domingo, 29 de novembro de 2015

Notas britânicas (2)


1. O Reino Unido reedita, ciclicamente, controvérsias sobre a sua política de defesa. Muitos nos lembramos das várias campanhas da CND (Campaign for Nuclear Disarmament), dos anos da Guerra Fria, que colou os pacifistas aos "vermelhos" (alguns eram "vermelhos", de facto, outros eram mera gente com boas intenções ou inocentes úteis). Mais tarde, seria o Iraque, com Tony Blair (um trabalhista, há que lembrar sempre, para memória futura) a colar as tropas britânicas à aventura criminosa de George W. Bush no Iraque, sem mandato legitimador (por cá também tivemos uns patéticos seguidores acríticos, que por aí "observam" nos dias que passam). Agora é a Síria. Perante o imperativo de bom-senso que é a necessidade de desmantelar o Estado Islâmico, o Partido Trabalhista mostra-se fortemente dividido. Verdade seja que setores minoritários conservadores, liberal-democratas e escoceses também hesitam. Os apoiantes do novo lider Jeremy Corbyn, recusam "boots on the ground" (aliás, como a maioria dos países), mas, por outro, opõem-se a ataques exclusivamente aéreos, que o governo de Cameron pretende levar a cabo, a exemplo dos franceses. Conclusão: optam por não fazer nada. Cá por mim, acho que o Reino Unido acabará por avançar, mas as clivagens internas ficarão muito evidentes.

2. Gosto de passar pelas zonas onde se situam casas onde um dia vivi. Fi-lo ontem, ao entrar de automóvel em Londres. Era perto do Hyde Park e de Knightsbridge. Uma casa alugada a Paulo Marques, esse simpático anglófilo já desaparecido. Gostei de viver e trabalhar em Londres, de onde vim há minutos. Foi um tempo muito interessante da política britânica, entre 1990 e 1994, com a Europa na sua agenda diária: nos conservadores, assisti aos últimos tempos políticos de Margareth Thatcher, à ascensão do cinzento John Major e à desilusão de Michael Heseltine; nos trabalhistas, vi Niel Kinnock falhar a sua grande oportunidade, a eleição e morte de John Smith, a esperançosa liderança de Tony Blair. Viver em Londres era divertido e entusiasmante. Mas era já então uma cidade muito cara (hoje está impossível!), ia-se jantar fora com grande parcimónia, os espetáculos eram escolhidos com muito critério. Mas deu para visitar bem o país, para olhar a bizarria snob e divertida de Ascot e Henley, para me arruinar nas livrarias. E, essencialmente, para fazer muitos e bons amigos, que não larguei desde então. Tenho por muito claro: fora de Portugal, e se tivesse dinheiro, Londres era a minha cidade.

3. Há pouco, no quiosque de Heathrow, comprei (quase dois quilos) do "The Sunday Times". Adoro estes jornais britânicos de fim-de-semana, desde o conservador "The Sunday Telegraph" aos mais abertos "The Observer" e "Independent on Sunday". Estes "quality papers", juntos com o "The Financial Times" de sábado/domingo, são de uma riqueza informativa que é ímpar no mundo. Se a isso somarmos o "The Economist", o "The Spectator", o "Private Eye" e o (agora renovado) "The New Statesman" (uma revista trabalhista que se afasta claramente de Corbyn), estamos perante uma oferta jornalística fabulosa. Já para não falar no "The London Review of Books". Não conheço os equivalentes alemães ou italianos, mas Paris e mesmo Nova Iorque não chegam "aos calcanhares" de Londres. 

4. Tomei há pouco um "mini-cab" para o aeroporto de Londres. Bem mais baratos que os taxis normais, aparentemente deixaram já os veículos manhosos em que, durante décadas, às vezes temíamos entrar, tal a sujidade dos carros e o ar sebento dos motoristas, com que era difícil comunicar. Hoje, viajei num "mini-cab" bem confortável, com um condutor apresentável, quase um Uber! (Ontem, em Oxford, um dos participantes na homenagem a Helder Macedo era da Uberlândia, uma importante região do Estado de Minas Gerais, no Brasil. Sugeri-lhe que, se fosse a Portugal, não se lembrasse de referir a sua região de origem aos nossos taxistas...)

5. Londres estava hoje fria, ventosa, com chuva "de molha tolos", daquelas que dá para abrir e fechar incessantemente o guarda-chuva. Não obstante, os turistas continuavam às centenas à volta do Harrods e do Harvey Nichols. Tal como Paris ou Roma ou Nova Iorque, faça chuva ou faça sol, com terrorismo ou sem ele, estas serão para sempre as "mecas" dos viajantes do mundo. Pode deixar-se de ir às pirâmides do Egito ou às praias da Tunísia, se um azar (lagarto! lagarto!) nos rompesse a quietude do quotidiano no Porto ou em Lisboa, os turistas deixariam de aparecer por cá, mas estas grandes metrópoles terão eternamente os seus adeptos - com monumentos e museus ímpares, com os espetáculos, com a oferta gastronómica e comercial praticamente inigualável em qualidade e diversidade. Há cidades felizes. Londres é uma delas.

1 comentário:

Maria disse...

Eu por mim fiquei em casa a remoer (no bom sentido) a homenagem a Helder Macedo,a ler "Independent on Sunday", ouvir Schubert e Wagner e seguir pela televisao a manifestacao la para Trafalgar Square a proposito da Conferencia sobre Meio Ambiente que tinha comecado em Paris. Entao nao e que dois manifestantes subiram ao telhado de Buckingham Place com ums escada de madeira e, enquanto dialogavam com os policias que lhes pediam para descerem, ja tinham marcado presenca, eram horas de ir dormir responderam: Estamos confortaveis, temos café quente e bolas de berlim!!!

Ainda nao vi as noticias mas ja foram dormir com certeza.

Boa semana

F. Crabtree