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segunda-feira, dezembro 27, 2021

Desmond Tutu


Morreu ontem o arcebispo anglicano sul-africano Desmond Tutu. Mandela ainda ficaria preso em Robben Island, por alguns anos mais, quando, em 1984, Tutu recebeu, no Rådhus de Oslo, o Prémio Nobel da Paz.

Os nórdicos têm uma “rightousness” que, às vezes, irrita por excesso de presunção. Porém, em matéria de sensibilidade face a situações de injustiça e desigualdade, estiveram frequentemente à frente de muito outro mundo. O Prémio Nobel da Paz, que o Comité Nobel norueguês atribui (os suecos atribuem os restantes), não obstante alguns erros de “casting”, teve o frequente mérito de ajudar a destacar alguns desses casos gritantes, contribuindo para dar eco a algumas lutas justas, ajudando mesmo, em certos casos, a resolvê-las a caminho da solução que a História veio a ter como certa. 

O regime do “apartheid” foi, com toda a certeza, uma das criações políticas mais detestáveis que essa mesma História alguma vez já acolheu (claro que houve o nazismo, eu sei). Por muitos anos, os negros sul-africanos foram considerados estrangeiros na terra onde nasceram, sujeitos a um processo de discriminação e repressão, por parte de quem se considerava superior e com o direito de definir onde e como eles podiam viver. Os “bantustões” iriam ser, nesse projeto insano, um dos produtos institucionais mais absurdos. 

A complacência com que, na Guerra Fria, o regime sul-africano foi sendo tratado por “este lado”, pelo “mundo livre”, só não raiou o cinismo porque o ultrapassou bastante em perversidade. Nunca devemos esquecer que foi uma denúncia da CIA que conduziu à detenção de Nelson Mandela - o início dos seus 27 anos de prisão. E é bom também lembrar que foi o governo de Thatcher que procurou atrasar as sanções europeias, bem como aquelas que a Comunidade dita Britânica tentou implementar, para isolar o “apartheid”, com a ajuda de uns não inocentes úteis, que nós conhecemos de ginjeira.

Desmond Tutu, de quem o ANC, que pilotava a luta contra o regime, muitas vezes divergiu, foi, por muito tempo, a figura moral que ajudou a modelar, um pouco pelo mundo, uma crescente reação, por decência básica, contra o “apartheid”. 

Com a libertação e a emergência de Mandela na vida democrática do seu país, Tutu recuou no palco político, mas nunca cedeu um milímetro na postura ética que iria manter até ao final da sua vida. Nesse importante caminho ficou a condução que fez da Comissão para a Verdade e Reconciliação, uma iniciativa que, não obstante algumas justificadas críticas às respetivas insuficiências, teve o mérito de entrar por um terreno precursor, à escala mundial.

A África do Sul que hoje existe está, seguramente, muito longe do sonho de Mandela e era, visivelmente, uma realidade com que Desmond Tutu não vivia bem. 

O arcebispo, aliás, nunca escondeu críticas a práticas locais que considerou atentatórias da democracia e do Estado de direito, da corrupção às desigualdades e aos atentados aos direitos sociais e humanos, bem como em relação à xenofobia que, para surpresa de muitos, emergiu na sociedade sul-africana. Tutu nunca se importou de ser impopular, a bela qualidade das pessoas realmentes superiores.

Devo confessar que sempre me fascinou o sorriso franco, quase galhofeiro, de Desmond Tutu. Sempre imaginei que, com isso, Tutu devesse irritar bastante os “boers” que estavam no poder que ele ajudou a derrubar. Era o sorriso de quem sabia que estava do lado certo da História.

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