domingo, agosto 02, 2026

Os illuminati


Quase sempre de blazer e de camisa aberta até ao terceiro botão, com um cosmopolita sorriso condescendente, exibem por colóquios e palestras o esgar superior de quem já viu tudo e se esforça por tornar óbvio o que devia ser evidente aos pobres néscios, a nós. Acham que este país, para o qual olham do alto da bolsas com que pela estranja adubaram o currículo (escrevem "curriculum"), não os merece. 

Portugal, no fundo, não passa, como dizia o outro, de uma choldra, recheada de invejosos, de incapazes e de gente menor, tutelada por políticos incompetentes, que não estão à altura dos seus melhores — isto é, deles. Sentenciam com regularidade que a pátria a que, com desgosto, acabaram por ter de aportar (talvez porque ninguém lhes tenha dado atenção lá fora), afinal podia ser uma terra rica (como eles desesperadamente querem ser), não fosse a falta de ambição (que a eles não falta, claro) e a endémica relutância em absorver o salvífico receituário liberal — essa bíblia da verdade económica que, por uma incompreensível e endémica teimosia nacional, ainda não é hoje uma doutrina com a devida consagração constitucional.

Há um pormenor que os denuncia sempre: falam de economia com o mesmo sotaque com que, outrora, os adolescentes imitavam os primos emigrados. Um leve arrastar de vogais, uma pausa estratégica antes do inevitável termo técnico em inglês, como quem verifica se o auditório os está a conseguir acompanhar. Não é bilinguismo — é blindagem. Se dissessem o mesmo em português, a magia desaparecia, arriscavam ser compreendidos, e pior ainda, ser contestados.

Alguns, tendo passado uns anos em Londres, no INSEAD ou em Boston, regressaram convertidos, não em economistas, mas em missionários. E como todo o missionário, não vem discutir — vem revelar a verdade a quem, coitado, nunca teve acesso a ela. Para estes conversos, Portugal não é um país — é uma sala de espera onde o resto de nós aguarda, resignado, que alguém venha finalmente aplicar o que “lá fora” já se sabe. A palavra “lá fora” funciona como selo de autenticidade: não importa o quê, se veio de lá fora é evidência; se nasceu ou se pensou cá dentro, é opinião, quando muito.

A ironia mais deliciosa é que este discurso raramente é apresentado como o que é — uma posição ideológica entre várias outras — mas como diagnóstico técnico, quase clínico. “A economia manda”, dizem, como se a economia fosse uma força da natureza e não um conjunto de escolhas políticas com vencedores e vencidos bem identificados. E os vencidos, convenientemente, nunca são eles.

No fim, o retrato mais fiel destes repatriados (uma espécie de retornados de uma colonização estrangeira) não é o do blazer nem o do sotaque — é o da certeza. A certeza de que existe uma resposta única, já testada algures, que só falta um país inteiro ter o bom senso de aplicar. Falta-lhes, a eles, a humildade de perguntar por que motivo, apesar de décadas de conselhos idênticos vindos de gente igualmente convicta, o receituário continua por aprovar, no referendo permanente que é a vida democrática de um país que é livre para discordar.

Talvez a choldra não seja Portugal. Talvez seja apenas a arrogância de quem confunde o facto de ter vivido lá fora com o já ter compreendido tudo cá dentro. E não lhes ocorre que um país possa ouvir os seus conselhos, compreendê-los perfeitamente e, ainda assim, considerá-los completamente errados. E não lhes ligar peva.

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