domingo, junho 28, 2020

Corrida

Conversa social, há dias. O outro, ribatejano: “Você gosta de touros?” Eu, transmontano: “Gosto”. Um sorriso despontou. Até que eu disse: “Por gostar deles é que detesto que lhes façam mal”. O sorriso fechou-se e mudámos de conversa.

A água estará boa?


sexta-feira, junho 26, 2020

Gerações


Há pouco, ao selecionar pastilhas da minha rotina medicinal diária, lembrei-me de como as gerações são diferentes, no tocante aos “hábitos” medicamentosos.

O meu pai morreu com 97 anos. Seis anos antes, foi passar comigo umas semanas a Nova Iorque. Perguntei-lhe se levava alguns medicamentos: sim, duas pastilhas de “Melhoral” e duas de “Rennie”, para “qualquer emergência”...

Fronteiras

Em questões de segurança há dois conceitos que nem sempre coincidem: a insegurança e a perceção de insegurança. A segunda pode ser injusta, à luz da estatística, mas tem de ser respeitada. Estou a falar, claro, dos países reticentes à entrada de portugueses, por virtude do vírus.

Pin Pan Pum

O PAN parece estar a implodir. Ainda não é desta que Portugal consegue ter um partido ambientalista a sério.

Posso estar errado...

As pessoas não falam muito disso, mas certas medidas de recuo no desconfinamento só parecem legais desde que cobertas por uma nova declaração do estado de emergência. Por mim, não vejo nenhum inconveniente nisso.

Haveis...

Quando vejo gente (com um ar nojento) de máscara no queixo ou como cachecol a falar para outros a palmos de distância, não consigo deixar de pensar na expressão cruel que, na minha terra, se dizia para os inconscientes que, por qualquer motivo, arriscavam a vida: “haveis de ter um lindo enterro!”

quinta-feira, junho 25, 2020

Dilema


E, agora, o que é que faço? Continuo a ler o livro de John Bolton sobre as suas andanças na Casa Branca como “National Security Advisor” ou passo para a edição de junho da “Piauí”, a fantástica revista brasileira, acabadinha de chegar, com um imenso artigo sobre a efémera aventura de Regina Duarte no país de Bolsonaro?

Banco de Portugal

Prometeram arranjar-me uma lista de nomes de pessoas mais competentes do que Mário Centeno para o cargo de governador do Banco de Portugal. Mas, por qualquer razão, a lista teima em não chegar. Alguém a tem?

Um adeus especial


Há semanas, tomei a decisão de entregar ao espólio bibliográfico que, com o meu nome, existe, desde há uns anos, na Biblioteca Municipal de Vila Real, um conjunto de livros que, há mais de meio século, tinha começado a organizar. 

Já estavam, pela Biblioteca, muitos e muitos livros, que lhes fui, aperiodicamente, encaminhando, desde que regressei definitivamente a Portugal. 

Mas esta era uma coleção muito especial. Comecei-a quando tinha menos de 20 anos. Trata-se de obras políticas sobre a I República e, em especial, sobre o Estado Novo (tenho orgulho de dizer que está lá quase tudo o que foi publicado, em livro, sobre a luta da Oposição contra a ditadura), complementadas por bastante daquilo que saiu do prelo sobre o 25 de abril e a sua sequência imediata. A luta anti-colonial tem também ali farta representação. Particularmente curiosos são livros publicados no estrangeiro sobre Portugal, quer por adeptos de Salazar, quer pelos seus exilados opositores ou por críticos estrangeiros da ditadura colonialista. Em muitos países descobri coisas interessantes sobre esse tempo de Portugal. Com franqueza, creio que nenhum daqueles livros é particularmente valioso, mas alguns são hoje muito raros, difíceis de encontrar no mercado.

Neste lento processo de “desligamento” voluntário de parte da minha biblioteca (ainda fico com uns milhares de volumes para me entreter, para além do que vou comprando), devo confessar, aqui entre nós, que este foi o único momento verdadeiramente traumático. Quantos anos andei eu, pelos alfarrabistas, a tentar encontrar alguns daqueles livros! Quanto prazer tive em ler aqueles textos bem datados, desde memórias ingénuas a coisas mais elaboradas, alguns com mensagens cheias de esperança, outros cheios de prosápia politiqueira. Mas está ali a História contemporânea de um país que é o nosso.

“Mas, se teve tanto trabalho a coletar esses livros, a que se sente afetivamente tão ligado, por que os não conserva consigo? Já não tem lugar para eles nas suas estantes?”, perguntarão alguns.

Tenho espaço (embora em dupla fila...), mas acho que dar-lhes um destino institucional acaba por ser a solução mais racional, até para proteger a sua integridade física e a sua integralidade como conjunto. Ao longo destes meses de confinamento, olhando para eles, dei-me conta de que só se tivesse sete vidas, como os gatos, é que conseguiria reler tudo aquilo (e alguns, dei-me conta, não cheguei nunca a ler, admito sem o menor problema).

Não sou, em geral, dado a grandes nostalgias. Mas, ao olhar aquelas centenas de volumes que agoram partem para Vila Real, algo em particular me tocou. Mas, adiante!

quarta-feira, junho 24, 2020

O Brasil em discussão



Durante meia-hora, a partir das 17 horas desta quarta-feira, dia 24 de junho, a jornalista Sandra Weiss e Leonídio Paulo Ferreira, diretor do Diário de Notícias, discutirão as Dinâmicas Políticas no Brasil. O acesso pode ser feito pelo Facebook ou pelo YouTube.

Que se passa no Brasil?


Mergulhados nas especulações sobre a pandemia, que arruina rotinas e abala certezas, os portugueses, quando, pela noite, olham as televisões, ouvem falar do Brasil. E o que é que fixam? A ideia de um país dirigido por um “doido”, com pulsões anti-democráticas, rodeado de figuras “sulfurosas”, amparado pelos militares, que dia a dia dá mostras de não estar à altura das responsabilidades exigíveis a um líder de um grande país, agora sob uma imensa tragédia sanitária. Com mais ou menos nuances, este é o retrato que nos chega do outro lado do Atlântico.


Durante muitos anos, Jair Bolsonaro foi um deputado risível, que obtinha destaque mediático pelos ditirâmbicos elogios que fazia à ditadura militar (1964-1985). Mau orador, “despreparado”, como por lá se diz, sem obra parlamentar, era uma “nonentity” no panorama político local. O sistema brasileiro, por mecanismos de representação uninominal que não cabe aqui descrever, dá aso à eleição de alguns “cromos”. E Bolsonaro era isso mesmo, um cromo. Até um dia.


Foi um conjunto muito excecional de circunstâncias, que teve essencialmente a ver com a rejeição profunda dos tempos do PT, visto como o centro do processo de corrupção política que marcou a gestão do Brasil, que acabou por polarizar o voto naquela figura de discurso primário e populista.


Mas foi também o descrédito da direita democrática tradicional, sem candidatos tidos como capazes de afastarem o “petismo” da área do poder, que levou gente sensata e equilibrada a optar pela escolha de uma figura com o recorte de Bolsonaro. Era a lógica do “depois logo se vê!”


Para muitos, e conheço alguns, foi um assumido ato de desespero, perante o desiderato maior que era afastar o PT e evitar um regresso ao poder de Lula ou um seu títere. Estou em crer, contudo, que a maioria dessas pessoas nunca pensou que Bolsonaro revelasse uma inadequação tão grande para o exercício das funções. Outros acreditavam, talvez, que seria possível rodeá-lo de figuras que permitissem um mandato marcado por alguma razoabilidade. A realidade acabou por superar as piores expetativas.

E agora? Apesar de tudo, há que reconhecê-lo, o Brasil tem revelado manter uma malha institucional com separação de poderes, com um imprensa e uma vida política livres. A questão está em saber: conseguirá a democracia brasileira sobreviver, não necessariamente a Bolsonaro, mas a este tempo trágico, de polarização e forte desgaste social, sem uma liderança prestigiada, em que tem uma figura como Bolsonaro na presidência?

terça-feira, junho 23, 2020

Duas pessoas


 

Falamos do final dos anos 50 do século passado.

A primeira pessoa. Recordo-me de lhe chamar senhora Gilberta. Na realidade, o nome dela era Maria, mas era conhecida por Gilberta, por ser a “Maria do Gilberto”, sendo que o Gilberto era o marido (ou seria o pai?). Morava depois dos Quatro Caminhos, lá para São Mamede. Vinha a nossa casa, em Vila Real, algumas vezes por semana, para trabalhos mais pesados, complementando aqueles que a “criada de dentro” fazia.

A Gilberta, recordo-me, tinha buço e um cabelo muito preto, apanhado atrás. Andava com um passo rápido.

A segunda pessoa. Convenhamos, para o que aqui conto, que se chamava Laurentino. Era meu colega de escola primária. O Laurentino era mais alto do que a maioria de nós e o professor, o Pena, tomou-o de ponta, sendo objeto das regulares reguadas nas mãos que, com evidente sadismo, ele nos distribuía com abundância.

Um dia, foi anunciado que um subsecretário de Estado da Educação ia visitar a nossa escola - que se chamava Escola Conde de Ferreira, o nome de alguém que tinha feito fortuna no tráfico de escravos e que, talvez para se absolver, tinha oferecido algumas dezenas de edifícios idênticos pelo país.

Para a visita do governante, foi pedido que os alunos tivessem uma bata. Nenhum de nós tinha bata. Os meus pais mandaram fazer uma para mim. Foi usada um dia, só nesse dia, apenas para o subsecretário nos ver, no breve minuto que passou na sala, connosco de braço estendido em saudação dita romana (outros diriam fascista). Nunca mais a usámos.

O Laurentino não esteve presente nesse dia. Os pais não tinham dinheiro para lhe mandar fazer uma bata. Aliás, não tinham dinheiro para muitas outras coisas.

Quer o aqui chamado Laurentino, quer a Gilberta, andavam, o ano todo, descalços. Fizesse sol ou neve, que às vezes também fazia, lá por Vila Real. Não me recordo dos pés do Laurentino, mas lembro-me bem de notar que a parte dos pés da Gilberta que andava em contacto com o chão tinha adquirido uma espécie de espessura, que funcionava como uma segunda pele.

Esta é uma conversa desagradável? Imagino que seja. Mas essa era a realidade do país da forte pobreza de alguns. O salazarismo era isso. Era desagradável.

segunda-feira, junho 22, 2020

Uma questão de decibéis


Ontem, falei por aqui de quanto me irritam as motos pela noite. Há pouco, lembrei-me que já estive do "outro lado". Não que eu tivesse alguma vez uma moto, mas porque já fui obrigado a defender o ruído das motos produzidas em Portugal.

Estávamos na segunda metade da década de 90. Eu representava Portugal no conselho de ministros do "Mercado Interno", em Bruxelas. A agenda dessas reuniões incluía a análise de uma imensidão de diplomas, relativos a questões técnicas para nós de grande complexidade, até porque diziam respeito a áreas muito diversas entre si. As temáticas ambientais e de proteção dos consumidores eram então as mais vulgares, num tempo em que se procurava legislar para que o "Mercado Interno" intracomunitário pudesse melhor funcionar (e, hoje, talvez valesse a pena completá-lo, como bem perceberá quem me ler e conhecer algo da matéria). A harmonização legislativa era essencial para proporcionar a livre circulação das mercadorias no espaço europeu. Por essa razão, era necessário produzir legislação à escala da Europa, que depois teria de ser transposta para a ordem interna de cada país. E, a partir daí, ser respeitada pelos operadores económicos.

Era isso que íamos tratar nessa reunião. Na véspera, no "hall" do Hotel SAS, com a Maria José Salazar Leite, a Lénia Real e a Regina Quelhas Lima, num ritual que iria durar alguns anos, eu tinha passado a pente fino a posição portuguesa sobre todos os diplomas que iam estar sobre a mesa do Conselho de ministros, neles identificando eventuais interesses nacionais a salvaguardar, alterações a propor e, em geral, o nosso sentido de voto na decisão final sobre as "diretivas" em causa. A nossa posição era baseada nas opiniões recolhidas junto dos "ministérios sectoriais" (fórmula algo pedante que o MNE utiliza para se referir aos outros departamentos governamentais), que deveriam ter auscultado previamente a nossa indústria interessada. Era assim que as coisas se passavam e, julgo, ainda se passam.

O grande berbicacho para nós, nessa reunião, era um diploma que incluía regras muito estritas sobre o ruído máximo permitido às motos e motorizadas. Recordo-me que, dentre os Estados dessa Europa então apenas a 15, Portugal e a Itália estavam em clara minoria, na defesa de um nível elevado de decibéis, que entendíamos deverem ser permitidos ao funcionamento dos escapes das viaturas dessa natureza produzidas pelas suas indústrias do setor. Ao ler a papelada à minha frente, lembro-me de ter pensado na barulheira que as "Zundapp", as "Pachancho" e as "Famel" faziam pelas ruas da Vila Real da minha juventude e, por um momento, senti-me representante dessa bárbara produção lusa de ruído e fumarada.

O assunto começara por ser analisado nos "comités" da Comissão europeia, onde os setores técnicos são ouvidos, mas o projeto de "diretiva" não contemplou os nossos interesses. A discussão do texto, nos meses anteriores, no seio dos "grupos de trabalho" do Conselho, também não acomodara as nossas pretensões e o diploma passara no "Coreper I" (comité dos representantes permanentes, versão representantes adjuntos) com as nossas "reservas". Porém, as objeções de Portugal e da Itália estavam longe de ser suficientes para construir uma "minoria de bloqueio", pelo que nos restava politizar o tema em Conselho de ministros, afastada, no entanto, a hipótese de invocar o chamado "interesse vital", para bloquear o diploma. É que um interesse só é "vital" quando os outros o reconhecem como tal.

Aquele era o primeiro Conselho de ministros em que eu participava, como secretário de Estado dos Assuntos europeus (quatro anos depois, havia de presidir a esse mesmo Conselho, durante um semestre). Como alguém dizia, "não há uma segunda oportunidade para se criar uma primeira impressão". Isto era válido perante os meus colegas de governos estrangeiros como o era perante a delegação portuguesa. Por isso, com base em sínteses, estudei o assunto tão bem quanto pude, a fim de bem defender as nossas "cores". A certo passo da reunião, pedi, para a fila de trás, onde estavam os técnicos, o texto completo do projeto legislativo: passaram-me um imenso "tijolo", com resmas de anexos, que devolvi discretamente, ciente de o não conseguir ali descobrir nada.

Chegado o momento na discussão da diretiva sobre o ruído das motos e motorizadas, intervim cedo, lendo uma "speaking note" que me havia sido preparada pelos serviços, texto que, na noite anterior, eu "oralizara" com umas expressões menos técnicas, para dar um tom mais político ao meu discurso. Fui solene e grave. Expliquei, com falsa sapiência e escudado em argumentos técnicos especiosos, que, em absoluto, era impossível à nossa indústria baixar de X decibéis, com os motores a operar a Y por cento da sua potência. Detalhei, com números catastróficos, os impactes sobre o desemprego que um grau de exigência maior na diretiva iria ter, com o encerramento de fábricas e crise nas regiões onde elas se situam. Em apoio às teses que defendia, disse (em português, porque nos Conselhos de ministros fala-se, em regra, a língua nacional) frases técnicas que eu só a custo havia entendido - e que, imagino hoje, devem ter chegado "lindas" aos ouvidos dos meus colegas holandês ou finlandês, retraduzidas através do inglês. Porém, acabei a minha prestação com a perceção, lida na cara das outras delegações, que a minha argumentação não os comovera minimamente. O "tour de table" foi, de facto, esmagador: constatava-se que Portugal e Itália estavam isolados.

Com simpatia e imensa ironia, o presidente da sessão, o secretário de Estado espanhol Carlos Westendorp, dirigiu-se então às delegações, dizendo qualquer coisa parecida com isto: "Agradeço as vossas intervenções, as de quantos apoiaram com veemência as virtualidades da diretiva como as de quantos ainda discordam de alguns aspetos que ela comporta. Mas, meus caros amigos, sejamos honestos connosco próprios: nenhum de nós sabe rigorosamente nada do que está a falar! Isto é uma matéria de alta tecnicidade, que somos chamados a decidir politicamente, mas sobre a qual a nossa opinião é apenas a que nos é dada pelos especialistas, que prepararam as "speaking notes" que, de forma tão esforçada, todos vocês leram. Verifico que a Itália e Portugal alegaram ter problemas com a diretiva e, a crer no "dramatismo" das suas declarações - em que todos somos obrigados a acreditar -, isso pode ter implicações para as suas indústrias. Convido, assim, a Comissão europeia a estudar, com essas delegações, a instituição de um "período transitório" para as mudanças a introduzir na sua respetiva legislação, dando às suas indústrias algum tempo mais para se adaptarem. E espero que, quando o assunto aqui voltar no próximo mês, todos me poupem à sua "sapiência" sobre os ruídos das motos".

A sala caiu em risos e, já não me recordo bem como, o assunto lá foi encaminhado. Por mim, e para o futuro, aprendi para sempre em não ser muito enfático sobre assuntos cuja tecnicidade desconheço.

A vida é feita de irónicas contradições. E pergunto: será que, um quarto de seculo depois, a diretiva está a ser cumprida? Ou ainda perdura alguma "derrogação" que dá liberdade a quem me estraga a noite? E será culpa minha, desses tempos, de algo que me tenha escapado? Terei razões para ter algum peso na consciência, desses (demasiados) anos nas lides europeias?

domingo, junho 21, 2020

Esta varanda



Conheço esta varanda há tanto tempo quanto me conheço a mim. Lembro-me de correr por ela, quando o soalho era ainda de madeira, preocupando os mais velhos, pelo risco de poder cair pelas escadas de pedra. Ser, então, neto único, sobrinho único e filho único era um privilégio que nem lhes digo! Por ali adubei depois os “blues” da adolescência, tocando (pessimamente) viola, como baladeiro de trazer por casa. Nas décadas seguintes, foram centenas as horas de leitura e conversa, naquelas e noutras cadeiras que por ali foram estando, em verões que tenho por felizes. Na memória, ficou-me para sempre o chiar dos carros de bois que subiam do Fundo de Vila para o Cruzeiro. E, em especial, o quase silêncio das muitas madrugadas em que ali fiquei a pensar “na morte da bezerra” (não, não havia mosquitos!), ouvindo a água que corria pelo rego lateral da rua, no calendário de distribuição da rega pelos terrenos da aldeia. Ah! E lembro-me bem das imprecações íntimas contra as Zundapp, as Famel e as Pachancho que, ao longe, vindas das Pedras ou de Eiriz, me rompiam a quietude. Na imagem, não se vê ninguém? Pois olhem que esta varanda está, para mim, cheia de gente: avós, pais, tios, primos e amigos.

Suicídio

Hoje, na comunicação social, falar-se-á muito de um suicídio. No mundo em vivemos, e tratando-se de figura com destaque mediático, é quase inevitável que isso aconteça, embora fosse desejável que quantos são próximos da pessoa desaparecida pudessem chorar, sem serem perturbados, a perda sofrida. Conheci pessoas que se suicidaram, tendo sido muito amigo de uma delas. Por mais que tentemos entender as razões desse gesto extremo de alguém, não creio ser possível a outrem conceber o cúmulo insuportável de pressão interior que poderá conduzir uma pessoa a essa desistência de tudo. Por isso, a ocorrência de uma situação como esta, mais do que provocar qualquer juízo valorativo ou interpretativo da nossa parte, deveria apenas convocar o nosso respeito. E, desejavelmente, o silêncio.

sábado, junho 20, 2020

Lula no Real Gabinete


Foi em 2008. O presidente Cavaco Silva visitava oficialmente o Brasil, no quadro das comemorações da chegada da corte portuguesa, que tinha tido lugar 200 anos antes. Um conjunto de cerimónias teve lugar no Rio de Janeiro.

Pelo que me dizia respeito, como embaixador de Portugal, desde o primeiro momento, insisti muito em incluir, no programa da visita, uma deslocação do presidente Lula ao Real Gabinete Português de Leitura.

O Real Gabinete é uma instituição “sui generis”. Num edifício de desenho eclético, onde prevalece um neomanuelino com distorção transatlântica, que recorda um pouco a estação do Rossio ou o hotel do Bussaco, aí repousam centenas de milhares de livros em língua portuguesa, sendo aliás o maior repositório bibliográfico existente fora do nosso país.

Mas o Real Gabinete é bastante mais do que um edifício e uma biblioteca: é uma expressão simbólica do extraordinário esforço da comunidade portuguesa para conseguir erigir um monumento representativo da dignidade da sua presença no Brasil, da empenhada contribuição dada por muitos milhares de portugueses para a construção daquele país.

Alguns Gabinetes de Leitura, bem como outras bem antigas instituições criadas pela nossa comunidade, nomeadamente na área da saúde e da solidariedade social, continuam a existir, ainda hoje, no Rio e em outras cidades do Brasil, grande parte, contudo, já sem a aura de outros tempos.

Infelizmente, o Real Gabinete continua a não ser muito conhecido dos brasileiros, nem sequer dos muitos turistas portugueses que, no Rio, lhe preferem o Calçadão, Ipanema ou o Leblon. Situado numa zona que veio a tornar-se algo periférica, só lentamente terá começado a surgir, nos últimos anos, em alguns itinerários turísticos e culturais.

Em tempos idos, para os portugueses desafetos ao regime ditatorial português, o Real Gabinete representava também uma certa "colónia" de matriz salazarista, que tendia a confundir o respeito pelo nosso passado com a adesão ao padrão político autoritário que preponderava em Lisboa.

Sou um "fã” do Real Gabinete, confesso. Visitei-o, a primeira vez, em 1989. Fui lá bastantes vezes, durante o tempo em que fui embaixador no Brasil. A instituição, para mim, transcendeu sempre qualquer conotação política que lhe tivesse estado associada.

Uma visita do presidente Lula ao local, acompanhado pelo chefe de Estado português, parecia-me ser uma excelente forma de sublinhar a força da relação luso-brasileira, em especial naqueles dias em que o Brasil nos estava a ajudar a melhorar a imagem que dom João VI conservava na nossa própria memória coletiva nacional.

Além disso, posso agora revelar que procurei utilizar essa visita como uma homenagem, indireta e subliminar, do poder político brasileiro à matriz fundacional daquele país. E isso tinha ainda maior significado porquanto seria feita por um presidente oriundo de uma área político-ideológica onde tradicionalmente se não acolhem, por ali, os maiores amigos de Portugal.

A minha sugestão foi facilmente aceite em Lisboa. Nas autoridades brasileiras, no entanto, a questão foi muito mais complexa, tendo a minha ideia sido resistida durante algum tempo. Porém, com algum esforço de convicção, ajudado por alguns amigos que consegui mobilizar no Itamaraty (obrigado, Ruy Casaes) e no Planalto (obrigado, Marcel Biato), ela acabou por ter sucesso. E, ao que sei, em derradeira instância, Lula, que tinha uma afeição evidente por Portugal, terá ajudado a essa decisão.

Quando a hora chegou, eu estava com uma imensa curiosidade para ver a reação de Lula. Insisti que fosse recebido à porta por Cavaco Silva, decisão que também deu muito trabalho para ser aceite. Porquê? Porque o Real Gabinete é uma instituição de direito público brasileiro e o presidente português não podia, formalmente, ser o anfitrião no local. Mas lá se conseguiu também isso, depois de algumas conversas!

Vi que Lula vinha já impressionado com o aspeto exterior do edifício. Depois, no trajeto que havíamos cuidado que evitasse a passagem pela sala onde está o busto do ditador de Santa Comba, seguiu, acompanhado de Cavaco Silva, até uma espécie de palanque, no centro do majestoso “hall”, encimado por uma cúpula de vitrais, cercado de varandas de estantes, com a imensidão bibliográfica ali recolhida. Aguardavam os dois presidentes, nesse espaço, algumas dezenas de pessoas, maioritariamente da comunidade portuguesa e de meios empresariais e culturais do Rio.

Lula não deixava de olhar em volta, claramente deslumbrado. Naqueles segundos, em que defrontou e prescrutou a imensidão de estantes, recheadas com o quase meio milhão de livros, naquele espaço belíssimo, com uma dimensão grandiosa, fiquei com a sensação de que terá entendido mais sobre o papel que os portugueses tiveram no Brasil do que em todo o resto da sua vida. A sua cara não iludia, os comentários que trocava com os colaboradores próximos eram de um genuíno deslumbre. Fiquei confortado com a sugestão que tivera de ali o levar.

Ao lado de Cavaco Silva, Lula tomou lugar na tribuna. Continuava, incessantemente, a olhar em torno. Começaram os inevitáveis discursos. Lula encerraria. Na primeira fila, onde eu estava sentado, via-o distraído, a mirar aquela peça arquitetónica, que imagino que até ali nem sequer suspeitara que existia, com semelhante dimensão.

A certo ponto, vi Lula acenar, levemente, para alguém que devia estar num dos varandins superiores, onde se situavam muitas das estantes com livros, situadas atrás da audiência. Discretamente, como algumas outras pessoas, voltei-me para tentar perceber a quem se dirigia o gesto: Lula estava a dizer adeus a um grupo de empregadas, com bata de trabalho, que se haviam colocado, lá no alto, para verem o seu presidente. Era Lula no seu melhor...

Conselho de ouro

A Galp e a Jerónimo Martins podiam fazer um anúncio: "Se o governador do Banco de Portugal prefere as nossas ações, de que é que você e...