Foi noutro março, em 1976.
Eu estava em S. Tomé, ao serviço do nosso então Ministério da Cooperação, para tentar acabar com uma greve dos professores cooperantes que, meses antes, tinham sido enviados de Portugal para o novo país. No jardim da residência do embaixador, entrei à conversa com uma velha empregada, a quem procurei indagar como é que os santomenses estavam a viver a sua independência recente.
"Eu não sou de cá, sou de Cabo Verde", respondeu-me a senhora. "Vim para S. Tomé há muito tempo".
"E agora, com o seu país também independente, tenciona regressar? Tem lá a sua família...", comentei.
Demorei uns segundos a entender o olhar triste da mulher e a indizível tristeza da sua resposta: "Eu não posso regressar nunca à minha terra. Não vou voltar a ver a minha família. Não tenho dinheiro para voltar. Vou morrer por aqui."
Tudo o que eu sabia sobre a tragédia dos "contratados" caboverdeanos, levados para um trabalho quase escravo nas roças santomenses, nada representava, ao lado da lição da vida daquela mulher, que nunca teria suficientes posses para a aventura que representaria regressar à sua terra natal, com a qual não havia já ligações marítimas e as vias aéreas eram muito escassas, complicadas e caras.
Anos mais tarde, ao ouvir Cesária Évora cantar o "Sodade", onde se fala, em crioulo, de "esse caminho longe, esse caminho para S. Tomé", percebi melhor o drama criado pela dispersão humana no nosso passado colonial.
Ontem, ao ver anunciado num jornal que as autoridades de S. Tomé vão finalmente conceder a nacionalidade aos descendentes dos caboverdeanos imigrados no país, lembrei-me dessa minha conversa com a empregada da nossa embaixada.
(Reedição de historietas da diplomacia por aqui já publicadas)
(Reedição de historietas da diplomacia por aqui já publicadas)