Dia após dia, escrevo por aqui sobre tudo e mais alguma coisa. Confrontado com a notícia da morte de uma amiga — mesmo não sendo inesperada — fico embotado e sem saber o que dizer. Como estes textos têm, em geral, um tom leve e frequentemente lúdico, hesito sempre ao aventurar-me por registos mais sérios, em que não sei calibrar a expressão dos sentimentos com o registo habitual.
Durante meses, anos, acompanhámos à distância o declínio da saúde da Papucha. Para nós, ela era quase eterna. Frágil, mas dura de roer. Tinha superado no passado tantas coisas que nos iludíamos: não seria o efeito de um maço de tabaco a mais ou a menos a vergá-la. Quando a situação se agravou de vez, insistiu em que a não fôssemos ver. Respeitámos a sua vontade. E agora foi-se.
Quero recordá-la para sempre a sorrir, com um olhar bondoso, tantas vezes preocupada com os outros, a mudar de conversa quando o assunto era a saúde dela, com uma delicadeza de atitude sem igual.
Não sei mais que diga. Um abraço imenso, Fernando.
Adeus, Papucha.

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