Há 12 anos, dia por dia, teve lugar aquela que ficou conhecida como a "cimeira" das Lajes, no Açores. Politicamente foi uma farsa destinada a criar a ilusão de que ainda era possível evitar que os Estados Unidos invadissem o Iraque, à procura das "armas de destruição maciça". A história e farta documentação provam hoje que essas armas nunca existiram e que a decisão de Washington estava tomada, independentemente de qualquer legitimação da comunidade internacional.
Portugal prestou-se ao triste papel de hospedeiro nas Lajes. Ao país, o primeiro-ministro de então, Durão Barroso, ficou para sempre a dever uma explicação pelo facto de ter conduzido Portugal a um papel servil e desonroso. O ministro da Defesa de então, Paulo Portas, também ainda há-de explicar um dia as provas da existência dessas armas, que então disse que "viu".
Somos um país sem memória porque, se a tivéssemos, talvez alguém chamasse hoje à pedra um bando de propagandistas, alguns sob a capa da profissão de jornalistas, feitos "neocons" da paróquia, que, dos jornais aos blogues, passando pelas complacentes televisões, argumentaram então, por semanas, em favor da "justeza" dessa guerra, que acabou por conduzir o Iraque à situação em que está, pasto para o atual Estado Islâmico e para o incontrolável caos que afeta toda a região. Um deles, hoje alcandorado a um posto de nomeação governamental, escreveu então que, se acaso se viesse a provar que as tais "armas de destruição maciça" não existiam, se "passearia nu pelo Rossio". Não há, por ora, notícias desse triste espetáculo, que o país anseia ainda testemunhar.
A propósito da publicação do livro de Bernardo Pires de Lima: “A Cimeira das Lajes - Portugal, Espanha e a guerra do Iraque” (ed. Tinta da China, Lisboa, 2013), escrevi no nº 44 da revista "Relações Internacionais" um texto sobre a obra, que pode ser consultado aqui.
