segunda-feira, dezembro 07, 2020

Os compreensivos

Alguns intelectuais, ao “compreenderem” que Ventura “dá voz” a anseios de quem se não sente representado pelos partidos tradicionais, legitimam alegremente, nesse caminho, as pessoas que, ao lado desse fulano, assume sentimentos racistas, xenófobos e a linguagem populista rasca que atulha as caixas de comentários.

TAP

Há uma imensa desonestidade por parte de quem quer comparar a situação que se vivia na TAP, ao tempo em que foi tentada a sua privatização, e este tempo, em que tem lugar a reestruturação da companhia. Como se, entretanto, a pandemia não tivesse posto de pantanas o mercado das companhias aéreas.

Guerras

Por virtude desta pandemia, morreram já mais de 50% de pessoas do que em combate nas três frentes das guerras coloniais (1961/74)

Coros

Pode ser que seja deformação de quem integra um Clube de debates que é muito cioso da sua diversidade opinativa, mas acho muito pouco saudável ver por aí anunciados webinars com gente que pertence toda ao “mesmo lado” ideológico. Já sabem tudo? Não precisam de ouvir mais ninguém?

O pânico

A colocação de um “botão de pânico” nas instalações do SEF no aeroporto não é um insulto à nossa inteligência é um atestado da falta dela de quem teve tão peregrina ideia.

Vergonha própria

Nos últimos anos, houve dois momentos em que senti vergonha pelo meu país: na palhaçada de Tancos e no assassinato de um imigrante ucraniano por membros do SEF.

E se...?

Desculpem a pergunta: mas, em lugar de se sobrecarregarem instalações do SNS, não seria de fazer a aplicação intensiva da vacina em pavilhões gimnodesportivos, com mobilização de meios militares? Poder-se-ia fazer dezenas de milhares de aplicações por dia. É só cá uma ideia...

domingo, dezembro 06, 2020

Alguém sabe responder?

A pergunta que seria óbvia, se não fôssemos todos hipócritas: se, em Portugal, é proibido - em qualquer lugar, em qualquer circunstância - conduzir a 121 km/hora ou mais, por que razão é autorizada a venda de viaturas que podem ultrapassar essa velocidade?

“Observare”


Sob a moderação de Filipe Caetano, Carlos Gaspar, Luís Tomé e eu analisámos a agenda do próximo Conselho Europeu, em especial os problemas decorrentes da posição assumida pela Hungria e pela Polónia na questão financeira, e avaliámos os sinais que as recentes eleições municipais no Brasil trouxeram para os equilíbrios políticos internos naquele pais.

Pode ver o programa aqui.

sábado, dezembro 05, 2020

O Sousa


O Sousa não gostava de mim. Notava-se, à légua, há muito. O Sousa era, julgo, o contínuo mais velho do liceu. Não tinha o estilo futebolístico do Rocha, nem o ar desengonçado do Marques, nem o jeito comercial do Carminé. Mas cabia-lhe essa função inigualável de prestígio que era a gestão da entrada principal do liceu. Essa era uma zona que, por definição, nos era quase interdita, reservada aos trânsito dos professores ou para o cerimonioso acesso à secretaria, onde, atrás do balcão, nos olhava, com ar severo, o senhor Agarez. Contudo, num certo ano, por algum tempo, creio que por virtude de obras de construção de uma das alas do edifício, a entrada de todos os alunos passou a ser feita por esse átrio central, o tal que cabia ao Sousa controlar. (O Alfredo Branco, de bata branca, nesse 1° de Dezembro, cantou, no palco do Teatro Avenida, para a posteridade: “A entrada pró liceu / desta linda capital / já é feita como dantes / pela porta principal. / Por causa das confusões / p’ra evitar mais maçadas / à entrada para o átrio / está o código das estradas”). Eu tinha, confesso que por vício antigo, a mania de chatear o Sousa. Não me perguntem porquê! Nem como! Inventava coisas para o atazanar. Um dia, caiu neve na cidade. Como, ao que me dizem, hoje aconteceu. (Nesses tempos, nevava mais em Vila Real, acho eu). Desde a avenida, já desde o pelourinho (que, à época, estava em frente à Câmara, para quem não saiba), todos chegámos ao liceu, nessa manhã, a atirar bolas de neve uns aos outros. Nesse dia, sei lá bem porquê, entrei no átrio com uma bola de neve na mão. E, da porta grande da entrada, por sobre a cabeça de quem estava no átrio, lancei essa bola de neve, em percurso circular, jogando com a lei de Newton. E ela foi aterrar onde? Num olho do Sousa. Esquerdo? Direito? Tenho boa memória, mas nem tanto! Quase seis décadas depois, ainda me pergunto: terá sido de propósito? Era mesmo num olho do Sousa que eu queria acertar? Esquerdo? Direito? Não sei. Mas, se foi, a minha pontaria, há que reconhecer, foi excelente, magnífica, única, certeira, impecável. Melhor era impossível, se acaso foi (foi?) deliberado. Mas, repito, ainda hoje não tenho a certeza e isso, como é óbvio, absolve-me, em absoluto, de quaisquer culpas. O Sousa, recordo, recuou, sob o impacto do pedação de neve prensada saído da minha mão e, desestabilizado, foi visto a chocar contra uma daquelas vitrines envidraçadas nas quais, em manhãs de angústia, surgiam afixadas as nossa notas. Eu, imagino agora!, intimamente impante pelo indisputável êxito do arremesso, mas ao mesmo tempo temeroso de ver consagrado em fúria o meu rigor de precisão no alvo, ter-me-ei esgueirado para dentro do liceu, a caminho das aulas, contando (creio!) que ninguém bufasse ao Sousa que fora eu o autor de tão apurado, porém genial, feito. Mas alguém disse, porque a cidade, como bem sabemos, nunca foi de total confiança! E, ao final da tarde desse dia, no topo da escadas da minha casa, com quem é que eu deparei? Com a figura pesada e sombria do Sousa. A um oportunista “boa tarde, senhor Sousa!”, não obtive réstia de resposta. Tive logo um mau pressentimento. E tinha razão. O Sousa tinha ido a minha casa, apurei logo por uma criada, para falar com o meu pai. E falou. Um quarto de hora mais tarde, lá levei eu um bufardo na cara, dado pelo meu progenitor, como paga direta pela minha excecional pontaria matinal. Era assim a lógica das coisas nesse tempo. (E, valha a verdade, por muito que a pedagogia contemporânea me queira contrariar, essa bofetada não me traumatizou nada. Ou terá traumatizado? Por que razão lhes estou a contar isto agora?). O Sousa, confirmava-se, não gostava de mim. E eu, vou ser sincero, não gostava nada do Sousa. Pronto! Estamos pagos!

sexta-feira, dezembro 04, 2020

Na Farmácia Campos

Há uns anos, em Pipa, no Rio Grande do Norte, no Brasil, tive um almoço de confraternização com a comunidade portuguesa que aí trabalhava.

Era um tempo em que uma nova geração de empresários portugueses tinha rumado para as praias do Nordeste brasileiro, onde estava a ter imenso sucesso, num Brasil em que o turismo de qualidade começava então a despontar. "Resorts", hotéis, "pousadas" e restaurantes contribuíam para renovar a própria imagem de Portugal naquele país.

Confesso que não faço ideia de como as coisas hoje andarão. quinze anos passados desde o início das minhas funções como embaixador português por ali.

Lembro-me de que, ao entrar no restaurante, fiquei surpreendido com o seu nome: "Farmácia Campos". Mal fui apresentado ao proprietário, perguntei-lhe: "É de Matosinhos?" Era. O seu pai era ou tinha sido dono de um restaurante daquela cidade que, por uma qualquer razão (que me deve ter sido explicada, mas que já esqueci), era conhecido por "Farmácia Campos".

A "Farmácia Campos" de Matosinhos, onde só comi uma vez, tinha-a bem na memória.

Estávamos ali com uma amiga a jantar, numa noite, quando entrou pela casa dentro, um pouco desaustinado, um fulano que pediu ao proprietário para "pôr o rádio alto". Lembro-me de que havia, à esquerda de quem acedia da rua ao espaço do restaurante - uma adega típica, sem grandes requintes de decoração, mas onde se comia bastante bem, para os padrões da época - um longo balcão. O homem disse qualquer coisa para o dono da casa, que levou este a aceder, de imediato, ao pedido para colocar som num aparelho de rádio.

E foi então que ouvimos, no imenso silêncio que se fez, a notícia que o homem já trazia da rua: que o avião onde viajava aquele que, há menos de um ano, era primeiro-ministro de Portugal, Francisco Sá Carneiro, tinha caído perto do aeroporto de Lisboa. Mal nós sabíamos que a viagem tinha como destino o aeroporto de Pedras Rubras, perto do local onde estávamos a jantar. E muito menos nos passou pela cabeça que esse mesmo aeroporto acabaria por vir a ter o seu nome. As notícias da rádio, então parcas em pormenores, não deixavam dívidas de que não ia haver sobreviventes daquela tragédia.

Faz hoje precisamente 40 anos.

quinta-feira, dezembro 03, 2020

Respeito

 


90 anos


Jean-Luc Godard comemora hoje os seus 90 anos. Foi realizador de um filme que inspirou o nome de um blogue que talvez conheçam. 

Giscard e a Europa

Morreu ontem o antigo presidente francês, Giscard d'Estaing.

A Europa comunitária é uma ideia que tem a França no posto de comando. A Alemanha foi essencial para dar músculo económico ao projeto, mas o vetor político assentou sempre em Paris. Escrevi "no comando" porque a França nunca se viu numa outra posição. Desde De Gaulle, a França só aceita uma Europa traduzida na sua língua, sentindo-se alheia a tudo o que assim não for.

Tive o número suficiente de "accrochages" com os meus colegas franceses, quando andei pelo governo, para saber, de ciência certa, que há uma política francesa para a Europa - o que, nem sempre, é sinónimo de uma política europeia da França - que é relativamente independente de que estiver no poder, à esquerda ou à direita. Com os meus amigos Michel Barnier, um orgulhoso gaullista, ou Pierre Moscovici, um socialista "moderno", tive confrontos abertos nos quais senti, às vezes, que eles estiveram à beira de me não perdoarem a minha franqueza. De outras vezes, tive a embaixada francesa em Lisboa a queixar-se nas Necessidades disso mesmo.

Nos quatro anos que passei na embaixada em Paris, tive oportunidade de rever o muito que tinha aprendido, desde a adolescência, sobre a sociedade política francesa. No essencial, confirmei o que julgava saber sobre o modo como a França olha a Europa, como se coloca nela, o que dela quer. Para dizer as coisas em poucas palavras: a França percebe que precisa da Europa para se afirmar no mundo. Por essa razão, alguns políticos franceses estiveram por vezes disponíveis para diluir, num projeto europeu mais "avançado", parte do seu poder nacional, na certeza que o iriam recuperar nesse quadro mais integrado. Isso, porém, até hoje, nunca aconteceu.

Mitterrand, com Maastricht e a moeda única, ficou na soleira dessa audácia. Macron parece ter hoje a consciência de que seria uma opção tentar ir por esse caminho. Mas só Giscard d'Estaing, já depois de sair do Eliseu, revelou rasgo para tentar dar esse mesmo salto em frente.

Em 2002, Giscard d'Estaing presidiu à Convenção sobre o Futuro da Europa, da qual saiu o projeto de Tratado Constitucional Europeu, ideia que o referendo negativo holandês veio a condenar ao insucesso. Parte dessas propostas, mas não as essenciais, ressurgiriam no Tratado de Lisboa, o qual, na minha (muito negativa) opinião, ficou com o pior e recusou o melhor do projeto original.

Tenho tentado lembrar-me, sem êxito, por que diabo, algures no primeiro semestre de 2002, vim a estar presente numa sessão em Nova Iorque onde Giscard d'Estaing falou sobre a Convenção a que presidia. Eu era embaixador na ONU e só por eurofilia militante ali devo ter ido parar. E o que terá levado Giscard a Nova Iorque?

Tendo ao lado o vice-presidente do exercício, o antigo primeiro-ministro italiano Giuliano Amato, Giscard d'Estaing explicou, no seu bom inglês, o que pretendia fazer sair da Convenção.

No final da apresentação, houve algumas perguntas e uma delas foi minha. 

Questionei Giscard sobre se os representantes dos governos dos então Quinze, que estariam presentes no exercício, iriam ter, no final, algum voto qualificado, isto é, se a sua luz verde seria necessária para o processo poder avançar. 

Giscard como que se abespinhou e perguntou por que razão eu entendia que isso seria necessário. Respondi-lhe uma coisa deste género: "Porque os governos é que foram eleitos, porque são eles quem tem legitimidade política, porque são quem responde perante os cidadãos dos respetivos países e a sua anuência, como aconteceu com as Conferências Intergovernamentais que deram origem a todos os anteriores tratados, tem sido essencial para ajudar a um "soft landing" dos projetos junto das opiniões públicas e dos parlamentos". 

Com aquele ar de desdém aristocrático que lhe era caraterístico, a que juntou um sorriso condescendente, Giscard pôs um ponto final no assunto: "Não, caro senhor, o parecer dos governos não será por mim pedido no final dos trabalhos". Ao sentar-me, não deixei de lhe enviar, em francês, um irónico "Bonne chance!".

Um ano e pouco depois, o governo português de então, sendo eu embaixador na OSCE, convidou-me a fazer parte do grupo de aconselhamento do primeiro-ministro Durão Barroso para a negociação do Tratado Constitucional. Entendi dever aceitar.

Quando li os projectos daquilo que estava em cima da mesa como matéria já em vias de ser acordada, percebi que Giscard d'Estaing tinha ido longe demais na sua ambição legislativa para a Europa. E também me dei conta - e disse-o na primeira reunião no "bunker" de S. Bento, na presença de um silencioso Barroso - que o texto já se afastava bastante dos interesses portugueses. Para algum desconforto dos presentes, e levando mais tempo do que parecia ser esperado da minha intervenção, pormenorizei, alto e bom som, as razões por que achava isso. Sem falsa modéstia, o facto de ter sido o principal negociador português dos últimos dois tratados europeus dava-me alguma autoridade para falar.

À saída, Ernâni Lopes, que tinha representado Portugal na Convenção, e que entretanto havia sido objeto de uma atitude de grande indelicadeza por parte do governo, meteu-me o braço e, com um imenso sorriso e a atitude amiga do homem de bem que era, disse-me, na voz mais baixa que o seu vozeirão permitia: "Tiveste-os no sítio!"

Para o que interessa. Giscard d'Estaing tinha-se equivocado. O seu Tratado Constitucional foi rejeitado.

Giscard


Quando emergiu para a grande política, era uma espécie de personagem “à americana”, num género que, depois de Kennedy e de Trudeau, seduzia muitos europeus. Tinha o vigor de uma nova geração, renovadora da V República, coveira assumida da IV. Falava bem (falava inglês, hélas!), com um discurso competente, ágil nas contas, sedutor na eficácia apregoada. Era, ao seu modo, um liberal, ideia mais velha do que antiga e que confere sempre um ar desempoeirado a quem, ciclicamente, a proclama. Mesmo em França, onde o liberalismo foi sempre um receita garantida para o insucesso político. Depois de o ter usado como degrau para as suas legítimas ambições, como ministro da Economia e Finanças, Giscard acabou por provocar um De Gaulle já em declínio, a quem deixou o seu, para sempre tido como oportunista, “oui, mais”. Após demarcar-se do gaullismo (o seu verdadeiro inimigo de estimação), mas conseguindo domesticá-lo por algum tempo em seu proveito, veio a derrotar, na primeira corrida à presidência, François Mitterrand, lançando-lhe, com genial precisão, o magnífico “vous n’avez pas le monopole du coeur”. Cavalgou, entretanto, a conhecida atitude francesa de tentar dominar o processo integrador querendo mostrar o país como mais europeísta do que os outros. Com Helmut Schmidt, com quem fez um dos “tandem” franco-alemão, foi o “inventor” do Conselho Europeu, nesse tempo uma estrutura ainda fora dos tratados. Giscard foi uma figura indiscutivelmente brilhante, uma estrela no firmamento político francês, mas parece também pacífico que era um homem deslumbrado consigo mesmo, ao mesmo tempo que projetava um modo aristocrático, quase monarquista, de afirmação política, um elitismo snobe e distante. A questão dos diamantes que lhe terão sido oferecidos pelo facínora centro-africano Bokassa perseguiu-o sempre e, de certo modo, contribuiu para acelerar o seu fim político. Teve um único mandato presidencial, somando, na derrota que Mitterrand lhe inflingiu em 1981, muitas culpas próprias, conjugadas com uma conjuntura internacional que lhe foi adversa. Manteve sempre o seu prestígio público e viria a ser recuperado para presidir à Convenção Europeia, em que desenhou o Tratado Constitucional, ideia que acabou por morrer na praia, mas que acabaria por ressurgir travestida daquilo que ficou conhecido como o Tratado de Lisboa. Giscard, recorde-se, foi contra o “timing” da abertura da Europa a Espanha e Portugal. Perdeu. Como, mais tarde, foi bastante culpado pelo modo agressivo como a Turquia se sentiu rejeitada na aproximação que pretendia ao projeto. Nesse caso, Giscard, mas não só, contribuiu para que perdêssemos todos. Escreveu, além obras estimáveis e bem construídas, um livro desagradável e desnecessário, a rescender a decadência pessoal, insinuando, numa ficção inconveniente, uma sua hipotética relação com a princesa Diana. Em Paris, Giscard era vizinho da nossa embaixada. Goste-se ou não dele, temos de reconhecer que foi uma grande figura da política francesa. E europeia. Morreu ontem. De Covid.

quarta-feira, dezembro 02, 2020

Pé ante pé


Vale a pena olhar para trás, observar com atenção o percurso que foi fazendo, num ritmo de quem só dava um passo após ter firmado bem o anterior, depois de ter a certeza do que tinha acabado: de fazer, de dizer, de escrever. Foi assim a obra de Eduardo Lourenço.

O perfil físico, a voz beirã, o humor amalandrado, a gargalhada contida, a forma, só aparentemente hesitante, de expressar, em palavras simples, ideias originais, como que presumiam uma quase modéstia. À medida que o fui conhecendo, fui criando, de Eduardo Lourenço, a imagem de um sábio sereno, que se foi ele próprio construindo, quase sem precisar de se impor, uma figura que foi entrando pela alma deste país um pouco pé ante pé, nela acabando por se firmar como o melhor ilustrador daquilo que somos.

Lourenço, ao contrário de alguns bonzos, nunca parou para pensar. Foi pensando ao longo do caminho, sobre o que esse caminho lhe trazia à razão, porque viu sempre Portugal como uma entidade mutante, na consciência clara de que a mudança faz parte da natureza das coisas. E aí, ao contrário desses outros, que se agarram à identidade como a um padrão do império, assentava a sua genialidade.

Devo a Lourenço muitas coisas. Desde logo, a Europa. Foi com ele que comecei a refletir o quanto este retângulo geográfico com gente, para além de uma história, de uma língua, talvez de uma idiossincrasia comum, necessitava da Europa para cumprir mais uma etapa do seu destino, depois da aventura trágico-marítima do império.

Lourenço ensinou-me a perceber a riqueza de conseguirmos ser, com dupla e não contraditória lealdade, portugueses e europeus. Com ele percebi que a Europa nos completava e que, com alguma assumida sobranceria, devíamos também ter a ousadia de pensar que, sem nós, a Europa também seria outra coisa.

Fez-me também perceber que ser português é isto mesmo – a soma do que outros já foram, em nome daquilo a que chamamos Portugal, com o que hoje realmente somos, sem complexos nem gongóricas vaidades. Mostrou-me que esse é o outro lado, simples mas verdadeiro, de um país que é um sobrevivente da História, por entre os escolhos dos seus fracassos e das caravelas que deixaram de existir. Um país que sempre foi mais rico, como entidade histórica com boas razões para ser orgulhosa de si mesma, quando teve pelas suas ruas gente que nem sequer tem de chamar-se a si mesma de portuguesa para nos ajudar a ser o melhor que somos.

Eduardo Lourenço parte com uma imensa glória: ter ensinado o um país a ver-se ao espelho.

terça-feira, dezembro 01, 2020

Em Paris, com Eduardo Lourenço (3)


Ao tempo em que dirigia a delegação em Paris da Fundação Calouste Gulbenkian, João Pedro Garcia organizou um interessante ciclo de conferências sobre a Europa. Figuras portuguesas e francesas diversas intervieram nessas jornadas, sempre muito concorridas, nos tempos em que a antiga residência de Gulbenkian na avenue d’Iéna acolhia esses eventos,

Um dia, coube a vez a Marcelo Rebelo de Sousa de dizer o que pensava da Europa. Ao tempo, o atual presidente da República era um conhecido comentador televisivo. As suas charlas dominicais, sobre tudo e sobre todos, eram acompanhadas pelo país, mesmo por aqueles setores que com ele não concordavam.

Coube a Eduardo Lourenço, ao tempo administrador não executivo da Fundação, fazer a apresentação de Marcelo Rebelo de Sousa. Fê-lo com imensa graça, trabalhando a figura académica, política e mediática de Marcelo. A certo ponto, saiu-se com esta tirada lapidar: "Hoje em dia, em Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa é como aquelas figuras que, numa vila ou numa cidade pequena, estão à janela, a ver as pessoas passar na rua e vão comentando cada uma delas. Só que, no seu caso, ele acaba, por vezes, por ver “passar” nessa rua o cidadão político Marcelo Rebelo de Sousa e, claro, não se faz rogado e também faz comentários sobre ele”. Marcelo, como todos nós, riu-se imenso.

Em Paris, com Eduardo Lourenço (2)


Tenho boa memória, mas não a suficiente para me lembrar do nome do intelectual caribenho que, num final de tarde, na casa antiga da Fundação Calouste Gulbenkian, na avenue d’Iéna, em Paris, fez parelha com Eduardo Lourenço, num debate sobre uma determinada temática, organizado pelo diretor da Delegação, João Pedro Garcia. 

A sala estava cheia, quer pelo interesse no intelectual francófono, um homem já idoso, com voz forte e presença imponente, mas também para ouvir Lourenço, que os portugueses “viciados” nas sessões da Gulbenkian e muitos “lusófilos” muito apreciavam. Prometia ser uma bela sessão.

Começou o homem do Caribe. E fê-lo lindamente, de improviso, arrebatando a sala. Passou mesmo o limite de tempo que lhe era destinado. A seu lado, Eduardo Lourenço ouvia-o com visível interesse. Sentado em frente a ambos, na primeira fila (alguma vantagem haveria em ser embaixador...), notei que Lourenço passou os dedos, por mais de uma vez, por algumas folhas que tinha diante de si.

E chegou o momento de Eduardo Lourenço falar. Começou por referir-se ao que tinha acabado de ouvir, citando dois livros do orador, elogiando a sua notável prestação. E, depois, no excelente francês que era o seu, disse mais ou menos isto: “Eu tinha-me preparado para vos falar sobre o tema que, a ambos, hoje aqui nos convocou. Tinha mesmo escrito um texto, para vos ler. Mas ao ouvir o que, de magnífico, nos trouxe o meu colega de painel, surgiram-me novas ideias e decidi dispensar a leitura desse texto. E, tal como ele fez, vou-vos falar livremente sobre o assunto.”

E falou. Durante bem mais de meia hora, de improviso, num francês de estilo, a que o sotaque beirão dava uma nota curiosa, Eduardo Lourenço encheu a sala de erudição e encheu-nos, a todos os portugueses que por ali tinham o privilégio de estar, de um imenso orgulho por termos como compatriota uma figura daquele calibre. 

Em Paris, com Eduardo Lourenço (1)


Um dia, ao tempo que era embaixador em França, decidi organizar um jantar em honra de Eduardo Lourenço. Por uma qualquer razão, estavam também nesse jantar, recordo bem, Vasco Graça Moura e Guilherme de Oliveira Martins.

O jantar estava marcado para as oito e meia, mas o convidado principal atrasou-se. Já se aproximavam as nove horas quando, afogueado, o Eduardo chegou, pedindo imensas desculpas. E explicando a razão do atraso.

Tinha ido a um estúdio de cinema, em Saint Denis, na periferia de Paris, onde Manuel de Oliveira estava a filmar uma obra, ali tendo construído, em cenário, uma rua do Porto. E apanhara imenso trânsito no regresso, de táxi.

Perguntei a Eduardo Lourenço o motivo da deslocação ao local das filmagens. Fora para estar com Oliveira? Alguma curiosidade de ver a rodagem o filme? 

Íamos na sala, a caminho da mesa de jantar, quando o Eduardo me puxou pelo braço, baixou a voz e fez uma confissão: “Vou-lhe contar por que é que fui!” E deu uma gargalhada marota, de que quem o conhecia se lembra bem. “É que eu sabia que o Oliveira tinha no filme a Jeanne Moreau e a Claudia Cardinalle. Ora dei comigo a pensar que esta era uma boa oportunidade de, por uma vez, conhecer aquelas duas mulheres, duas belezas do meu tempo. E, como tinha algumas horas, meti-me a caminho e fui ao estúdio”. “E esteve com elas?”, perguntei-lhe, já meio invejoso. “Qual quê! Quando lá cheguei já tinham saído. Acabei por pagar uma conta calada de táxi e, ainda por cima, chego atrasado ao seu jantar. Desculpe-me, sim?”

Lourenço

No aparente consenso nacional que rodeava a sua figura, é necessário notar que certas ideias de Eduardo Lourenço foram sempre bastante incómodas para alguns. Porém, por estas horas, eles acham mais prudente manterem as garras recolhidas. Ouçam-se, com atenção, alguns silêncios.

Tempus fugit

Com todo o respeito que uma declaração ministerial sempre deve merecer em democracia, por que será que está instalada na opinião pública uma...