Faz agora sessenta anos, quando fui para a universidade no Porto — ia escrever “estudar”, mas, perante os resultados, o pudor obrigou-me a recuar —, decidi, entre mil outras coisas, praticar desporto.
Joguei futebol, andebol e fiz atletismo, sempre com um entusiasmo muito superior ao talento. Sem falsa modéstia, fui apenas um anónimo mas sempre bem disposto membro do pelotão. Ainda assim, durante dois anos, levei o emblema do CDUP ao peito como se isso já fosse um currículo.
No atletismo — onde era um esforçado velocista, e “esforçado” é a palavra que conta — treinávamos no Estádio Universitário, junto à ponte da Arrábida. Nestes dias de Europeu de Atletismo, a ver a Sport TV, veio-me à memória um episódio do lançamento do martelo. Passadas seis décadas, ainda me faz rir sozinho.
O CDUP tinha, se bem me lembro, um único praticante da modalidade. Homem grande, ombros de armário, cara ao mesmo tempo pacata e ameaçadora. Talvez finalista de Engenharia. Ou de Medicina. Também não me lembro do nome. Do resto, sim: quando ele pegava naquele engenho, toda a gente sabia exatamente onde ele estava — e, sobretudo, onde não devia estar.
O lançamento do martelo exige redes metálicas sérias. Um desvio mínimo e o treino pode transformar-se numa experiência altamente traumática para quem estiver por perto. Só que montar a estrutura de proteção dava trabalho, roubava tempo.
Nasceu assim um protocolo informal, mas rigorosamente respeitado: uma espécie de plano de sobrevivência coletiva, que passava de boca em boca.
Quando o nosso lançador era avistado a iniciar os movimentos de aquecimento — aquelas rotações lentas e solenes que pareciam anunciar o fim do mundo —, instalava-se no estádio um alarme silencioso. Sem sirenes nem altifalantes. Mas que funcionava na perfeição.
Os saltadores suspendiam tudo. Os velocistas paravam os sprints, ou melhor, reorientavam-nos de imediato numa outra direção. Todos, sem exceção, iam refugiar-se atrás nos corredores sob as bancadas, como se tivessem ensaiado aquilo desde miúdos. Em segundos o estádio ficava com ar de cidade à espera de bombardeamento. Só faltava alguém gritar: para os abrigos!
Ficava só ele, sozinho no campo, concentrado e solene, a rodar sobre si próprio como se estivesse numa final olímpica. À volta, um êxodo em massa. Ele parecia não dar por nada — ou talvez achasse que aquele afastamento geral era uma justa homenagem à perigosíssima nobreza da sua modalidade.
E lá vinha o lançamento!
O martelo descrevia a trajetória e, de debaixo das bancadas, dezenas de cabeças emergiam, cautelosamente, a conter a respiração. Espreitávamos, prontos a desaparecer ao primeiro sinal. Só depois de o engenho pousar, e o silêncio confirmar que ninguém tinha sido atingido, é que voltávamos lentamente às nossas coisas. Até ao próximo lançamento.
Era, no fundo, uma imensa galhofa. Pelo menos para nós.
Para o lançador, cada tentativa era a concentração e a legítima esperança de um bom resultado. Para nós, tratava-se sobretudo de sobreviver ao treino dele e conseguir regressar a casa com a cabeça no sítio certo. E, de preferência, inteira.
Visto à distância de sessenta anos, o episódio diz menos sobre o atletismo universitário de então do que sobre a nossa juventude. Éramos capazes de passar noites de copos e cartas, em branco, com refeições medíocres e a tomar decisões de vida completamente irresponsáveis. Mas, perante um tipo enorme a rodar um martelo de metal num campo aberto, sabíamos revelar algum bom senso.
E por isso ainda cá estou. Não graças ao meu talento atlético, mas graças à prudente decisão de nunca permanecer na trajetória de um martelo. Os meus amigos trotskistas levam a mal se eu terminar com a graçola de que Liev Davidovich Bronstein não foi capaz de evitar isso?

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