sexta-feira, outubro 01, 2021

Expo Dubai


Tive o gosto de integrar, durante alguns anos, o Conselho Consultivo da estrutura que preparou a presença de Portugal na Expo no Dubai, que hoje se inaugura.

Foram bastantes e muito interessantes as reuniões em que um grupo alargado de conselheiros, retribuídos apenas pelo gosto de ajudar o nosso país a marcar uma participação com dignidade no certame (que foi adiado, devido à pandemia, de 2020 para 2021), procurou definir o conceito do nosso pavilhão, dos seus conteúdos e das mensagens que, através dele e de uma multiplicidade de eventos que ali decorrerão nos próximos seis meses, iremos transmitir. Da economia à gastronomia, da música à literatura, da arquitetura à memória histórica, estou confiante de que Portugal vai deixar uma bela marca nesta exposição.

Neste momento em que encerro a minha colaboração, quero deixar uma palavra de gratidão ao Celso Guedes de Carvalho, o primeiro comissário do evento, que me formulou o honroso convite para participar, bem como ao presidente da AICEP e atual comissário, Luís Castro Henriques, e à comissária adjunta, Francisca Guedes de Oliveira. Uma outra palavra, desta vez de saudade, a dois amigos que integravam o Conselho Consultivo mas que, entretanto nos deixaram: João Vasconcelos e António Silva.

Desejo o maior sucesso à nossa “aventura” nacional na Expo Dubai. É bom ver Portugal regressar às grandes exposições internacionais.

quinta-feira, setembro 30, 2021

O fenómeno Zemmour


     

Nos anos em que vivi em França, assistia, com regularidade, a um animado e interessante programa televisivo semanal, com entrevistas e debates, intitulado “On n’est pas couché”. Por ali passava tudo quanto “estava na berra”, da política à literatura, do teatro ou cinema à música.  O programa tinha então dois comentadores residentes, que liam e analisavam, de forma muitas vezes cáustica, mas sempre inteligente, os livros que iam saindo, o comportamento das figuras da política, etc. Durante alguns anos, o dueto foi constituído por Éric Naulleau e Éric Zemmour (depois, foram variando). 

Nollau era ensaísta e editor, com uma visão de esquerda, mas frequentemente muito crítica para a própria esquerda. Zemmour era jornalista e autor de vários livros, extremamente conservador e soberanista. Mais tarde, criaram, em outra estação, um programa intitulado “Zemmour & Naulleau”. Eram ambos figuras brilhantes, por muito polémicas que as suas opiniões fossem.

Com o regresso a Portugal, perdi de vista Naulleau, mas cada vez tenho ouvido falar mais de Zemmour, embora nem sempre pelas melhores razões. As suas posições foram-se tornando mais extremadas, algumas foram lidas como xenófobas e mesmo racistas, o que levou a condenações judiciais e ao seu afastamento de vários órgãos de comunicação.

Mais recentemente, Zemmour surgiu na vida política francesa como um possível candidato à presidência da República. Um livro que lançou, “La France n’a pas dit son dernier mot”, na sequência de vários outros que foram imensos êxitos editoriais, está a ser visto como uma possível rampa de lançamento para o Eliseu. Zemmour é hoje um fenómeno de que toda a França fala.

Há sondagens que o creditam com 11-14 % de intenções de voto, já muito próximo da candidata do “Rassemblement National” (antigo “Front National”), Marine Le Pen. Mas o grande embaraço parece estar a atingir o campo político da direita tradicional, o partido “Les Républicans”, antes liderado por Nicolas Sarkozy e, depois, por François Fillon (ambos hoje a braços com a Justiça), atravessado uma luta fratricida para escolher um candidato para o representar nas eleições presidenciais de abril/maio de 2022. O discurso de Zemmour, que chega a reivindicar-se do gaulismo, parece estar a fazer o seu caminho no eleitorado desse setor conservador.

Zemmour é demasiado elaborado para poder ser tido como uma espécie de Trump “à francesa”. Mas a sua postura, chauvinista, abertamente anti-islâmico, tradicionalista e com apelo ao saudosismo identitário, tem um acolhimento potencial que está a baralhar os dados da política interna francesa.

“A Arte da Guerra”


No “ A Arte da Guerra” desta semana, falo com António Freitas da Costa sobre as perspetivas políticas na Alemanha depois das eleições legislativas, os pontos mais salientes dos discursos na Assembleia Geral da ONU e as recentes movimentações político-militares na Coreia do Norte.

Pode ver clicando aqui.

terça-feira, setembro 28, 2021

Uma memória do 28 de setembro de 1974


Depois da derrota política sofrida no dia 28 de setembro de 1974, o general António de Spínola, presidente da República, na ressaca dos acontecimentos e das manifestações desse dia que ficou histórico, tinha convocado o Conselho de Estado para 30 de setembro. Foi anunciado que, nessa ocasião, faria uma comunicação ao país pela televisão e rádios, diretamente de Belém.

Eu andava pelo palácio da Cova da Moura, onde era adjunto da Junta de Salvação Nacional, instituição a que Spínola ainda presidia, mas que, tudo o indicava, tinha a sua existência a prazo. Juntámo-nos uns tantos, de tendências político-militares bastante diversas e até antagónicas, em torno de um televisor, para ouvir a intervenção do chefe de Estado.

Os tempos eram muito tensos, o ambiente político era de cortar à faca. Naquela sala estava gente cujo futuro iria ser, a partir desse dia, muito díspar. Lembro-me de que havia por lá um general do Exército, cujo nome não consigo recordar, recém-regressado de uma Angola em convulsão, que sabíamos ser um "spinolista" ferrenho. Estava acolitado por figuras que não conhecia, com cara patibular, de quem tinha ficado do lado dos derrotados nas “batalhas” das vésperas.

Todos antecipávamos as palavras do "velho" (como os "spinolistas" gostavam de chamar à sua figura tutelar). A ideia mais comum era a de que se demitiria em direto das funções, mas outros cenários, nomeadamente de alguma resistência à recente derrota nas ruas dos seus apaniguados, ainda eram plausíveis.

O discurso começou, com a voz rouca de Spínola, naquele registo épico e um pouco teatral que era o seu, a dramatizar, como era de esperar, a situação política, na exata linha das suas anteriores frustradas tentativas de fazer levantar a suposta "maioria silenciosa" do país.

O diagonóstico que saía da sua boca era ácido e impiedoso para os vencedores dessas horas. Todos olhávamos o aparelho de televisão mas, verdadeiramente, policiávamo-nos pelo canto do olho, sabendo que cada um lia as palavras de Spínola de forma diferente. Para mim, como jovem militar "a prazo", que me via do lado vencedor da contenda, o momento era excitante.

A certo passo da intervenção, mas ainda antes do anúncio da demissão do "caco" (como Spínola também era conhecido, por virtude do seu monóculo), um homem da Marinha, Duarte Lima (não, não é esse!), não se conteve e fez ecoar pela sala alguns adjetivos qualificativos, muito pouco abonatórios para o presidente da República e presidente da Junta de Salvação Nacional, a cujos quadros pertencíamos e em cuja sede estávamos.

Praticamente, ninguém o acompanhou na expressão vocal dos sentimentos que o motivavam, os quais, no fundo mas apenas no íntimo, creio que eram partilhados pela maior parte dos presentes. Mas, com os diabos!, Spínola era um derrotado daqueles dias e havia outras maneiras de, como dizem os militares, "explorar o sucesso", tanto mais que "não se dispara sobre ambulâncias". 

Duarte Lima, porém, estava imparável, indignado com os ataques de Spínola ao MFA, e não se calava, nos insultos que ia proferindo, em crescendo. O general chegado de Angola, a alguns metros dele, fervia de raiva, marcada pela impotência que Spínola confessava no seu discurso. Os seus escassos acompanhantes remoíam em silêncio.

Quando tudo terminou, depois de Spínola ter anunciado a sua demissão, todos nos levantámos, ainda um pouco aturdidos com o início de uma nova fase da Revolução que o seu gesto prenunciava. O tal general, lívido, passou pelo Duarte Lima e, num assomo de autoridade, lançou-lhe: "Você devia ter vergonha pelo que disse". A compostura militar impôs-se e Duarte Lima não reagiu. Ou melhor: deixou sair o superior da sala e comentou, para nós: "Estive para o mandar à ....". Mas não mandou. E ainda bem. O general já tinha tido a lição dos factos.

segunda-feira, setembro 27, 2021

“Fronteiras XXI”


Eça agora


Que terei eu dito que levou a esta reação hilariante de Luís Castro Mendes, meu parceiro na palestra sobre ”Eça diplomata e a diplomacia em Eça”, no passado dia 16, no Grémio Literário?

Democracia


A beleza inultrapassável da democracia é colocar na mão dos eleitores, por um dia pessoas iguais umas às outras, no exato momento em que colocam o seu voto na urna, o poder de decidirem quem vai gerir o seu destino coletivo por algum tempo. É essa imprevisibilidade do “humor” dos cidadãos que torna genuíno e legítimo o desfecho do seu exercício de vontade. Para alegria de uns e para tristeza de outros.

Ontem, as cores políticas que são as minhas tiveram algumas vitórias e derrotas. Bastantes mais vitórias do que derrotas. Senti algumas dessas vitórias como muito reconfortantes, mas devo confessar que tive uma derrota que muito me custou. A perda da Câmara de Lisboa para uma coligação que, ideologicamente, está nos meus antípodas, é um momento de tristeza que não posso nem quero esconder. 

Fiz parte da Comissão de Honra do meu amigo Fernando Medina nas duas eleições que disputou. Fi-lo convictamente, porque considero - pelos vistos, ao contrário de uma maioria dos votantes de ontem, nesta minha cidade - que ele foi um excelente presidente da Câmara de Lisboa. É um homem e um político de uma grande seriedade e com um elevado sentido de serviço público. Deu tudo a Lisboa e dedicou-se ao seu trabalho com todo o empenhamento. Os lisboetas tiveram outra leitura das coisas, o que temos de respeitar. Como referi no início deste texto, a liberdade de escolha, a cada instante, é a grande virtualidade da democracia.

Os votantes lisboetas optaram por Carlos Moedas, figura que eu, equivocadamente, julguei ser um erro de “casting”, para o exercício deste cargo em particular. Como sempre afirmei, foi um excelente Comissário Europeu, é uma pessoa de bem e um amigo que prezo. Ele sabe que a sua vitória não me deixou feliz, como também sabe que é com grande sinceridade que, a bem de Lisboa, ao felicitá-lo, lhe desejo as maiores felicidades no seu trabalho nos tempos que terá pela frente.

A vida continua.

domingo, setembro 26, 2021

A sério

Sei que irrita muita gente ouvir isto, mas eu repito: quem não vota tem um “capitis diminutio” moral para criticar a ação dos políticos eleitos pelos outros.

Lembrando

“O voto é uma arma do povo”, era o slogan oficial nas primeiras eleições em liberdade, em 1975. 

“Se votas, ficas sem arma…” era uma “boca”, meia anarca, que se via pintada pelas paredes.

A votação foi esmagadora.

Tvês

Por que será que os repórteres que entrevistam os políticos à entrada ou saída de qualquer local se sentem na obrigação de nos repetir, logo de seguida, aquilo que acabámos de ouvir?

Unir as nações


Muitas pessoas se interrogam sobre a razão pela qual, todos os anos, em setembro, chefes de Estado e de governo, ministros e suas comitivas rumam para Nova Iorque, para a Assembleia Geral das Nações Unidas. Sabe-se que alguns, ”de fora”, acham aquilo um espetáculo dispensável, uma “feira de vaidades” sem sentido, uma perda de tempo e dinheiro.

Há pouco, encontrei esta fotografia que ajuda a responder, em parte, à questão. A imagem mostra as divisórias montadas na sede da ONU, para encontros bilaterais, que duram, em média, 20 minutos cada. Cada um daqueles espaços tem uma agenda, com marcação prévia, com a devida antecedência. Dentro estão sofás e cadeiras. Fora estão a segurança e os assessores dispensáveis para a ocasião.

Uma das funções da semana ministerial da AG da ONU é precisamente proporcionar aos responsáveis políticos a possibilidade de se encontrarem frente a frente. São muitas centenas, se não milhares, as reuniões que assim se processam, naqueles dias, no “palácio de vidro”. Em algumas horas, é possível desenvolver um conjunto de contactos que ajudam a resolver uma imensidão de problemas. Desta forma se evitam viagens entre países, perdas de dias de trabalho, e até se limita fortemente a “pegada ecológica” das viagens aéreas entre capitais. 

E não me venham com a história de que, no futuro, tudo se fará à distância, em modelo de conferência Zoom ou similar! Só quem não conhece a realidade da vida internacional pode pensar que alguma vez o contacto pessoal é totalmente substituível.

As nações não estão sempre unidas e a diplomacia existe para tentar lutar contra isso.

Votem!

“Mesmo que não encontres o partido dos teus sonhos para votar, não deixes de votar contra os que causam pesadelos”

“Observare”


Com Luís Tomé e Carlos Gaspar, sob a moderação de Filipe Caetano, abordei, no “Observare” desta semana, na TVI 24, o acordo estratégico dos EUA com o RU e a Austrália, as perspetivas para a vida política alemã depois das eleições de hoje e a importância da Assembleia Geral da ONU. Pela minha parte, falei ainda das tensões em quatro países do Magreb e as novas ofertas americanas de vacinas anti-Covid.

Pode ver aqui: https://tviplayer.iol.pt/programa/observare/5f998d910cf203abc5a

sábado, setembro 25, 2021

Game over!


“Então passa-se um dia como o de hoje e não pões nada no blogue?”

Reflexão

Que os atos públicos de propaganda das campanhas eleitorais sejam suspensos na véspera imediata do sufrágio, vá que não vá! Que, neste dia “de reflexão”, os cidadãos sejam tratados como crianças, sem maturidade para poderem continuar a discutir o sentido do seu voto, é ridículo!

sexta-feira, setembro 24, 2021

Vila Real


Por muitos anos, em democracia, o PSD venceu as eleições para a presidência da Câmara Municipal de Vila Real.

Embora essa persistente tendência desagradasse a quem se opunha aos social-democratas, como foi sempre o meu caso, e não fossem muito evidentes as razões objetivas que a justificavam, nada se podia objetar: tratava-se do livre exercício da vontade popular, que nesse sentido se manifestava e assim ia tendo os consequentes resultados. Vila Real tinha o que queria. A democracia é isso mesmo.

A oposição protagonizada pelo Partido Socialista, por esses mesmos anos, mostrou-se sempre incapaz de gerar uma alternativa que convencesse os eleitores. Tentou-o por várias vezes, com vários protagonistas, no seu legítimo direito de mostrar que tinha um melhor projeto. Eu próprio procurei “ajudar”, chefiando, em 1997, como independente, a lista do PS à Assembleia Municipal. E perdi. Assim, por erros próprios ou por mérito de quem estava então no poder - cada um terá a sua interpretação - o domínio do PSD foi-se mantendo. Até 2013.

Nesse ano, Rui Santos, um jovem engenheiro com um percurso profissional e político feito na cidade, liderou uma lista que, finalmente, convenceu os munícipes do concelho de que o Partido Socialista, à época na oposição ao governo do país, tinha as soluções certas para a condução dos destinos do município.

Tive o gosto de ir então a Vila Real apoiar essa candidatura, que me pareceu a solução certa para mudar, com projetos novos, o rumo da autarquia. Uma maioria de vila-realenses pensou da mesma forma e Rui Santos foi eleito presidente, com o PS a reverter por completo o anterior domínio do PSD. Em 2017, a expressão numérica da sua reeleição foi ainda mais forte, o que prova a grande confiança que essa alternativa gerou nos eleitores.

Rui Santos concorre agora a um terceiro - e último, por lei - mandato. Tudo aponta para que, no próximo domingo, se processe a sua segunda reeleição, com números igualmente muito confortáveis. 

Já não voto em Vila Real, como fiz por alguns anos. Se o fizesse, o meu voto, sem a menor hesitação, iria para Rui Santos. Para quem me conhece, não seria necessário afirmar isto, mas quis deixar aqui expresso o meu total apoio à lista que o Partido Socialista apresenta em Vila Real. E enviar a Rui Santos o meu abraço solidário.

quarta-feira, setembro 22, 2021

“A Arte da Guerra”


Na edição desta semana de “A Arte da Guerra”, falo com o jornalista António Freitas de Sousa sobre o novo acordo estratégico entre os EUA, o Reino Unido e a Austrália, as eleições legislativas na Rússia e a aparente tendência para o regresso ao poder da social-democracia em países nórdicos. Pode ver aqui: https://lnkd.in/gXfKM5Xm

Ele há lá um céu como este!

 


“A Arte da Guerra”


Hoje, às 19 horas, em “A Arte da Guerra”, nas plataformas do “Jornal Económico”, falo com o jornalista António Freitas de Sousa sobre o novo acordo estratégico entre os EUA, o Reino Unido e a Austrália, as eleições legislativas na Rússia e a aparente tendência para o regresso ao poder da social-democracia em países nórdicos.

Não vão ser tantos...

... os que hoje levo para a praia, mas não anda muito longe disto.