sexta-feira, dezembro 24, 2021

Um livro


Uma simpática nota no semanário "Novo", sobre um livro que, desde há semanas, está mais do que esgotado e que não terá (nunca) uma segunda edição.

quinta-feira, dezembro 23, 2021

Hermano Sanches Ruivo


Um dia de 1996, Eduardo Prado Coelho, então Conselheiro Cultural da nossa embaixada em França, disse-me que seria interessante se eu aproveitasse uma das minhas frequentes idas a Bruxelas, como secretário de Estado, para estar presente numa iniciativa de uma determinada associação de jovens portugueses e luso-descendentes em França, que estava a fazer coisas interessantes e que era desejável apoiar. 

Segui o seu conselho e assim fiz: lá estive, creio que no centro de congressos da porte Maillot, num evento da “Cap Magellan”, que era o nome dessa associação da qual, até então, eu nunca ouvira falar. Era seu principal animador um jovem beirão, Hermano Sanches Ruivo, que fora para França, muito cedo na vida, com os pais.

Treze anos depois, acabado de chegar a Paris, dessa vez como embaixador, tive Hermano Sanches Ruivo, recordo bem, como um dos primeiros visitantes em casa. 

A “Cap Magellan”, que havia sido criada em 1991, já tinha entretanto uma relevante história de realizações, no seio do associativismo da nossa comunidade, mobilizando muitos jovens. 

Hermano Sanches Ruivo, que a impulsionara e à qual permanecia ligado, a exemplo de outras figuras da comunidade portuguesa, um pouco por toda a França, tinha optado por seguir uma carreira política. 

Uma estrutura de coordenação de eleitos portugueses, que entretanto criara e animava, já não estava sozinha no terreno, espelhando uma competição política que passou a atravessar esse setor da comunidade. 

Essa era uma realidade com que a embaixada que eu dirigia se habituou, com toda a naturalidade, a viver, não sem que a nossa leitura das coisas se afastasse, por vezes, daquela que aquelas e outras estruturas do associativismo português iam alimentando. 

Hermano Sanches Ruivo revelara-se, entretanta, a figura da nossa comunidade que, creio, mais longe ascendeu na vida política francesa, assumindo mesmo, por bastante tempo, cargos de relevo na estrutura municipal de Paris. 

Acompanhei o seu trabalho com Bertrand Delanöe e, mais tarde, com Anne Hidalgo. Muitas e importantes iniciativas que, no âmbito da autarquia parisiense, foram dando destaque e projeção à comunidade portuguesa tiveram o seu entusiasmo e seu esforçado empenhamento como assinatura. Tive o ensejo e o gosto de participar em muitas dessas atividades, de as estimular e de as apoiar, mesmo depois de ter deixado de ser embaixador em França.

A vida em geral, com a vida política em particular, é feita de altos e baixos, que fazem parte da anormalidade incontrolável dos seus insondáveis ciclos. Para Hermano Sanches Ruivo, fiquei há dias a saber que os últimos tempos não estarão a ser fáceis. Só posso lamentar por ele, mas também pela comunidade portuguesa em França, para quem a sua figura foi uma referência. Só posso esperar que tudo possa vir a correr pelo melhor, no seu futuro. 

Neste tempo de festas que, para o Hermano não serão dias muito felizes, quero deixar-lhe aqui um abraço muito sincero de simpatia pessoal, deixando claro que não esqueço o muito de positivo que fez, ao longo de bastantes anos, por Portugal e pela nossa comunidade em França. E só posso desejar-lhe, como por lá se diz, “bon courage!”

quarta-feira, dezembro 22, 2021

“A Arte da Guerra”


No “A Arte da Guerra”, o podcast semanal do “Jornal Económico sobre política internacional, converso com António Freitas de Sousa sobre o “ultimato” da Rússia à Nato, as preocupações de segurança das petro-monarquias do Golfo e os primeiros sinais do novo governo alemão.

Pode ver clicando aqui.

terça-feira, dezembro 21, 2021

A fé em Fátima!


Não posso correr o risco de ler este artigo de Fátima Bonifácio. É que, como estou 1000% de acordo com aquilo que surge neste destaque, não quero perder esta oportunidade, que penso única, de, por uma vez, estar em sintonia com ela. Isso já não me acontecia desde os longínquos tempos em que a senhora era de esquerda.

Boas Festas!


A quem por aqui passa, desejo muito Boas Festas e que, em 2022, possamos ver a luz ao fundo do túnel da pandemia que nos atazana os dias.

segunda-feira, dezembro 20, 2021

Elogio da ilusão


Todos sabemos, embora finjamos que não, que, no fim do dia, tudo será muito diferente daquilo que se tinha imaginado. A realidade nunca conforta, por completo, a esperança criada. 

Porém, ao ver hoje as ruas de Santiago do Chile, onde não chove mas já choveu, pergunto-me: o que seria da vida se não houvesse ilusões?

Crônicas

O mais caro estacionamento em Lisboa é, a grande distância, na rua da Escola Politécnica. E não é cobrado pela EMEL, é pago ao balcão da Livraria da Travessa. Hoje - tragédia logo anunciada! - havia um lugar vago e parei. E lá trouxe o ” Vento Vadio”, as crónicas (“crônicas”, por lá) de Antônio Maria, um dos muitos magníficos escritores do género que o Brasil teve e tem. “É para oferta?”, perguntou-me a mascarada do lado de dentro do balcão. “Sim, é para me oferecer a mim, antes do Natal!”. 

A chamada

“Luís, vi que tinha uma chamada tua. Desculpa só agora responder! Era alguma coisa?”. “Era, Francisco. Apeteceu-me falar contigo! Só isso!”. Ser feliz é, também, ter amigos assim.

domingo, dezembro 19, 2021

Domingo

Se tivessem de passar um domingo a escrever, de raiz, um texto para um anuário, que acabou por ter mais de 20 mil carateres, perceberiam melhor a razão pela qual só posso deixar isto hoje aqui no blogue. E amanhã? Amanhã tenho de preparar e gravar o “A Arte da Guerra” e, de tarde, uma data de voltas a dar, como, por exemplo, fazer de Pai Natal antecipado. A vida não está fácil, acreditem! 

sábado, dezembro 18, 2021

“Incompetência e impopularidade. Mas não as duas…”


No Reino Unido, é vulgar os partidos da oposição obterem bons resultados nas eleições que, por qualquer razão, ocorrem, por vacatura ocasional, numa ou outra circunscrição. Essas “by-elections” podem mesmo trazer fortes surpresas.

Mas o que se passou em North Shropshire (as eleições britânicas têm sempre lugar às quintas-feiras, para quem não tenha ainda notado) criou uma pouco comum onda de choque no Partido Conservador, dirigido por Boris Johnson. É que a candidata vencedora, pertencente ao Partido Liberal-Democrata, conseguiu deslocar 34,1% do eleitorado que antes aí votava nos conservadores, um “swing” que será o terceiro pior resultado da história dos “tories”. Desde há 200 anos que os conservadores não perdiam essa circunscrição! 

Sendo verdade que “uma andorinha não faz a primavera”, a dimensão do desastre parece estar a ser olhada com muita atenção no partido derrotado. E há quem lembre que, no passado, foram este tipo de eleições parciais que aceleraram o declínio de vários primeiros-ministros, às vezes pela concentração do voto dos eleitores no candidato oposicionista melhor colocado para derrotar o do governo.

É verdade que esta humilhação não ocorreu às mãos do Partido Trabalhista, o único que, numa futura eleição geral para a Câmara dos Comuns, pode aspirar a substituir os conservadores. E, por essas bandas, há muitas dúvidas de que a liderança que sucedeu ao claramente inelegível James Corbyn, hoje protagonizada por Keir Starmer, embora de perfil mais abrangente, seja suficientemente eficaz para se sugerir como alternativa ao eleitorado. Porém, algumas sondagens já o favorecem e, em especial, o nível de rejeição a Johnson cresce a cada dia.

Os liberal-democratas, que ganharam esta eleição, são e serão um eterno terceiro partido que, nas últimas décadas, só têm conseguido obter fatias de poder quando os conservadores deles necessitam para construir maiorias. O sistema político britânico favorece claramente a bipolarização, naquilo que é visto como um modelo que preza a busca da governabilidade, em detrimento da preocupação pela legitimação representativa.

Uma caraterística curiosa do sistema britânico é o facto do poder, nos partidos, assentar nos seus deputados eleitos para a Câmara dos Comuns e não na sua máquina regional ou de coordenação nacional. É nos deputados que reside a força que permite alterar as lideranças, mesmo a meio do percurso de uma legislatura. O caso mais notório foi o de Margareth Thatcher, em 1990. Aquela que ainda hoje é reverada como a figura mais marcante do conservadorismo, depois de Churchill, foi vítima de um “golpe de mão”, que a afastou em favor de um cinzento John Major, por ser vista já como uma “liability” para a credibilidade eleitoral do seu partido. E foram precisamente os deputados que ela tinha ajudado a eleger e a solidificar no governo que a enviaram, sem cerimónias, para casa. A crueldade, na política britânica e não só, é o nome do jogo.

Mas convém lembrar que é necessário que 55 deputados se associem para que um processo de destituição de um líder e primeiro-ministro conservador se possa iniciar. E, depois, que mais de metade dessa representação parlamentar alinhe atrás de um nome alternativo. Um processo complicado.

Boris Johnson, que tinha ajudado a sapar, com alguma falta de lisura, a liderança pouco brilhante de Theresa May, revelou ser capaz, em 2019, de galvanizar as hostes conservadoras e ganhar, por um raro “landslide”, uma forte maioria nos Comuns.

Verdade seja que foi nisso bastante ajudado pelo descrédito político do líder trabalhista James Corbyn, envolvido em acusações de anti-semitismo, que muito o fragilizaram. Corbyn como que emulou, em termos ideológicos, Michael Foot, um outro líder radical que, nos anos 80, tinha apresentado ao país um programa político trabalhista que ficou conhecido, com humor britânico, como “the longest suicide note in History”. Foot acabou por condenar o “Labour” a uma longa travessia do deserto, que só acabou com Tony Blair, na verdade talvez o líder mais conservador que os trabalhistas alguma vez conseguiram produzir…

Desde a sua eleição, Boris Johnson tem mantido, e talvez agravado, um comportamento errático e extravagante, quer no estilo quer na substância. Arrogante na gestão negocial do Brexit, está a dar do Reino Unido uma imagem, que não era habitual, de um país incumpridor dos seus compromissos internacionais, não obstante essa atitude lhe poder render alguns dividendos nacionalistas e protecionistas, para consumo interno. O recuo escandaloso face a compromissos assumidos com os 27 e com Bruxelas, na questão comercial que envolve a Irlanda do Norte, leva alguns a dizer, ironicamente, que “nem o IRA fez tanto pela união das Irlandas”…

Depois de um período de “namoro” com Trump, embora sem grandes consequências práticas, Johnson conseguiu adaptar-se bem à liderança de Joe Biden (que dele tinha dito coisas bem pouco simpáticas) e, no plano internacional, apanhou uma prestigiante “boleia” na questão do acordo estratégico Aukus, que junta o Reino Unido, a Austrália e os EUA, num claro sinal de confronto com a China. O eventual sucesso da economia britânica no pós-Brexit vai depender bastante da boa vontade americana, mas já se percebeu que, em termos comerciais, a “special relationship” não parece ultrapassar generalidades e boas-vontades declaratórias.

Como dizia ontem o “The Economist”, o partido conservador, no tocante aos seus líderes, costuma “tolerar incompetência e impopularidade, mas só uma de cada vez”… E Johnson parece estar a “acumular” cada vez mais. O sentimento de desagrado face ao seu modo de governar começa a dominar as hostes conservadoras,  As “trapalhadas” das festas feitas sob confinamento, as obras feitas em Downing Street e pagas pelo partido, a sua extrema relutância em se separar de um consultor, Dominic Cummings, um homem brilhante mas “sulfuroso”, sem baias no seu comportamento incívico em tempos de pandemia - e tantas e tantas outras pequenas crises, tudo tem afetado a imagem de Johnson. Nos últimos dias, surgiu mesmo uma forte ala libertária de deputados conservadores que está a colocar em causa a legitimidade e necessidade das medidas de proteção anti-pandemia, em que o primeiro-ministro se tinha empenhado. Contestam o designado "plano B", que determina a introdução de passes sanitários para entrada em discotecas e grandes eventos, a obrigatoriedade de vacinas para profissionais de saúde e o uso de máscaras em espaços públicos fechados.

É aliás o grau de sucesso na luta contra a pandemia, bem como a eficácia das medidas para ajudar a economia neste novo recuo na abertura da vida social,  que vai servir de teste, a curto prazo, para Boris Johnson. Por ora, ele ainda pode dizer, como Mark Twain, que “as notícias sobre a sua morte são exageradas”. No final do primeiro trimestre de 2022, ver-se-á melhor se os conservadores se inclinam para escolher uma nova cara. Uma coisa é certa: dificilmente será alguém mais despenteado...

sexta-feira, dezembro 17, 2021

Bye bye Uber

Fui um bom cliente da Uber. Deixei de o ser. Os cancelamentos passaram a ser muito frequentes, os preços dispararam, a qualidade média do serviço tem vindo a piorar a olhos vistos. Estou a regressar aos táxis, só esperando que não sejam do senhor Florêncio.

Humilhação

O “perp walk” de João Rendeiro, em frente às câmaras, de algemas no pulso, constitui um ato rotineiro de deliberada humilhação dos detidos, o qual, tendo uma tradição estabelecida nos EUA, desconhecia fosse prática corrente na África do Sul.

A chinela

Na minha terra, quando se vê alguém começar a passear-se “aos ombros de si próprio”, toldado por uma crescente ambição, é costume dizer-se que essa pessoa “não se enxerga”! Até ao dia em que será mesmo preciso repetir-lhe o ditado: “ne sutor supra crepidam“.

Tiago Pitta e Cunha

 

Quando, em 2001, fui representar Portugal nas Nações Unidas, vim a encontrar, na nossa missão em Nova Iorque, Tiago Pitta e Cunha, integrado na excelente equipa que o meu antecessor, António Monteiro, tinha criado para a nossa presença no Conselho de Segurança. Conhecia o Tiago pessoalmente, mas não profissionalmente.

Com alguns desafios eleitorais imediatos e muito importantes, no seio da organização, encontrei no Tiago o “campaigner” mais eficaz que poderia ter tido. Muito graças a ele (recordo, em especial, um inédito documento de divulgação que ele conseguiu fazer elaborar em árabe!), com a sua ativa presença nas horas de interlocução que, no Indonesian Lounge da ONU, mantive com colegas, tudo somado à extrema dedicação de outros colaboradores, conseguimos ganhar todas as eleições - todas, repito, todas - que tivemos pela frente. 

Na área dos Oceanos, o Tiago tinha-se entretanto tornado num diplomata especializado, já reconhecido pelos seus pares. Mário Ruivo, a grande figura nacional nesse domínio, nunca lhe poupou elogios.

Um dia, no ano seguinte, o Tiago veio dizer-me que tinha recebido um convite para regressar a Lisboa, para integrar um gabinete ministerial, na Presidência do Conselho de Ministros, para um lugar de consultor jurídico. “Vai ficar com a questão dos oceanos?”, perguntei-lhe. Não sabia. Ia a Lisboa para um primeiro contacto. “Insista em ficar com a área dos oceanos. Não perca a experiência que ganhou”. Estou certo que ele se recordará dessa nossa conversa. No regresso, disse-me que tinha obtido uma promessa, embora ainda não muito clara, de que esse tema ficaria no seu pelouro. Esse era também o seu interesse pessoal. Felizmente isso veio a acontecer. 

Desde então, o percurso profissional de Tiago Pitta e Cunha passou a ser esse, até ter chegado à presidência da Fundação Oceano Azul, onde, ao que sei de ciência certa, está a fazer um ótimo trabalho, com reconhecimento internacional.

Há minutos, vi que lhe foi atribuído o prestigiado Prémio Pessoa, um galardão que premeia, no presente, aqueles que estão a ajudar a construir o futuro. Nada mais justo e adequado.

Um forte abraço, Tiago!

Amarelo


A cada dia, meço o humor dos deuses para comigo pela quantidade de amarelos que apanho nos semáforos.

quinta-feira, dezembro 16, 2021

“A Arte da Guerra”


Os desafios do primeiro Conselho Europeu da era pós-Merkel, as eleições presidenciais no Chile e as atribulações de Boris Johnson são os três temas que, com António Freitas de Sousa, abordo esta semana no “A Arte da Guerra”, o podcast do “Jornal Económico”, que pode ver clicando aqui.

Contra a parede


Os últimos dias não tinham sido fáceis. Uma semana de hospitalização no Pitié-Salpêtrière, para uma operação à coluna, a poucos dias do Natal de 2011, não me tinha deixado no melhor dos espíritos. O meu saudoso amigo António Silva bem me tentava animar, com um toque de humor negro: "Dá-te por feliz! Tiveste mais sorte que a Diana ..." Ela havia sido atendida naquele hospital, após o acidente.  Que raio de lembrança!

Na manhã da saída do hospital, faz hoje precisamente 10 anos, uma sexta-feira, eu estava a atravessar Paris deitado numa ambulância, de regresso à residência, quando recebi a notícia de que setores da comunidade portuguesa se preparavam para promover, nessa tarde, uma invasão de protesto das instalações do serviço de coordenação do ensino de Português em França, dependente da embaixada. Haveria, ao que se dizia, "ranchos" de crianças à frente dos manifestantes, pelo que era impensável determinar qualquer prévio resguardo policial do espaço.

Com os cortes financeiros impostos, nessa época, pela "troika", quase três mil crianças tinham ficado sem aulas, depois do "abate" de dezenas de professores. Porém, em face das instruções imperativas recebidas de Lisboa, a embaixada nada podia fazer, senão dar cumprimento à ordem. Um embaixador é "a man for all seasons".

De uma ala política do ministério, de Portugal, recebi, na ambulância, pelo telefone, a pergunta, um tanto angustiada: o que é que eu tencionava fazer? Não deixava de ter alguma graça: estava deitado numa maca, com o corpo a doer-me nas curvas e nos obstáculos das ruas parisienses, e logo me cabia a mim encontrar uma solução que evitasse o expectável espetáculo televisivo da justa revolta da comunidade, com a qual, obviamente, eu não podia dar mostras públicas da menor solidariedade, porque isso significaria a correspondente deslealdade face ao poder que, com legitimidade democrática, chefiava o serviço público que eu ali representava. Tão simples quanto isso, por muitos que alguns o possam não entender.

Terá sido então algum providencial abanão da ambulância que me despertou uma solução prática para o problema imediato: dei ordens para encerrar os serviços da coordenação do ensino de Português, iniciando os seus funcionários mais cedo o fim de semana... Era o ovo de Colombo! Com as instalações encerradas, ninguém se iria atrever a invadi-las.

À chegada à embaixada, onde desembarquei de maca, tinha uma surpresa. Um grupo de jornalistas esperava-me. Porque era importante desdramatizar a crise, decidi ter uma conversa com eles. Contudo, não podia convidá-los para uma reunião à volta de uma mesa... porque, por alguns dias, eu estava impedido fisicamente de me sentar. Assim, durante vários minutos, falei de pé, encostado a uma parede, para me aguentar, com a voz frágil de quem saía de uma hospitalização de mais de uma semana. 

Nessa noite, um amigo, telefonando-me de Portugal, desconhecedor do meu estado de saúde, perguntou: "Pareceu-me que estavas muito pálido, hoje, na televisão. O assunto não era para menos! Estavas contra a parede!". Nem ele sabia como estava certo, mas que a razão da minha palidez era outra.

quarta-feira, dezembro 15, 2021

“Unidos por uma gaveta”


Foi ontem. O auditório da Fundação Calouste Gulbenkian abarrotava. Ninguém estava ali para cumprir calendário. Sentia-se que cada um quis, com a sua presença, dar um último testemunho do apreço que tinha pela figura de Jorge Sampaio, agora que passam três meses sobre o seu desaparecimento.

Tratou-se da ocasião da apresentação do livro “Era Uma Vez Jorge Sampaio”, com textos escritos sobre ele, da autoria de 130 amigos e admiradores. Trata- se de uma bela peça, com o conhecido traço de qualidade editorial da “Tinta da China”, recheado de fotografias.

Gostava de destacar, pelo seu significado, o belo improviso que Marcelo Rebelo de Sousa fez na sessão, num registo que combinou bem a dimensão institucional com o sentimento de uma nota pessoal de amigo.

Para esse livro, escrevi um texto , intitulado “Unidos por uma gaveta”, que recupera duas histórias que já aqui tinha publicado. Para quem estiver interessado em lê-lo, ele aqui fica:

“Não fui um amigo antigo de Jorge Sampaio. Só o conheci, com toda a família, em Londres, em 1993, num jantar em casa de Ana Gomes, com António Franco também por lá. Disse-me: “Há muitos anos que ouço falar de si, a amigos comuns, mas, curiosamente, nunca nos tínhamos encontrado”.

Era verdade. Tendo ambos andado pelos corredores daquilo que viria a ser o MES, nos idos de 1974, ele como sua figura referencial e eu com uma militância muito vaga, nunca tínhamos chegado à conversa.

No ano seguinte, tendo eu já regressado a Lisboa, António Franco disse-me que Jorge Sampaio queria falar comigo. Fui a sua casa, uma noite. Informou-me ter decidido vir a apresentar uma candidatura à Presidência da República, embora isso só viesse a ser concretizado meses depois.

Pediu-me que o ajudasse a estruturar um grupo para conversas sobre questões internacionais, a reunir até às eleições. Lembro-me de algo que então me disse: "Há uma coisa muito importante: não quero nenhum papel do MNE! Quero apenas trocar ideias com quem pensa estas coisas".

Dei-lhe, dias depois, uma sugestão de lista de pessoas para o grupo a criar: Carlos Gaspar, José Filipe Moraes Cabral, José Freitas Ferraz, Luís Filipe Castro Mendes e eu próprio. Jorge Sampaio formularia o convite a cada um.

Tempos mais tarde, combinámos uma primeira reunião do grupo, em minha casa. Ao final da manhã do dia acordado, quando saía do meu andar, encontrei a empregada dos vizinhos que moravam em frente. “Esteve aí o senhor presidente, à sua procura, logo de manhã!”, disse-me. O “presidente”? O presidente da República era Mário Soares e não era plausível que viesse procurar-me a casa. “O presidente da Câmara, o Dr. Jorge Sampaio”, esclareceu ela.

Fez-se-me luz! Tinha combinado com Sampaio que ele viesse a minha casa às “nove e meia”. Só que não disse “da noite”, no pressuposto de que ele estaria ciente de que as manhãs de sábados eram sagradas para o meu sono. Sampaio terá entendido que era “da manhã” e, britânico nos costumes, lá tinha estado a essa hora, pontualmente. Eu nem tinha ouvido o toque da campainha. Telefonei-lhe, de imediato, rimo-nos do equívoco e, pelas “vinte e uma e trinta” desse mesmo dia, ali regressou ele, de novo.

Não tenho presente quantas dessas reuniões tiveram lugar, mas guardo delas muito boa memória.

Com a minha ida para o governo, meses antes da sua eleição e posse, deixei de assegurar a presença regular nesses debates. Porém, Sampaio não esqueceu a minha anterior colaboração e teve a amabilidade de me integrar no jantar que veio a oferecer em Cascais a esse seu "team" de política externa.

Pediram-me para ser eu a fazer o agradecimento final, em nome do grupo. Disse-lhe da imensa alegria que era vê-lo eleito. No final dessa curta intervenção, fiz um pedido a Jorge Sampaio. Tinha a ver com os móveis do Palácio de Belém. Imaginava que devessem ser uma imensidão, mas havia uma coisa que eu lhe solicitava que fizesse: que abrisse todas as gavetas.

Sampaio e os presentes, que incluíam as nossas mulheres, olharam para mim com algum espanto. Lá esclareci o mistério. É que, depois de Mário Soares abandonar o Palácio, numa daquelas gavetas, deveria estar algo que ali nos unia. Não fora Soares quem afirmara que “tinha metido o socialismo na gaveta"?

Mas eu estava enganado: Soares não tinha deixado para trás o conteúdo da gaveta. E se havia pessoa que dispensava essa herança, porque o socialismo era a matriz indissociável da sua forma de olhar e intervir no mundo, essa pessoa era Jorge Sampaio.”

terça-feira, dezembro 14, 2021

Estrelados


Não são só os ovos que são estrelados, são-no também os restaurantes, através das classificações de qualidade dadas pelo Guia Michelin, uma publicação iniciada em França em 1900, sob a responsabilidade do fabricante de pneus com o mesmo nome. Uma, duas ou três estrelas distinguem esses estabelecimentos, com um efeito muito evidente na sua popularidade e apelo comercial. 

Portugal teve, pela primeira vez, em 1929, o seu nome inscrito nos Guias Michelin, através do Hotel de Santa Luzia, em Viana do Castelo, e do Hotel Mesquita, em Vila Nova de Famalicão, que então obtiveram uma estrela, que sustentaram por vários anos. 

No dia de ontem, foi feito mais um anúncio anual dos restaurantes selecionados em Portugal (e em Espanha, porquanto o nosso país surge num quadro peninsular). Atualmente, a lista portuguesa passou a ascender a 28 restaurantes, sete dos quais com duas estrelas. O Guia Michelin não considerou, até hoje, nenhum restaurante português digno da classificação de três estrelas. 

O tipo de gastronomia comum à esmagadora maioria dos restaurantes estrelados assenta em experiências gustativas de elevado requinte, feitas com produtos de muita qualidade e marcadas por combinações de sabores que se pretendem criativas e originais. A apresentação dos pratos é objeto de uma arte quase pictórica e os restaurantes que os oferecem (“oferecer” é uma força de expressão, porque os preços deste tipo de restauração são, quase sempre, muito elevados) são, sem exceção, titulados por chefes de cozinha (comummente designados por “chefs”, à francesa) que respondem por um currículo profissional que os torna objeto de transferências regulares entre restaurantes. A estes, para ascenderem e se manterem no patamar das estrelas, é invariavelmente exigida uma muito boa qualidade de serviço e uma carta de vinhos com uma diversidade a condizer.

Há quem ironize - muitas vezes por desconhecimento, outras por mera má língua - com as escassas quantidades dos produtos apresentados em cada prato, esquecendo que uma refeição, neste tipo de restaurantes, se compõe, em regra, por bastantes mais pratos do que a simples trilogia - entrada, prato, sobremesa - típica de uma refeição de cozinha tradicional. E que é a soma desses “momentos”, às vezes sublimes e surpreendentes, na sua originalidade gustativa, que torna algumas dessas refeições únicas e até inolvidáveis.

Uma coisa é certa: quem pretenda “enfardar” pratadas “das antigas” deve afastar-se dos restaurantes “estrelados” recomendados pela Michelin, embora, numa solução de meio termo, eu recomende que esteja atento à utilíssima lista de alguns outros restaurantes que o Guia também traz, muito em especial os que têm por indicação “Bib Gourmand”, escolhidos por uma muito boa qualidade/preço. Fora estes, no entanto, a minha razoável experiência mostra-me que a lista de outras casas destacadas pelos guias nem sempre é fiável, imagino que por frequente preguiça de reverificação e alguma desatenção ao surgimento de novidades. 

Gostava de deixar claro que fico muito satisfeito com o facto de, pouco a pouco, o nosso país ter vindo a aumentar o número de restaurantes a que foram atribuídas estrelas, consagrando o trabalho muito dedicado de grandes profissionais que muito honram a gastronomia em Portugal - embora valha a pena sublinhar que isso não é sempre sinónimo de “gastronomia portuguesa”, não obstante o esforço de muitos desses cozinheiros (onde há muito poucas mulheres) no sentido de evitarem seguir um mero “template” internacional. Por isso, valorizo bastante quem, nesta produção de “fine dining”, não se cansa em destacar a originalidade dos produtos portugueses (e não apenas os produtos do mar, como regularmente acontece) e deixar disso uma marca distintiva em cada prato.

Como diretor da Academia Portuguesa de Gastronomia, que sou desde há alguns anos, habituei-me a respeitar muito este tipo de gastronomia e a procurar valorizá-la no plano internacional. A imagem de Portugal como destino turístico só ganhará com o aumento de restaurantes consagrados na lista ”estrelada” do Michelin. E tudo deveremos fazer, a todos os níveis, nomeadamente oficiais, para tentar expandir entre nós essa consagração.

A título pessoal, contudo, devo dizer que, conhecendo e apreciando bastante alguns dos restaurantes portugueses a que a Michelin já atribuiu “estrelas”, não sou um cliente regular deste tipo de gastronomia, nem sequer sinto a tentação de tentar conhecer todas as casas que a promovem. 

Isso acontece não apenas porque tal me é incomportável financeiramente mas pelo facto, que confesso sem o menor problema, do meu nível de exigência em matéria gastronómica ficar bem confortado com muitos outros bons endereços de restauração que não têm a menor ambição de algum dia virem a obter a consagração do Guia Michelin. Com isto quero afirmar, para que não restem equívocos, que há uma muito boa gastronomia em Portugal para além daquela que os restaurantes com estrelas Michelin nos apresentam.

Arquivos

1972. Não tenho ideia que esta equipa de futebol de salão da Caixa Geral de Depósitos tenha tido sucessos retumbantes nos campeonatos em que...