.
Rilvas

Dylan disse...

Não sei muito bem onde é a fronteira da liberdade da informação mas de certeza que não será no terreno onde a Wikileaks tem actuado. A sua política de terra queimada substitui o jornalismo pelo voyeurismo da opinião pública, ao melhor estilo de se saber qual é a cor do papel higiénico que os diplomatas usam. Como se não houvesse segredo de estado nem a diplomacia não fosse um manual de boas maneiras. Reconheço o papel relevante de Julian Assange na denúncia das violações de direitos humanos mas a sua organização acaba por fazer o mesmo que tanto a sua missão divina e protagonismo reclamam: espiar.

Anónimo disse...

Isto é uma fuga de informação em todas as frentes, sendo que, na maioria dos casos, ultrapassa a liberdade de informação.

No entanto, também há casos em que o Wikileaks é um "déjà vu" e apenas vem reiterar aquilo até alguns OCS portugueses já escreveram há uns tempos sobre as férias de um casal inglês no Algarve...

Isabel BP

LP disse...

Senhor embaixador, seria interessante para mim e para quem não conhece a linguagem diplomática, que nos desse umas luzes acerca desse tipo redacção; aqui fica o repto para, se achar pertinente, um post sobre a linguagem da sua / nossa casa além fronteiras!

No seu último parágrafo, eu, não poderia estar mais de acordo. Contudo, sem prepotências! À semelhança dos filmes, que não servem só para nos divertir nas horas de ócio, vemos que, por exemplo nos EUA, ninguém é supremo a nada. Como disse, nos filmes é mostrado que existe um controlo circular sobre quem decide / investiga; eles sabem que o ser humano é corrupto por natureza, nem que seja por clientelismo.

O anti-americanismo, que no século passado teve um período de perseguição, é resultado de uma permissão e tentativa de boa harmonia social por parte de quem manda, para a qual existem umas facções que tentam a todo o custo destabilizar. E o interessante é que, em geral, essas destabilizações nunca vêem a favor das massas.

Agora, o WikiLeaks, vejo-o como uma chamada de atenção às fragilidades e incompetências que grassam neste mundo. Quer queiramos quer não, há situações e acontecimentos que, a bem da segurança e estabilidade, não podem vir a lume da cena pública. Um exemplo pelo lado perverso: se os criminosos divulgassem as suas estratégias e pontos objectivos, quais seriam os seus nefastos sucessos

Assunção Henriques disse...

M.I. Embaixador,

Não sendo um letrado nesta matéria, muitas vezes me tenho interrogado sobre o que fazem os diplomatas - incluindo os nossos - por esse mundo fora. É claro que já me tem chegado ás mãos alguma coisa do que escreveram diplomátas portugueses. Mas, de modo geral, são textos que já passaram a prova do tempo, e referem-se a periodos e acontecimentos muito marcantes da História, com protagonistas já defuntos. Por exemplo, as comunicações entre Armindo Monteiro e Salazar durante a II Guerra, ou os textos relativos ao comflito com a União Indiana ainda nos anos cinquenta.

Agora, ver de repente à nossa frente análises, apreciações, comentários, mesmo intrigas com rótulo de informação, tudo quanto as embaixadas americanas enviaram para Washington, sem qualquer sensura nem selecção, ainda para mais referindo-se a pessoas e a acontecimentos que recentemente ainda presenciamos ou lemos nos jornais, só em sonho historiadores, jornalistas e diplomatas o poderiam ter imaginado.

Calculo a excitação que irá nas Necessidades por poderem ver (e até comparar) o trabalho que os seus colegas americanos fazem.

Bom, calculo que alguns diplomatas portugueses estarão também ansiosos por não poderem antecipar aquilo o que essses americanos escreveram depois daquela conversa a que não atribuiram grande importância... Enfim, serão pequenas "desgraças" individuais sobejamente compensadas pelo "enriquecimento" colectivo. Por mim, digo: vivam os wikileaks!

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro Assuncao Henriques: a diplomacia nao e' um jogo no qual nos entretemos a uma especie de jornalismo, a uma troca de confidencias ou uma especie de ma-lingua. Trata-se da defesa de interesses dos paises. Claro que nos, os "das Necessidades", vamos passar a ter mais cuidado nas nossas conversas com colegas estrangeiros mas isso - pode crer - vai significar uma menor capacidade de atuar na defesa dos nossos (que tambem sao seus) interesses. E' que, acredite ou nao, nao andamos pelo mundo "a brincar" 'a politica externa.

ex-DGEMN disse...

Achámos este post inteligente e digno de reflexão, pelo que tomámos a liberdade de o reproduzir no nosso ex-DGEMN.

Mário Machado disse...

Senhor embaixador,

Com a elegancia literária de sempre deu palavras ao meu pensamento nesse quesito.

Há colegas meus de relações internacionais aqui no Brasil que estão seduzidos por essa "overdose" de transparência e crêem que isso torna as coisas mais seguras e transparentes.

Eu, como o senhor, vejo que não é bem assim.

Abs,

Eliana Gerânio Honório. disse...

Meu poeta, parabéns!



Finalmente, lidos e relidos muitos comentários na imprensa e na blogosfera sobre o tema do WikiLeaks, julgo que é de meridiana honestidade concluir que muito do "gozo" sobre esta falha séria no secretismo do governo de Washington deriva, essencialmente, da permanência de um sentimento residual de anti-americanismo, aqui e ali adubado pelo "voyeurisme" deslumbrado de quem acha que o mundo se defende com pombas, até ao dia em que na sopa lhe caiam umas bombas. Só o tempo e as más experiências ajudará essa gente a perceber que a diplomacia discreta é, muitas vezes, a melhor forma de evitar a guerra.


Muitas felicidades em 2011.