A Gibert Jeune da Place Saint-Michel, em Paris, era uma livraria feia. Feia com método, sem uma única concessão ao bom gosto. E era justamente por isso — por ser tão feia e, ao mesmo tempo, tão apetecível — que se tornava magnífica. Conheci-a há quase setenta anos, caramba!, o que diz mais de mim do que dela, que ali estava desde 1886.
Nesses outros tempos, sem telemóveis nem poiso certo, os encontros marcavam-se junto à fonte da praça: os que passavam por Paris e os que lá iam arrumando os dias como podiam. Para matar horas, ou simplesmente para nos aquecermos quando fazia frio, palmilhávamos os corredores da Gibert, entre prateleiras deliciosamente sem graça, onde ninguém nos cobrava a compra fosse do que fosse.
É uma imensa ingenuidade nossa imaginar que as coisas que conhecemos permanecem sempre no mesmo lugar, disponíveis para a comodidade da memória. Algumas ficam. Outras mudam de ramo.
A Gibert Jeune muda agora de nome e passa a vender hambúrgueres. Que passe muito bem!

