segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Os amigos da dissidência


Eles andam por aí de lupa. Escrutinam declarações, inventariam adversativas, procuram dissonâncias, esgravatam distanciamentos, magnificam clivagens, enfim, tentam criar a onda que possa travar o que parece inevitável. São os que ainda assentam a sua réstea de esperança naquilo que julgam ser a "dissidência" socialista.

O tema, claro, é o "vermelhusco" governo alternativo à sua querida coligação. Desde a noite das eleições, figuras que, para a direita, eram, ainda na véspera, alvos de crítica ou desprezo, passaram, de um momento para o outro, a ser escutados oráculos de sabedoria - desde que, em algo que tivessem afirmado, fosse possível descortinar algo que "desse jeito" para poder ser utilizado contra António Costa. Deputados de outras bandas,  "has-beens" no remanso da reforma, comentadores mais "outspoken" - tudo é arrebanhado, com avidez, por esses detetives do potencial dissídio, esses polícias que aplaudem a palavra desviante. Na sua folha laranja de excel, todas essas figuras são colocados a crédito de uma residual e sectária esperança, da zizania, da "revolta", da indignação. 

Até eu, já bem fora das lides, só porque escrevi que não tenho a menor confiança nas garantias que possam vir a ser dadas pelo PCP ou pelo Bloco, com vista a sustentar uma eficaz governação PS durante toda a legislatura, acabei por ser elevado, na linguagem desses coletores de nomes, a "peso pesado" partidário - o que, não sendo mentira, só se transforma em verdade pelo meu peso real, depois de um fim de semana de largas comezainas. 

A direita, dos jornais complacentes e dos blogues ao seu afanado serviço, anda por aí de cabeça perdida. Pensando bem, não deixa de ter alguma graça, chega mesmo a ser até bem divertido. Enfim, é um pouco como a Coimbra da canção: tem mais encanto na hora da despedida...

12 comentários:

João Avelar disse...

CAMARADA daqui a uns meses conversaremos.

Bmonteiro disse...

Um (a)divertimento total.
Pese a incapacidade congénita das três esquerdas para se entenderem, duas delas a dizer que sim mas a fugir com o rabo à seringa,
incapazes de ver o óbvio da oportunidade e desafia, ir governar melhor por quatro anos, não se irão comprometer de todo.
Logo, talvez um Gov PS 'facilitado' pelas duas até ver.
Uma oportunidade de oiro para desperdiçar,
quando confundem um país em quase falência com a obrigação da não-austeridade geral.
Assim sendo e perante o clamor das direitas,
um a(divertimento) geral: Choque & Pavor perante o renascimento fénixiano das Esqªs e as suas ameaças à Ordem estabelecida.
O Regime, de vento em pôpa
(expressão de Melo Antunes quando doente, estúpidamente perguntado pela sua saúde)
A bem do Regime.

septuagenário disse...

Se o Jerónimo «meter o pé na argola» mais os seus sindicatos, o Costa ganhou o dia.

aamgvieira disse...

O Jerónimo parece que exige a agricultura para António Barreto.

Jose Tomaz Mello Breyner disse...

Senhor Embaixador

O pior do encanto vai ser quando voltar a troika, e o Senhor Embaixador, como homem sério e experiente, sabe bem que se o caminho fôr o que se anuncia que eles vão voltar.

Abraço

OdeonMusico disse...

Até já ouvi esta: o PR demite-se para não ter de dar posse a um governo de esquerda.

A demissão do PR, por vontade própria, penso que não está prevista na constituição, mas enfim, tudo é possível!

o Jaime S

OdeonMusico disse...

Vejo, agora, que está prevista no artº 131

Artigo 131º
Renúncia ao mandato
1. O Presidente da República pode renunciar ao mandato em mensagem dirigida à
Assembleia da República.
2. A renúncia torna-se efectiva com o conhecimento da mensagem pela Assembleia da
República, sem prejuízo da sua ulterior publicação no Diário da República.

o Jaime S

Helena Sacadura Cabral disse...

Meu caro Francisco
O que mais me entristece neste país que tanto amo, é ver os portugueses mais responsáveis - porque melhor preparados - lutar entre si não como adversários que pensam de modo diferente, mas como inimigos a quem se deseja a morte, tal o excesso verbal a que chegaram.
Julgo que Portugal e os portugueses mereciam bem melhor. Mas infelizmente é esta a prata da casa...pelo menos, aquela que ainda não foi vendida!

Manuel do Edmundo-Filho disse...

Amigo Breyner,

É provável. Pelo menos a troika já foi (descarada e desavergonhadamente) convidada pelo Cavaco Silva...

Joaquim de Freitas disse...

Desculpe Senhora D.Helena Sacadura Cabral : Não sei se os portugueses merecem realmente melhor que o que se vê no panorama politico presente. Um povo , do qual a metade fica em casa quando devia ir votar, e que depois protesta porque as coisas vão mal, que passa mais tempo diante dos ecrãs de televisão para um jogo de futebol que num comício eleitoral para debater do seu futuro.

Portugal sim, merecia melhor, mas os cidadãos não pensam assim.

Um povo que reage molemente perante o acto anti democrático dum presidente que escolhe os partidos com os quais aceita de governar, e que despreza um quarto dos votantes , dos partidos que elegeram mais deputados.

Basta ler a imprensa estrangeira para nela notar a surpresa que um país pertencente à UE espezinhe assim os valores da democracia.

Joaquim de Freitas disse...

O Senhor Breyner, quaisquer que sejam os resultados eventuais obtidos por um governo eventual da esquerda, espera bem que a Troïka regresse , quanto mais não seja para confirmar que não existe nenhuma alternância possível a um governo de direita que falhou todos os seus objectivos. Questão de princípios.

Carlos Fonseca disse...

O comentador ou comentadora aamgvieira tem sentido de humor em elevada dose.