domingo, 27 de dezembro de 2015

O telefone de outros tempos


por aqui contei um dia o telefonema que, no início anos 60 do século passado, fizémos ao administrador apostólico de Vila Real, monsenhor Libânio, imitando a voz do bispo da Diocese, dom António Valente da Fonseca, que se encontrava em trabalho em Roma. A conversa começou por versar sobre os problemas da Diocese para, a certa altura, abordar o estado de saúde de umas muito conhecidas prostitutas locais, o que colocou o monsenhor numa imensa aflição, pensando que o bispo se "tinha passado", levando-o a interromper a chamada.

De uma outra vez, relatei neste blogue a aventura que foi convidar telefonicamente o responsável por um torneio de ping-pong (diz-se ténis de mesa agora, não é?) a repetir os resultados de todos e cada um dos jogos, convencendo-o de que, no dia seguinte, essa "reportagem" sairia em duas páginas do "Norte Desportivo". Ao alvoroço com que vencedores e derrotados, desejosos de ver o seu nome em letra de forma, esgotaram em segundos os exemplares chegados a Vila Real, seguiu-se uma fúria contra os desconhecidos "engraçadinhos" que tinham sido autores da "partida", felizmente não identificados.

A modorra de uma cidade de província, onde muito pouco havia para fazer, em especial em tempos de férias, levava à ousadia para este tipo de brincadeiras, protegidas, à época, pela garantida impossibilidade técnica de se detetar a origem das chamadas.

Ontem, numa volta pela cidade com amigos, recordámos mais três dessas "partidas" inocentes, em que interveio um número considerável de amigos, até porque o respetivo "efeito" só era conseguido pela repetição dos atos.

A primeira teve como vítima o proprietário de uma tasca no "circuito", o senhor Coelho. O Coelho era um homem de má catadura, proverbial mau feitio, sempre com um ar zangado atrás do balcão. A partir de certa altura, e durante várias semanas, o Coelho recebia chamadas que começavam de forma diferente mas acabavam sempre da mesma maneira, como por exemplo: "Está lá? É o senhor Coelho?" O homem respondia que sim e, do lado de cá da linha, nós avançávamos com a mesma frase: "Pum! Pum! Ó Coelho, matei-te!" Antes de desligarmos, o Coelho zurzia-nos com um arsenal muito criativo de asneiradas, de onde não saíam incólumes as nossas progenitoras. Foram largas dezenas de chamadas. Às vezes, já não era o próprio Coelho que atendia, mas nós tínhamos artes de obrigar a que ele próprio viesse ao telefone, invocando o nome forjado de um fornecedor ou coisa parecida. Um dia, alguns de nós corremos mesmo o risco de estar na tasca, a comer uma sanduíche, enquanto outro amigo executava a "operação". E não nos "desmanchámos"...

A segunda "intervenção", ao que apurámos, colocou uma família quase de cabeça perdida. Era uma simples chamada para um determinado número, apurado na lista da cidade. Invariavelmente, a nossa fala era a seguinte: "É de casa do senhor Zuzarte?" Respondiam sempre positivamente, quase sempre o próprio, ao que nós acrescentávamos: "O senhor Zuzarte não tem vergonha de ser o último nome da lista telefónica?" E acrescentávamos coisas como: "Deve ser muito triste, não é?" ou "Nunca pensou mudar de nome?" Da surpresa inicial, o Zuzarte começou a "passar-se dos carretos", respondendo com um chorrilho de imprecações furibundas. Às vezes, era a esposa do senhor Zuzarte que vinha à linha e nós adaptávamos a frases criativamente piedosas. Não vou revelar, contudo, a fraseologia adotada quando a família Zuzarte passou a encarregar a "criada" de atender as chamadas...

Conto agora a última das "partidas" - há outras que nunca "prescreverão", pelo que são irreproduzíveis... - que então fazíamos. Havia, na avenida Carvalho Araújo, uma importante loja de eletrodomésticos chamada "Casa Patinhas". Ora, à época, de um popular programa radiofónico diário dos "Parodiantes de Lisboa", faziam parte uns "sketches" muito populares, uma conversa entre um detetive, chamado "Patilhas", e o seu colaborador, o "Ventoínha". O senhor Patinhas passou a receber, aí uma vez por dia, durante meses, uma chamada telefónica muito simples: pedia-se-lhe para chamar ao telefone o "Ventoínha". De início, o senhor Patinhas foi dizendo que por ali não havia nenhum Ventoínha. Rapidamente percebeu a marosca e passou a ter reações furiosas. Mudámos então de tática: passou a ser "o próprio Ventoínha" a telefonar, dizendo querer falar com o Patinhas. O homem (o facto dele se não chamar Patinhas e não Patilhas era já despiciendo) dava berros que se chegavam a ouvir num banco da avenida que havia perto da porta da loja, onde nos íamos sentar para gozar a cena. Um dia chegámos a pedir a uma amiga para telefonar como se fosse mulher do Ventoínha, perguntando por ele. Arrancámos-lhe o telefone da mão antes do pobre Patinhas a mimosear com qualificativos que um "blogue de famílias" como este não pode, naturalmente, acolher.

Era assim nesse tempo, nessa Vila Real de então, para quem tinha 14 ou 15 anos e muito pouco para fazer nos tempos livres. Não devia ser muito diferente noutras cidades de província portuguesas.

11 comentários:

Anónimo disse...

O Toninho da pastelaria Rosas foi talvez o maior alvo das partidas dos meus colegas de liceu. Volta e meia alguém se chegava ao telefone do café em frente, o Excelsior, e fazia a chamada que terminava, invariavelmente, com o Toninho a dizer impropérios, enquanto a malta ria a bom rir. Por exemplo:
- Bom dia, hoje têm bolas?
- Sim, temos.
- Então dê-lhe chutos!
Infantilidades saborosas de um tempo que passou.

Anónimo disse...

Só pelo local se chega ao universal

a) Feliciano da Mata, pedante diplomado, "mala" no Brasil, "pesado" em Espanha, "con" em Franca - reconhecido internacionalmente!

Fernando Correia de Oliveira disse...

crónica saborosa, ilustrada por aguarela da arquitecta Fernanda Lamelas

500 disse...

O Toninho da Rosas não merecia a brincadeira. Fiou-nos muitas vezes uns camarões de Espinho e uns finos.

ARD disse...

A minha juventude também passou por aí.
Uma das pilhérias consistia em repetir 3 ou 4 telefonemas para o mesmo número, perguntando se ali estava o Chico Barata, tendo como resposta invariável, embora em tons de irritação crescente, "aqui não há nenhum Chico Barata".
O último telefonema, quando a fúria do outro lado da linha atingia o ponto óptimo, era diferente: "Daqui fala o Chico Barata. Por acaso alguém ligou para mim?".

Anónimo disse...

Sou cerca de duas décadas mais novo que o embaixador. Mas nos meus tempos de adolescente em Vila Real, também faziamos ligaçoes para o lar académico, para falar com a madre virgem e para casa do falecido meonsenhor costa, o homem que esteve por trás da construçao da igreja nossa senhora da conceiçao. Iamos ainda para as cabines telefónicas ligar para a Rádio Marconi, que era gratuito. Depois eram os táxis, que eram chamados á noite e ficavamos perto da casa para onde os mesmos chegavam, era uma risada assistir a tudo isto de camarote. As suas aventuras sao dos anos sessenta, estas que aqui contei sao da década de oitenta, mas o principio era o mesmo.

Anónimo disse...

Hilariante! Ainda não parei de rir.
Em tempos idos eu e a minha melhor amiga, telefonávamos para todos os "Leitão" que constavam na lista telefónica a dar a notícia que tinham sido promovidos à "Porco". Brincadeiras inofensivas que nos permitem hoje contá-las e rirmos com as ditas.
Susana Lucena

Joaquim de Freitas disse...

Aqui ,seriam :

"des sacrés lascars!

Anónimo disse...

Esse Coelho seria da família do nosso/deles?... Bons tempos, quando ainda havia em Vila Real criadas para atenderem o telefone... Viver para recordar!

Anónimo disse...

Monsenhor, homem diligente e experimentado, deixou cair a chamada. Ainda não haviam escutas e Ministério público...

Anónimo disse...

Para além dos telefonemas, eu e a minha malta, atávamos cântaros de barro cheios de água ás portas dos alvos. Era um regalo quando abriam a porta e a peúga ficava encharcada.Outros tempos vividos com sabor de norte a sul deste país.