Rui Rio esteve bastante mal, atropelado por André Ventura, sempre à defesa, sem conseguir segurar o debate. Para o eleitorado potencial do Chega, o discurso de André Ventura funciona em pleno. A continuar neste registo embaraçado, Rui Rio não convencerá os eleitores. Foi uma boa noite para António Costa.
segunda-feira, janeiro 03, 2022
Mais papistas…
Em 2017, Jaime Nogueira Pinto foi convidado por um grupo de estudantes da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, da Universidade Nova de Lisboa, para aí fazer uma palestra.
Levantou-se logo uma onda de protestos pelo facto de um “fascista” ali ir tomar a palavra, com imediatas ameaças de boicote. O movimento foi liderado por alunos tidos como afetos ao Bloco de Esquerda. A palestra, para evitar os incidentes que se anunciavam, viria a ser cancelada, numa decisão que não foi isenta de alguma polémica. (Conheço bastante bem o assunto porque, à época, eu próprio era membro do Conselho daquela Faculdade).
Lembrei-me disto, há dias, ao ver Jaime Nogueira e Fernando Rosas em ameno e urbano debate na CNN Portugal. E recordei-me, também, que, já em 2016, eu havia feito parte de um painel de debate, em Cascais, com outros dois convidados: Jaime Nogueira Pinto e … Francisco Louçã.
Afinal, constata-se que dois fundadores do Bloco de Esquerda não se sentem nada incomodados por contracenarem com Jaime Nogueira Pinto. Como, aliás, há muito tempo, conhecidos militantes do PCP - primeiro Rúben de Carvalho, agora Pedro Tadeu - dialogam com ele, com regularidade semanal, na rádio pública.
Os excitados seguidores do Bloco na FCSH na Nova, que se constata terem sido “mais papistas do que o papa”, é que são capazes de ainda não se terem dado conta disso. E se alguém os avisasse?
Debates
Ficar desobrigado de dar opinião sobre quem ganhou um debate eleitoral, muito simplesmente por não ter assistido a ele, é uma imensa sensação de liberdade, podem crer. Aconteceu-me ontem à noite.
A mensagem
Confesso que, particularmente este ano, teria gostado muito de ouvir o comentador televisivo Marcelo Rebelo de Sousa fazer a exegese crítica da mensagem de ano novo do presidente da República portuguesa que, por curiosa coincidência, é seu homónimo.
domingo, janeiro 02, 2022
Vista (2)
… e aposto em como também não foram ao miradouro de S. Pedro de Fontes, ali perto de Santa Marta de Penaguião!
Vista
Já foram ao miradouro (de onde se mira mesmo o Douro) de S. Domingos de Fontelo, a caminho de Armamar? Não foram, pois não?
“Vamelàver” poucos
De toda a imensão (insana!) de debates pré-eleitorais, tenciono ver uma meia dúzia, no máximo (AC-RR, RR-AV, AC-AV, CM-JS, CF-AV, RR-CF).
Dos restantes, espero que surjam, em qualquer lado, os mais notórios “soundbytes” e, se me constar que alguma coisa terá valido a pena, irei à “pesca” retroativa do que se tiver passado.
sábado, janeiro 01, 2022
Não é?
Constou-me, de fontes que me dizem ser da máxima confiança, que 2022 vai ser um ano magnífico. Inquiri sobre se os meus amigos estavam incluídos. Disseram-me que sim. Como não tenho a menor razão para desconfiar da pessoa a quem ouvi isso, até porque nunca a tinha visto antes, só posso acreditar, não é?
Em atraso
Chegamos ao dia de Ano Novo e damos conta de que ainda há cartões de Boas Festas por responder.
(a sério: uma relíquia que, há muitos anos, recebi de um amigo)
A linha da data
Eu sabia a razão pela qual aquela simpática funcionária do “quarto andar”, dos “serviços centrais” do MNE, entendia que havia um lapso no boletim de viagem que eu tinha apresentado, depois de uma deslocação a uma reunião nas Fidji, em março/abril de 1990.
A senhora tinha notado que “faltava um dia”. E era ”verdade”: tinha saído num voo de Honolulu, no Havai, na tarde de uma terça-feira e, escassas horas depois, havia aterrado em Nadi, nas Fidji, ao fim da tarde de … quarta-feira!
- Mas então o doutor onde é que dormiu na terça-feira?
Fazer entender que, no percurso entre o Havai e as Fidji, eu tinha atravessado a famosa “linha internacional de mudança de data” não era coisa fácil.
Convocando a curiosidade de algumas colegas da senhora, nas mesas ao lado, lá fui explicando que, quando se anda à volta do mundo, de oriente para ocidente, vai-se “ganhando tempo” e, ao passar aquela linha imaginária - que sai do polo norte pelo estreito de Bering para atravessar, com uns zigue-zagues, o Pacífico, até à Antártida - se muda “subitamente” de data. Ao longo daquela minha viagem à volta do mundo, os meus dias tinham tido assim cada vez mais horas, pelo que, no final, eu “perdera”, ou “ganhara”, dependendo da perspetiva, um dia.
Não acredito que a explicação tenha sido de todo convincente. Valia-me a circunstância de eu estar a pedir “um dia a menos de ajudas de custo”. Devia ser o bom e o bonito se acaso fosse o contrário!
Há pouco, quando vi, na televisão, o fogo de artifício em Sidney, na Austrália, recordei outra conversa que havia tido em Lisboa, em meados do mês de dezembro.
Foi com uma jovem, de vinte e poucos anos, que me dizia que há muito que alimentava o sonho de ir passar o início de ano à Austrália, “o sítio mais distante onde, por causa da diferença horária, cada ano novo começa”. As reportagens televisivas têm este efeito.
Disse-lhe: “Está enganada! Se quiser estar no sítio mais distante, a oriente, onde o dia 1 de janeiro começa, vá às Ilhas Menores, no Pacífico. Depois de comemorar o ano novo ali, se tiver dinheiro, apanhe um avião para o arquipélago de Kiribati. Ainda pode passar lá o resto da … véspera, do dia 31 de dezembro do ano anterior. E, assim, pode voltar a celebrar ali, de novo, … o ano novo!”
Olhou para mim com um ar de pouca crença! Vou recomendar que leia “A Volta ao Mundo em Oitenta Dias”, de Jules Verne. Está lá tudo explicado.
sexta-feira, dezembro 31, 2021
quinta-feira, dezembro 30, 2021
Rohmer
Ontem, à hora de jantar, numa conversa com uma familiar, falou-se, já nem sei bem porquê, do filme “Ma Nuit Chez Maud”, de Éric Rohmer. E das angústias existenciais da personagem de Jean-Louis Trintignant no filme, que, a mim, me levou a ler o “Pensées”, de Pascal, e que então me criou uma ideia mítica (um pouco falsa, vá lá!) de Clermont-Ferrand.
As coisas são como as cerejas, vêm umas depois das outras.
Por instantes, chegou-me à memória um ciclo de cinema francês, numa sala perto da avenida de Roma, em Lisboa, no início dos anos 70, onde vi, pela primeira vez, o “Ma Nuit Chez Maud”. E recordei-me, também, dos "Contes Moraux" de Rohmer. E dos embaraços, à beira-lago, da figura de Brialy, no sempiterno "Genou de Claire". E do inesquecível "L'amour l'après-midi", de onde um amigo meu retirou o dito magnífico de que "mais vale à tarde do que nunca"...
Mas voltemos a Clermont-Ferrand. Fui lá, um dia, há 11 anos, para um encontro com a comunidade portuguesa, creio que numa festa de São João, quando era embaixador em França.
No segundo dia, antes de regressar a Paris, consegui umas horas livres. Para espanto do simpático motorista que por ali tive, pedi-lhe para me levar a alguns pontos da cidade, que havia registado num mapa, construído pela minha memória do filme. Um deles era uma vista de um ponto alto. O que o homem suou para descobrir o sítio! Mas lá chegámos (deixo a imagem que queria recordar).
Passou-se, entretanto, pouco mais de um ano.
Fui passar um fim de semana a casa de amigos, na Baixa Normandia. No sábado, a dona da casa convidou-nos para ir ver uma interpretação da peça musical "Carnaval des Animaux", de Saint-Saenz, num festival cultural, perto de Alençon. No palco, estava uma atriz, uma bela senhora de 67 anos. Fui-lhe apresentado no final.
E disse-lhe: "Lembro-me de si a passear de motocicleta, em Clermont-Ferrand". "Mas eu nunca vivi em Clermont-Ferrand!", respondeu-me ela, amável. "Talvez não! Mas passeou por lá, de motocicleta. Ou não?" Reação, segundos depois: "Ah! no filme?!" e fez um largo sorriso: "Que simpático! Ainda se lembra?" Claro que lembrava! Eu lembro-me sempre do que me dá prazer.
A senhora era Marie-Christine Barrault, a inesquecível atriz de “Ma Nuit Chez Maud”. Naquele ano de 1969, nesse seu primeiro filme, aos 25 anos, tinha protagonizado algumas cenas inesquecíveis - pelo menos para mim. Depois disso, iria ter uma carreira muito diversa. Repetiu Rohmer, por exemplo, no tal "L'amour l'après-midi", fez o histórico "Cousin, cousine", esteve mesmo no "Stardust Memories", de Woody Allen, e até, hélas!, no "Le soulier de satin", de Manoel de Oliveira.
Foi um gosto raro cruzar a memória com a vida, ainda que cinematograficamente apenas virtual. E tive então o prazar de beber, com Marie-Christine Barrault, uma cidra normanda, saudando esses tempos bons.
Rohmer acaba aqui, por hoje? Não.
Há minutos, recebi um pedido de “amizade”, no Facebook, de José Manuel Costa, que é, nem mais nem menos, do que o Diretor da Cinemateca Nacional. Só isso? Também não. José Manuel Costa tinha acabado de colocar um “post” onde procurava saber onde poderia adquirir a caixa DVD com os filmes dos Contos das Quatro Estações. De quem? De Eric Rohmer.
Eu sei que não há coincidências. Mas, tal como as bruxas, “pero que las hay, las hay!”
quarta-feira, dezembro 29, 2021
O último “A Arte da Guerra” de 2021
Neste final de ano, o “A Arte da Guerra”, o podcast” do Jornal Económico, assume um formato diferente. Na primeira parte, é feita a escolha do “acontecimento do ano”, na segunda da “personalidade do ano”, para, na terceira parte, a conversa entre mim e o jornalista António Freitas de Sousa assentar no que podem vir a ser os pontos mais marcantes de 2022.
Pode ver aqui.
terça-feira, dezembro 28, 2021
Que título!
O meu amigo Alfredo Branco, proprietário dessa vetusta e inestimável instituição cultural do bem que é a Livraria e Papelaria Branco, em Vila Real, tinha guardada, para mim, esta oferta de Natal.
O livro tem um título que me lembra alguma coisa, embora eu não saiba bem o quê.
segunda-feira, dezembro 27, 2021
Há gangorra no Grenal
Num final de tarde de 2007, aterrei no aeroporto de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, no Brasil.
Durante a viagem no táxi que me conduzia ao hotel, vi passar carros com bandeiras, no que me pareceu ser o prelúdio de um qualquer evento desportivo. Perguntei ao motorista de que se tratava. O homem, pelo retrovisor, olhou para mim com cara de poucos amigos e, claramente, com algum desprezo, justificado pelo meu desconhecimento, esclareceu: "Hoje o Grêmio joga com o Inter".
Foi então que me veio à memória que, em Porto Alegre, existe uma das maiores rivalidades que opõem clubes na América Latina - quiçá mesmo do mundo.
O Grêmio e o Internacional, ambos clubes da cidade, são, desde há bem mais de um século, adversários ferrenhos, numa conflitualidade que já produziu mortos e que deixa o clássico carioca Fla-Flu (Flamengo-Fluminense) com o estatuto de rixa de infantário.
Quando um desses clubes gaúchos (“gaúcho” designa um originário do Rio Grande do Sul) joga com uma equipa da Argentina, um país ali ao lado pelo qual nenhum brasileiro morre de amores, há uma metade de Porto Alegre que "vira", por 90 minutos, argentina...
Nessa noite, atenta a má catadura do meu condutor, hesitei alguns segundos antes de lhe colocar a pergunta: "E o meu amigo de que clube é?" O sentimento de pena do homem para comigo acentuou-se ao ter de revelar o que devia ser óbvio: "Sou do Grêmio. Só pode, não é?!".
Já não me recordo de muito do resto da conversa, mas fixei para sempre as palavras de quase ódio com que, a certo ponto da verborreia anti-Inter por que enveredou, me falou de um filho que se tinha convertido em adepto do Inter, por via do namoro com uma jovem de uma família que era adepta do rival. "Mandei ele sair de casa na noite em que soube que se dava com gente dessa! Com roupa e tudo. Foi há quatro anos, vive noutra zona da cidade. Não quero saber dele. Nunca mais."
Chegámos ao hotel. Paguei, não lhe desejei felicidades para o jogo. À noite, na televisão, vi que o Grêmio tinha perdido. Ele não deve ter tido uma boa noite.
Hoje, pela imprensa brasileira, soube que o Grêmio desceu à segunda divisão. Entrou-se, assim, em mais um ciclo de um processo que localmente se designa por “gangorra”, expressão utilizada quando um dos clubes do “Grenal” - termo que também se usa para designar o confronto Grêmio-Internacional - se encontra numa má situação e outro num bom momento.
Que grande ”porre” de desgosto deve ter apanhado ontem aquele meu ocasional motorista de outrora!
Desmond Tutu
Morreu ontem o arcebispo anglicano sul-africano Desmond Tutu. Mandela ainda ficaria preso em Robben Island, por alguns anos mais, quando, em 1984, Tutu recebeu, no Rådhus de Oslo, o Prémio Nobel da Paz.
Os nórdicos têm uma “rightousness” que, às vezes, irrita por excesso de presunção. Porém, em matéria de sensibilidade face a situações de injustiça e desigualdade, estiveram frequentemente à frente de muito outro mundo. O Prémio Nobel da Paz, que o Comité Nobel norueguês atribui (os suecos atribuem os restantes), não obstante alguns erros de “casting”, teve o frequente mérito de ajudar a destacar alguns desses casos gritantes, contribuindo para dar eco a algumas lutas justas, ajudando mesmo, em certos casos, a resolvê-las a caminho da solução que a História veio a ter como certa.
O regime do “apartheid” foi, com toda a certeza, uma das criações políticas mais detestáveis que essa mesma História alguma vez já acolheu (claro que houve o nazismo, eu sei). Por muitos anos, os negros sul-africanos foram considerados estrangeiros na terra onde nasceram, sujeitos a um processo de discriminação e repressão, por parte de quem se considerava superior e com o direito de definir onde e como eles podiam viver. Os “bantustões” iriam ser, nesse projeto insano, um dos produtos institucionais mais absurdos.
A complacência com que, na Guerra Fria, o regime sul-africano foi sendo tratado por “este lado”, pelo “mundo livre”, só não raiou o cinismo porque o ultrapassou bastante em perversidade. Nunca devemos esquecer que foi uma denúncia da CIA que conduziu à detenção de Nelson Mandela - o início dos seus 27 anos de prisão. E é bom também lembrar que foi o governo de Thatcher que procurou atrasar as sanções europeias, bem como aquelas que a Comunidade dita Britânica tentou implementar, para isolar o “apartheid”, com a ajuda de uns não inocentes úteis, que nós conhecemos de ginjeira.
Desmond Tutu, de quem o ANC, que pilotava a luta contra o regime, muitas vezes divergiu, foi, por muito tempo, a figura moral que ajudou a modelar, um pouco pelo mundo, uma crescente reação, por decência básica, contra o “apartheid”.
Com a libertação e a emergência de Mandela na vida democrática do seu país, Tutu recuou no palco político, mas nunca cedeu um milímetro na postura ética que iria manter até ao final da sua vida. Nesse importante caminho ficou a condução que fez da Comissão para a Verdade e Reconciliação, uma iniciativa que, não obstante algumas justificadas críticas às respetivas insuficiências, teve o mérito de entrar por um terreno precursor, à escala mundial.
A África do Sul que hoje existe está, seguramente, muito longe do sonho de Mandela e era, visivelmente, uma realidade com que Desmond Tutu não vivia bem.
O arcebispo, aliás, nunca escondeu críticas a práticas locais que considerou atentatórias da democracia e do Estado de direito, da corrupção às desigualdades e aos atentados aos direitos sociais e humanos, bem como em relação à xenofobia que, para surpresa de muitos, emergiu na sociedade sul-africana. Tutu nunca se importou de ser impopular, a bela qualidade das pessoas realmentes superiores.
Devo confessar que sempre me fascinou o sorriso franco, quase galhofeiro, de Desmond Tutu. Sempre imaginei que, com isso, Tutu devesse irritar bastante os “boers” que estavam no poder que ele ajudou a derrubar. Era o sorriso de quem sabia que estava do lado certo da História.
domingo, dezembro 26, 2021
Sem vacina
Não sei se há algum lei que impeça isso, mas seria muito pedagógico se, diariamente, fosse divulgada a percentagem de pessoas que morrem por Covid que não estavam vacinadas.
O que é o tempo?
O conceito de tempo vai variando dentro de cada um de nós. Como? Com o tempo! No que me toca, tempos houve em que tinha todo o tempo do mundo, em que nem sequer sabia o que fazer para conseguir passar o tempo. O tempo andava devagar e sonolento na Vila Real desse tempo da minha juventude. O meu pai, para significar, criticamente, que o seu filho único fazia então o que lhe apetecia, dizia para a minha mãe: “Ele faz o que quer e sobra-lhe tempo!”. Nunca levei muito tempo a pensar nisso, mas sempre coloquei a frase a crédito da arte, que também fui apurando com o tempo, de fazer apenas o que me desse na gana e no tempo que eu quisesse. E, posso hoje confessar, tive bastante sucesso nisso, em quase todo o tempo da minha vida! Quando um dia me empreguei, logo depois de fazer vinte anos, passei a ter o tempo marcado pelo relógio de ponto. Fui, depois, para a tropa, onde os minutos eram fardados a verde e, claro, só esperava que aquele tempo passasse, rapidamente. Pelo meio, ainda surgiu, no tempo certo, um belo dia de Abril, que sempre rememoro dizendo: “Belos tempos!” É que já era tempo de acabar com “o tempo da outra senhora”! Depois, por bastantes anos, passei a ter o tempo ditado por quem me chefiava, em fusos horários que foram variando. Até que um dia - caramba, já não era sem tempo! - passei a ser eu a marcar os tempos de outros. Ou melhor, pensei que assim era, porque, na verdade, acabamos por ficar escravos de tempos que ingenuamente pensamos que gerimos. Com o meu trabalho a tempo certo a terminar, pensei, mas apenas por algum tempo, que seria tempo de parar de olhar tão obsessivamente as horas, que devia reganhar algum tempo perdido e devolvê-lo à vida. Uma bizarra espécie de falsa reforma em que, tempos depois, me meti trouxe-me, é verdade, um pouco mais de tempo, mas criou uma crescente ansiedade: quanto tempo terei para gozar a vida que ainda me falta viver (não gosto de dizer a que me resta)? Será que ainda vou a tempo para fazer muitas das coisas que não fiz, porque, então, nesse tempo, não tinha tempo para nada? Nos dias de hoje, ao contrário de outros tempos em que isso me era indiferente, abro a janela, de manhã, para saber o tempo que faz. É que não há tempo a perder: os dias de sol não esperam por nós, se não lhes dedicarmos, gozando-os logo, todo o tempo que ainda temos. E que dizer deste tempo de pandemia, que nos está a atazanar as horas e a fazer perder tanto tempo? Como dizia Saramago, não devemos ter pressa, mas não devemos perder tempo. Mas, afinal, o que é isto do tempo? O tempo, no fundo, é a medida da vida que ainda julgamos poder vir a ter pela frente.
(Texto inspirado numa resposta que dei num inquérito para a belíssima 25ª edição do “Anuário de Relógios e Canetas”, publicado na semana passada).
Subscrever:
Mensagens (Atom)
A dignidade da República
O incidente na sala de um partido na Assembleia da República não é um "fait-divers". Sem a menor ironia, acho aquilo gravíssimo. ...