Eu estava na Noruega, em 1980. Era, episodicamente, "encarregado de negócios", na ausência em férias do embaixador. A revolução no Irão acabara de acontecer. O Xá tinha saído do país, Khomeini tinha regressado do seu exílio parisiense. Em Oslo, o meu colega iraniano, Parviz Azarnia, uma figura muito ativa e agradável dos circuitos diplomáticos locais, desapareceu da circulação, de um dia para o outro. Pelas notícias, íamos seguindo a agitação no Irão, com grande curiosidade.
Um dia, na nossa embaixada, fui avisado de que um cidadão português, residente em Oslo, queria falar comigo. Os nossos compatriotas não excediam então as duas centenas, por todo o território norueguês. Apareceu-me um tipo gorducho, algo afogueado, a apresentar um problema. Desde há anos que era cozinheiro da Embaixada iraniana. De um dia para o outro, todos os iranianos da Embaixada, residência e chancelaria, se tinham ido embora. Ele estava sozinho, há duas semanas, sem saber o que fazer, quase sem dinheiro. Tinha a intenção de procurar um novo emprego. Mas não sabia o que havia que fazer com a chave da residência, de que era o único ocupante. E fez-me uma inesperada sugestão: podia eu ficar com a chave da Embaixada, dando-a, mais tarde, aos futuros novos colegas iranianos?
A ideia era bizarríssima. A embaixada iraniana era, e é, um imponente edifício quase em frente à nossa residência, em Drammensveien, em Oslo. Tive o bom senso denem sequer transmitir o assunto para conhecimento de Lisboa. Os telegramas com historietas, subscritos pelos substitutos dos chefes de missão são, no anedotário do MNE, motivo regular de gozo dos colegas. E a história de um cozinheiro português a "entregar-me" a Embaixada do Irão iria fazer o gáudio dos claustros das Necessidades, por muito tempo. Assim, optei por entrar em contacto com o serviço do protocolo do Ministério dos estrangeiros norueguês, com quem aconselhei o cozinheiro a falar. Nunca soube se o fez.
O que eu soube, poucos dias mais tarde, é que uma nova e mais ortodoxa equipa diplomática iraniana chegou, finalmente, a Oslo. O cozinheiro português terá sido de imediato despedido. O menu tinha mudado no Irão.
(Reedição de historietas da diplomacia por aqui já publicadas)
(Reedição de historietas da diplomacia por aqui já publicadas)
