quinta-feira, maio 05, 2022

"La Place Rouge était blanche..."


Nos últimos anos, o desfile militar de Moscovo, em 9 de maio, era usado como uma “montra” da crescente capacidade da Rússia como potência, nomeadamente no plano da guerra convencional. Depois dos azares russos na Ucrânia, este ano vai ser bastante difícil compatibilizar as duas imagens. É que pode surgir a pergunta: mas se a Rússia é assim tão forte, porque é que o não mostra na Ucrânia...

... e a Ucrânia ali tão longe!

As críticas de Lula a Zelensky não devem ser descontextualizadas da circunstância de, fora da Europa, a questão ucraniana ser vista de uma forma mais distanciada, em que a “demonização” da Rússia não parece ser tão evidente.

Ah! La France!


Com imensa dignidade, Valérie Pécresse recusou a contribuição financeira de Nicolas Sarkozy (que apoiou Macron) para atenuar a imensa dívida das suas despesas de campanha, em que não teve direito a subvenção estatal, por não ter atingido 5% de votos. E respondeu-lhe: “Merci pour ce sabotage!”.

Bela memória, a lembrar o livro-vingança de Valérie Trierweiller contra o seu antigo companheiro François Hollande, intitulado “Merci pour ce moment”. Cá se fazem...

Marx e a liberdade


Marx, se fosse vivo, faria hoje 224 anos. Há muito quem pense que ele ainda anda por aí. E, se calhar, de vez em quando, ele faz-se lembrado. Mostro sempre, aos meus amigos estrangeiros, uma estátua, na Avenida da Liberdade, que é Karl Marx ”por uma pinta”, como antes se dizia. Por uns segundos, interrogam-se sobre este estranho marxismo olisiponense.

“A Arte da Guerra”


Convido-os a ver e ouvir o programa ”A Arte da Guerra” desta semana, o podcast do “Jornal Económico” onde, esta semana, falo com o jornalista António Freitas de Sousa sobre a guerra na Ucrânia, a luta eleitoral em França e a Irlanda do Norte, onde vão ter lugar eleições que podem, pela primeira vez e a acreditar nas sondagens, colocar os nacionalistas católicos do Sinn Féin na chefia do governo, em detrimento dos unionistas protestantes do DUP.

Podem ver clicando aqui: https://youtu.be/U5GYNkAVvKk

Autocrata por autocratas

Com o embargo ao petróleo russo, a União Europeia dará um rude golpe num regime que, mantendo formalmente uma estrutura democrática, é já, na prática, uma ditadura. A grande ironia é que, para substituir a Rússia, a Europa vai passar a reforçar importações de outras autocracias.

Os vinte magníficos


Hoje, dia em que o Procópio comemora os seus 50 anos, é o dia certo para aqui deixar registados os nomes de 20 dos integrantes da nossa tertúlia da Mesa Dois, animada pelo grande Nuno Brederode Santos, que já se foram. Amigos que, infelizmente, tiveram de sair mais cedo do bar.

Álvaro Neves da Silva 

António Franco 

António Russo Dias 

António Silva

Artur “Kiko” Castro Neves

Caetano da Cunha Reis

Carlos Antunes

Conceição Antunes

Fernando Vilhena

Jorge “Jójó” Galamba 

Jorge Fagundes

José Cardoso Pires

José Carlos Serras Gago

José Fonseca e Costa

José Medeiros Ferreira

Leonor Xavier

Luiz Rosa Dias

Nuno Brederode Santos

Raul Solnado 

Simão Santiago

Covid

Cada vez me chegam mais notícias de pessoas amigas e conhecidas com Covid. Porque, nos próximos dias, vou ter de estar em diversos “ajuntamentos”, vou ter de utilizar o meu direito à máscara.

“Passe lá!”

É sempre depois de jantar, antes da recolha pública do lixo. Nunca o vi montado na bicicleta que encosta à parede, de cujo guiador pendem dois sacos de plástico, enquanto, com a ajuda de uma lanterna, espiolha o caixote que, todas as noites, eu e os meus vizinhos colocamos na rua, à porta do prédio onde vivo. Já ocorreu as vezes suficientes para perceber que é um rotina antiga, embora por ali não diária.

Na penumbra em que tudo ocorre, muito pela sua postura física inclinada, mas também por algum assumido embaraço da minha parte, nunca lhe olhei bem a cara de frente. Terá 50 e tal anos, veste-se como qualquer de nós e fico com a sensação de que, se o encontrasse em outra circunstância, num escritório ou numa sala de espera, nunca o reconheceria. Ele opta por não nos fixar, evitando qualquer interlocução, nem que seja para um simples boa-noite, que já tentei sem sucesso.

Quando ontem cheguei à porta da rua, estava na minha frente, na sua tarefa habitual, apressada, com o caixote a dificultar a minha saída. Disse-lhe: “Dá-me licença?”. Proferi a frase com o maior cuidado, tentando que não parecesse impositiva, nem que dela soasse minimamente qualquer réstia de ironia, por ter de pedir-lhe espaço para poder sair. Ele puxou o caixote uns centímetros para o lado e, sem conferir a menor expressão naquilo que disse, respondeu, secamente: “Passe lá!” E continuou na sua tarefa.

Algumas vezes em que, ao final do dia, vou colocar o lixo naquele caixote, dei comigo a pensar: como é que alguém tem a coragem física para ir vasculhar nos restos de comida que deixamos nos sacos, no pão que já tinha bolor, nas maças que afinal estavam podres, nas cascas e nos restos de tudo o que ficou do nosso dia que terminou? Como é que alguém, contra o mínimo de regras de higiene, se atreve a escolher o que nos sobejou por imprestável, em condições críticas de risco sanitário? Como? Por necessidade.

Custa-me a ideia de que, meio século passado sobre Revolução de Abril haja gente que não tenha escapado a este destino, ou que pode, a qualquer momento, cair nele. Aquele “passe lá!”, seco e indiferente, marcou-me. É que eu passei e ele ficou por ali.

Guterres

Os que foram tão críticos, apontando a “irrelevância” da deslocação de Guterres a Moscovo e Kiev, já fizeram a sua “mea culpa”, ao terem de constatar que a ação da ONU, articulada com a Cruz Vermelha, por iniciativa do secretário-geral da ONU, está a salvar a vida a muita gente?

quarta-feira, maio 04, 2022

Macron e a França

Macron está prestes a nomear um novo primeiro-ministro, que é capaz de ser uma mulher, para tentar surfar “l’air du temps”. Seja essa pessoa quem vier a ser, a imprensa francesa já antecipa, com algum humor, que será alguém que os franceses se habituarão rapidamente a detestar.

O PCP

Face ao policiamento pidesco em curso, imagino que alguns achassem que eu deveria começar este texto por um qualquer “disclaimer” preventivo - falando da Ucrânia, de não ser comunista e coisas assim. Mas, deliberadamente, não o farei, porque não tenho de dar a menor satisfação a esse tipo de gente. 

Direi apenas que nem sequer atribuo excessiva importância ao que algumas vozes desgarradas andam por aí agora a remoer contra a legitimidade da existência do Partido Comunista Português, na nossa cena política. 

Devemos tratar isso como meros roncos de ressonância fascistóide, quer sejam ditos por portugueses ou por estrangeiros, respondendo a todos com um imenso desprezo e sem a menor consideração.

Leonardo Padura


O escritor cubano Leonardo Padura está em Portugal, para apresentar o seu novo livro “Como poeira ao vento”. Falámos no domingo, num jantar com amigos. 

Padura continua a olhar de forma muito empenhada o seu país e o quotidiano dos seus concidadãos, com um humor sereno e uma inteligência aberta e muito atenta. É um prazer ouvi-lo.

Conhecemo-nos em Cuba, há quinze anos. Descobrimos então que, nos anos 80 do século passado, ambos tínhamos coincidido em Angola, sem nunca nos termos encontrado.

Nesse ano de 2007, Padura estava a ultimar o seu grande êxito inicial, o extraordinário romance “O homem que gostava de cães”. 

De então para cá, um pouco por todo o mundo, a obra de Leonardo Padura tem-se tornado conhecida e muito apreciada.

Amanhã, quinta-feira, pelas 19 horas, Leonardo Padura falará no teatro São Luis sobre literatura policial.

Diplomacia

Do grupo de alunos que, com outros colegas da Universidade Autónoma de Lisboa, ajudámos a preparar para o acesso à carreira diplomática - naquele que é, a grande distância, o concurso de entrada mais exigente da função pública - há apurados para a fase final. Da última vez que isso aconteceu, todos foram admitidos. Vamos agora trabalhar para repetir isso.

Serviço público

Em apenas meia-hora, com simpatia e eficiência, resolvi um problema numa Loja do Cidadão. Talvez a questão fosse fácil, talvez eu tenha tido sorte na hora em que fui atendido, a maioria das pessoas não terá a mesma experiência. Mas lá que, desta vez, funcionou, lá isso funcionou!

Frei Bento

Frei Bento Domingos escreve há 30 anos no Público, que agora o homenageou. É uma figura magnífica, um humanista com grande lucidez e coragem.

Boris

Altamente controverso na Câmara dos Comuns do seu país, Boris Johnson faz a unanimidade no parlamento ucraniano.

Claro como a água

Tendo começado na polémica do comissário e do 25 de novembro, prolongando-se agora na questão das condecorações, fica claro que alguns pretendem começar a criar, desde já, um ambiente público divisivo em torno das comemorações dos 50 anos do 25 de Abril, em 2024.

Quase NATO

Em termos formais, a Rússia acha que adesão da Finlândia e da Suécia à NATO agrava a contabilidade em seu desfavor. Porém, na realidade, ambos os países há muito que são “like-minded” com a filosofia NATO. Ou melhor: serão mesmo mais do que alguns dos atuais membros…

Mélenchon

Jean-Luc Mélenchon não pode, em rigor, ser qualificado como um político de extrema-esquerda, não obstante parte desta nele se rever. Contudo, ao ler o que propõe sobre a Europa, percebe-se que os socialistas moderados franceses possam ter uma forte razão para o não apoiarem.

"Never"

"Never complain, never explain", dizia Benjamin Disraeli.