Foi há cerca de uma década. Era agosto e eu andava sozinho por Bragança, a descansar uns dias, com livros em atraso.
Instalado na Pousada (não digam a ninguém, mas o quarto 401 é o melhor), tinha jantado na varanda, com a fantástica comida do Óscar e os vinhos recomendados pelo Tó Luís. Como a noite estava magnífica, deu-me para descer à cidade e passear com calma por algumas ruas por onde nunca antes tinha andado a pé.
A certa altura do percurso, comecei a ouvir o que me pareceu serem umas rezas, ampliadas por altifalantes. Achei estranho e fui andando. No topo da rua, deparei-me com uma procissão que subia a artéria onde eu desembocara, a que parte da Sé. Era uma massa humana que ocupava todo o espaço, de fachada a fachada, passeios incluídos.
À frente (não quero soar ao Villaret a declamar “A Procissão” de António Lopes Ribeiro, nem adotar tom de cronista de ciclismo) vinha um grupo de opas brancas, erguendo altas luminárias — perdoe-se-me a pobreza do vocabulário, mas sou de outra paróquia em matéria de fés e fezadas. Os andores deviam ser muito pesados, pelo que, escassos metros percorridos, quem os transportava tinha de suspender a tarefa, surgindo logo uns apoios para os sustentar. O ritmo da procissão parecia-me, assim, muito mais lento do que habitual — embora eu reconheça não ser um qualificado comentador do tema.
Fiquei com a impressão de que todo o topo da procissão olhava para mim, com um ar que me parecia inquisitivo. Momentaneamente estonteado pelo imprevisto, especado no meio do passeio, eu não passava despercebido àquelas centenas de pessoas que, devagar, passo a passo, se aproximavam numa grande, serena e pia onda humana.
Para fugir à inconfortável evidência em que estava, desviei-me, com a discrição possível, na tentativa de me tornar menos visível. Subi uns degraus para me refugir na entrada de uma loja. Colei-me a uma montra de uma casa de modas, para mostrar um ar falsamente descontraído — mas, em lugar de me disfarçar diante daquela atenção coletiva, fiquei ainda mais iluminado pela luz que vinha de dentro, exposto como um figurino que não constava da liturgia. Cada vez mais me parecia que todos os ferverosos participantes no cortejo fitavam aquele tipo de cabelos brancos, de t-shirt e jeans, com barba de três dias, parado numa postura insólita, em claro contra-fluxo com a cerimónia.
Que fazer? Pensei deixar passar a procissão, mas, como ela seguia lenta e a mole humana parecia sem fim, e se vislumbrava ainda lá no fundo, no largo da Sé, percebi que aguardar pelo fim do cortejo não era solução razoável.
Foi então que tive a mais triste das ideias. Em lugar de regressar pela rua por onde ali tinha chegado (creio que era a rua do Paço), deu-me para afrontar a procissão no sentido contrário ao dos fiéis. Em contramão. Como quem tenta sair de um estádio durante o hino nacional. E lá fui abrindo caminho com uns “com licença”, por entre os atónitos participantes, que não paravam de cantar e rezar — a maioria com uma vela na mão (hoje já de plástico translúcido; na minha infância, eram de papel) —, quase todos a exibir um silencioso desagrado face ao forasteiro que insistia em furar entre eles. Que embaraço!
Anos antes, num 10 de Junho de sol inclemente, numa praça ali bem perto, eu tinha recebido das mãos do chefe do Estado a grã-cruz da Ordem de Cristo. E agora descobria-me a provocar, em sentido proibido, uma procissão dedicada ao mesmo Cristo.
A vida tem destas ironias: primeiro dá-nos medalhas, depois tira-nos a dignidade.

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