sábado, 7 de março de 2015

Memorabilia diplomatica* (I): Comissões mistas

Naqueles tempos, as chamadas “comissões mistas”, as visitas técnicas de membros dos governos aos seus homólogos de outros países, para assinar ou cumprir acordos, demoravam vários dias, entrecortados de trabalho e de algum lazer. Bons tempos esses!

Estávamos em Marrocos, no início da minha carreira, e eu fazia parte de uma dessas delegações, chefiada por um político jovial e mundano, saído de uma área técnica que não vem para o caso referir.

Acabado o jantar oficial do primeiro dia, em Rabat, o nosso governante chama-me à parte e coloca-me uma questão: “Você é muito mais novo que eu, mas já ouviu falar do caso Profumo?”. Ora eu conhecia bastante bem a história do ministro da Defesa britânico, John Profumo, que, uns bons anos antes, havia caído em desgraça, com grande escândalo público, por partilhar uma amante com o adido militar soviético.

Estranhei um pouco que a curiosidade prosseguisse, numa linha inquisitiva: “E lembra-se do nome dela?”. Com algum gozo, mostrei a minha familiaridade com a intriga política londrina e disse-lhe que ela se chamava Christine Keeler. Ele ficou satisfeito.

Mas o que eu não sabia, e ele logo me revelou com um sorriso cúmplice, é que, segundo informações seguras de que dispunha, Christine Keeler vivia então em Marrrocos, mais precisamente em Casablanca, onde dirigia nada mais nada menos que uma próspera “casa de meninas”.

Chegado a este ponto, o nosso político – que, diga-se de passagem, não foi muito longe na sua carreira governativa – lança-me o desafio: “Meu caro, você é um homem do mundo, lá dos Estrangeiros e agora vai ter de mostrar o que vale. Tem como missão arranjar maneira de, numa destas noites, eu dar um salto lá à “casa” da Keeler. Fale com o protocolo marroquino, eles estão habituados a estas coisas. E você, se quiser, até pode vir comigo. Tome bem nota: é um encontro com a História!”.

Caí das nuvens, confesso. Fiz-lhe ver que, andando nós com batedores, com uma delegação relativamente numerosa e enredados em compromissos oficiais vários, era um pouco delicado e difícil montar uma escapada lúdica daquele porte, para uma cidade a quase uma centena de quilómetros da capital. Mas o nosso político insistia e, praticamente, só não ameaçou queixar-se de mim em Lisboa porque, apesar de tudo, este tipo de tarefas não fazia parte, pelo menos obrigatória, da “job description” dos nossos diplomatas.

A minha discreta missão junto do protocolo marroquino não teve, porém, aquilo que se possa qualificar como um acolhimento entusiasmado. No entanto, para atenuar os fulgores do nosso político, lá se conseguiu para ele um programa alternativo, através de uma espécie de “room service” feminino, que a viúva de um antigo chefe da polícia de Rabat tinha à época instalado para clientes VIP, no hotel onde nos alojávamos. Do mal o menos.

John Profumo morreu já há alguns anos, bem depois no nosso episódico governante. Christine Keeler, que tem hoje 73 anos (na bela foto que reproduzo tinha 19), acabou por ganhar renovada fama, em 1989, com o filme “Scandal“, onde era relatada a sua aventura londrina. Não verifiquei, na autobiografia que publicou, os relatos das suas posteriores noites de Casablanca. Mesmo que o tivesse feito, e graças à minha lamentável imperícia diplomática, eles não poderiam incluir qualquer nota sobre a visita de um fogoso político português, nos idos da década de 70. A menos que outros por lá tivessem andado! Quem sabe?...
* Memorabilia diplomatica : inicio hoje a republicação de historietas diplomáticas já inseridas neste blogue, que o tempo deixou para trás e que, naturalmente, dificilmente serão do conhecimento dos leitores mais recentes. Irei numerá-las à medida da sua republicação, que será feita sem qualquer critério temporal. Usando a frase que as escolas hoteleiras ensinaram a dizer, nos restaurantes, aos miúdos delas saídos, "espero que gostem".

19 comentários:

Portugalredecouvertes disse...

Sr. Embaixador, habituada ao seu tipo de publicações, fui verificar se era mesmo no seu blogue que me encontrava antes de enviar o comentário!
Esse lado sexy do assunto é mesmo um prelúdio de primavera ?!

Bartolomeu disse...

Se o politico português que refere,tivesse o nome de Muammar Abu Minyar al-Gaddafi, o Senhor Embaixador não teria sido instado a trocar hábeis mimos diplomáticos com os marroquinos. Aquilo que teria de fazer, era mandar imediatamente uma cáfila de camelos à cidade onde estavam as meninas de mm Christine Keeler e traze-las imediatamente ào hotel do macho latino. Mas, remata o Senhor o primeiro parágrafo, escrevendo:«Bons tempos esses!». Bons tempos?! Como assim? Bons tempos por passarem temporadas em países estrangeiros, alojados em hoteis e tomando refeições em restaurantes que praticam preços para sultões? E, levando atrás comitivas cujos membros na sua maioria, não faziam a mais pálida ideia de porque ali se achavam?! Mas, permita-me que lhe anuncie uma novidade, que me parece passar-lhe ao lado, Senhor Embaixador; o regabofe não acabou. Atualmente, a "coisa" amainou, não tem comparação por exemplo, com o nº imbatível de viagens do ex-PR, Dr. M. Soares (around the world)com comitivas de trezentas pessoas, fora jornalistas e MNE. No entanto, os dois PRs que se lhe seguiram, tentaram, igualar-se-lhe. Esforço inglório, aquele record de ateleta de alta competição mantem-se sem precisar de incluir no palmarés as célebres "presidencias abertas" precedidas pelos roteiros de Sampaio e de Cavaco... pfhhh, meninos! Dizia-me um cidadão americano em conversa num restaurante do Guincho, ao almoço, enquanto tentavamos suadamente reduzir a cascas, uma lagosta e umas quantas de Palácio da Brejoeira: -Portugal é um país imenso! -Imenso, indaguei suspeitando que o meu convidado, à semelhança de inúmeros estrangeiros estaria a incluir o nosso território no castelhano. Sim, imenso em dois aspetos contraditórios: é imensamente pobre e é o país em que os governantes gastam imensamente mais dos dinheiros públicos, sem proveito para o país. Lembrei-me logo de umas quantas viagens presidênciais, com comitivas de ministros, empresários, convidados, etc, etc, etc. Delas, duas mais recentes: a viagem presidencial à Turquia, em que os alojamentos se deram em hoteis de topo e em que, no último dia, o avião fretado deu uma volta de alguns milhares de Km só para visitar as maravilhas turísticas da Capadócia. Mas, como diz o meu amigo americano; Portugal é um país imenso. Imenso na pobreza, na estupidez e no desprezo que lhe é votados por aqueles que o governam.

jj.amarante disse...

A senhora não envelheceu bem, a acreditar nesta notícia: http://www.dailymail.co.uk/news/article-2401524/Former-model-Christine-Keeler-71-unrecognisable-50-years-Profumo-affair.html

Será que viveu mesmo em Casablanca?

Anónimo disse...

Caro Bartolomeu,

Para quem critica tanto a ostentação dos governantes portugueses (com a qual concordo!), não fica nada bem intercalar o comentário com o seu faustoso almoço num restaurante do Guincho, a saborear a "bela" da lagosta suada regada com umas quantas de Palácio da Brejoeira... acompanhado de um amigo americano para que não subsista qualquer dúvida que o seu convidado não é um subnutrido do Sudão!

Por todos esses acessórios no comentário, acredito piamente que se estivesse na posição de governante também iria aproveitar para fazer a tal "escapadinha" à Capadócia!

"Bem prega Frei Tomás, faz o que ele diz e não o que ele faz"!

Uma boa e santa digestão!

a) Condessa da Brejoeira

Anónimo disse...

Caro jj.amarante,

Fui ver o link que colocou e a senhora está mesmo irreconhecível... Pudera com a vida que deve ter levado!

a) Condessa da Brejoeira (apenas por um dia)

Bartolomeu disse...

Cara Condessa da Brejoeira,
A lagosta que o meu convidado americano e eu saboreámos, assim como "as" do Palácio, não foram pagas através de verbas retiradas ao erário público. Talvez não saiba, mas esse cúmulo de dinheiro que entra nos cofres do Estado com a finalidade de ser distribuido pelos serviços do Estado, é lá colocado através da coleta de impostos aos trabalhadores e às empresas, em suma, àqueles que suam; não lagostas mas "estopinhas" para cumprirem imaculadamente com as suas obrigações cívicas. Portanto, mesmo que a um alto dirigente da nação, seja atribuida uma verba do OE para despezas com deslocações ao estrangeiro (através do MNE), cabe a ambos a obrigação ética e moral de o usar com parcimónia e quando se verifica a sua necessidade absoluta, ou daí resultem benefícios para o país. O desvio`pela Capadócia, não me parece que seja passível de enquadrar em qualquer destas situações. Se o nosso país não fosse imenso, pelas tristes razões que referi, qualquer membro do nosso governo, antes de iniciar qualquer deslocação que implique elevado dispêndio de verbas, teria a preocupação, ou pelo menos a curiosidade de se informar do número de pessoas idosas que vivem com a pensão mínima de sobrevivência, se essas pessoas dispõem de meios que lhes permitam alimentar-se, comprar medicamentos, pagar renda de casa, água e luz. O básico. Se depois de conhecer esses números, mantivesse a decisão de viajar acompanhado de extensa comitiva, composta em grande parte pelos empresários que lhe subsidiaram a campanha eleitoral, então não precisava de se preocupar com a sua consciência... seria sinal de que ela, simplesmente não existiria.

Francisco Seixas da Costa disse...

Ó Bartolomeu. Se não consegue perceber uma graça, se para si tudo é "sério" e "grave", então tome alguma coisa para a vesícula... Aproveite o sol, ria e divirta-se, homem!

Bartolomeu disse...

Ó Francisco Seixas da Costa. Não sei a que graça se refere específicamente. Daquilo que li no post que colocou, não encontrei graça capaz de me arrancar uma gargalhada e posso assegurar-lhe que em matéria de boa disposição e facilidade em entender uma piada e rir ou gargalhar se for caso para isso, não me considero nada avaro. Contudo, posso garantir-lhe que também não me indignei com o que escreveu, conheço demasiadamente bem, na primeira pessoa, esse ambiente que descreve, pelo que, não teria feito outra coisa na vida, que andar indignado e irritado. E depois... sei também que não publicou o "Memorabilia diplomatica" pensando na minha visicula, que felizmente se tem mantido sã no decorrer dos já longos anos da sua existência. Posto isto, creio que não restarão dúvidas, quanto ao propósito do meu comentário, que não sendo o de arrasar não é também o de aplaudir. Mas, para aquilo que eu penso, estará o Senhor a "borrifar-se" e mesmo não precisando de conhecer a minha opinião, digo-lhe que faz muito bem.

Bartolomeu disse...

Francisco Seixas da Costa,
Acabo de ver - no noticiário da SIC - Cavaco Silva; ao ser-lhe pedida opinião acerca do "atraso" do PM, relativamente ao pagamento dos impostos em atraso responder, não dever pronunciar-se acerca de problemas politico-partidários.
Eu, gostei de o ver e ouvir na "quadratura do circulo", opinar e criticar a conduta do PM (não obstante a brandura com que o fêz). Agora, perante o que disse Cavaco Silva, pergunto-lhe; em sua opinião, o PR tem a visicula toda avariadinha?

Bartolomeu disse...

PS; A moderação de comentários, é uma ferramenta útil. Não me causa qualquer indignação se decidir que os meus comentários não devam aparecer no blog.
Aquilo que comento é dirigido à sua pessoa, não procuro sensibilizar outras opiniões, nem convencer ou chamar adeptos para uma causa que não defendo, porque nem sequer existe.

Anónimo disse...

Apoiado Bartolomeu.

Francisco Seixas da Costa disse...

O Bartolomeu não parece entender que o relato de uma hostorieta simples, com décadas, não é talvez o pretexto mais adequado para tirar ilações moralistas sobre gastos, viagens e coisas assim. Cada período tem as suas regras e as suas práticas e não é necessário, a propósito de tido e de nada, estar a fazer juízos de valor.

Bartolomeu disse...

Caro Senhor,
Não vou insistir neste assunto. As opiniões que ele me suscitou, ficaram registadas e, da minha parte está cumprido o propósito por que as escrevi.Não termino sem deixar de assinalar o sentido de diálogo "democrático" que demonstra possuir, ao permitir que os meus comentários apareçam no bloger, apesar de, como me pareceu, os considerar descabidos.

Anónimo disse...

Sabe-se lá o porquê de se exigir a demissão de um PM por ter tido uns desaguisados com as Finanças e a SS e não se dar a mínima importância ao caso de um "digníssimo" governante gastar uns dinheirinhos públicos numas levezas mundanas. Menos ainda se o cônjuge, que ficou em terra, tiver conhecimento com a reação correspondente.
Está para nascer o Bartolomeu que dobrará o cabo desta questão.

Nuno Pessoa disse...

Só de há muito pouco a esta parte é que tenho lido e ouvido o Sr. Embaixador e já percebi e senti , que é uma pessoa conhecedora , sensata e ponderada. Por esses motivos , tenho em muito boa conta as suas opiniões. No entanto , não posso deixar de concordar inteiramente com o aqui expresso pelo Sr. Bartolomeu.

O episódio relatado pelo Sr. Embaixador até podia ter a sua laracha caso não estivessem envolvidas pessoas em funções públicas e em actos oficiais, em representação e a expensas , portanto , do Estado e do povo português.

Esse espírito de abastança , sem sustentação na realidade ,algo laxista e muito elitista , sempre grassou entre bastantes portugueses , muito especialmente naqueles que ,em determinado momento das suas vidas , por razões várias , desempenharam ou desempenham funções públicas e/ou têm cargos políticos.

Talvez seja o carácter transitório que esses cargos têm , que faça com que as pessoas que o ocupam «se esqueçam» de quem , no final , vai pagar a conta e então , se aproveitam dessa circunstância , para usufruir de mordomias e prazeres que de outra forma não usufruiriam.

Até entendo! Afinal , ninguém é de pau!

Mas então que façam como o Sr. Bartolomeu e o seu amigo americano: que as lagostas degustadas sejam suadas com o suor do seu próprio esforço e não com suor de esforço alheio.

Francisco Seixas da Costa disse...

Esta é a última nota que dedico a este assunto, uma historieta passada há décadas. O governante em causa não gastou - que eu saiba! - um cêntimo de dinheiro público na sua noite marroquina. Ninguém pode deduzir o contrário do que deixei escrito. Ponto final.

Isabel Seixas disse...

oh...
Pois só confiro idoneidade, para comentar este post, tendo em conta um sábio saber de experiências feito à minha querida velha amiga.

Entretanto

Após o expediente, cumprido o dever
faz parte da liberdade individual
descansar e embrenhar-se com gosto no lazer

da gastronomia ao pecado original


sendo assim o evangelho da heresia
bradar aos céus por dá cá aquela palha
já não vem mal ao mundo pela hipocrisia
ou sublimação no arrefecer a fornalha

evitar com regra os locais de perdição
pode até ser a renuncia à cultura
deslise da força da vontade e
ilusão
de ver razão para por água na fervura

a solução passa por duros desenganos
ossos do oficio de servir a dois amos...


"guardador das escrituras do Tombo",



jlsc disse...

Diz o senhor que, transcrevo, "O governante em causa não gastou - que eu saiba! - um cêntimo de dinheiro público na sua noite marroquina. Ninguém pode deduzir o contrário do que deixei escrito.".
Não compreendo esta sua afirmação.
O senhor e o seu libidinoso governante encontravam-se em Marrocos no exercício de funções públicas. O mesmo é dizer que as estadas de um e do outro naquele país eram custeadas pelo erário público. Assim, foi aproveitando a "boleia" do Estado português que teve acesso ao "room service".
Não foi bonito, mesmo que sem custos (financeiros) adicionais, convenhamos.
Mas na realidade teve-os.
Não sei se tem formação jurídica (conheço diplomatas que não a tiveram), mas decerto que compreende que o custo financeiro das suas funções era balizado pelo princípio da legalidade. Isto significa, como bem sabe, que não podia dar um passo diplomático sem que excedesse o quadro das suas funções. Indo além delas servindo-se delas é usar o erário que as sustenta.
A leveza do espírito acomoda-se bem, diria talvez (se não tivesse dito já a sua última palavra), a essas brejeirices e aos inofensivos desvios funcionais, numa cascata tornada possível pela tolerância gerada pela adequada satisfação do interesse público, no exercício do cargo. Não se podia abusar do direito à respeitosa representação quando a incomodidade resultante era pouco conveniente para a progressão na carreira...
Tudo isso é certo, sensato, relativizável, na atmosfera própria da representação externa do Estado.
A estória é interessante e está bem contada, é uma anedota engraçada, sem mais.
Mas, senhor Embaixador, tudo teria ficado muito mais ligeiro se não se tivesse sentido na necessidade de justificar o injustificável.
Os centavos que custou a sua contrariada diligência, que surtiu efeitos não previstos no seu quadro legal, pertenciam na realidade ao erário público.
Ponto final?

Frederico Melo disse...

em tempo de crise, algum humor faria bem a vesículas inflamadas... ou não?!