Algures nos anos 40, o meu sogro — técnico qualificado, funcionário público — foi transferido de Lisboa para Vila Real. Ali casou, viveu e morreu, já viúvo, com quase 100 anos. Era natural das redondezas de Viana do Castelo, onde uma infância e uma juventude muito felizes o tinham deixado transbordante de memórias saudosas, que nos contava com pormenores deliciosos.
Tempos depois, ainda nessa década, chegou a Vila Real o meu pai. Nascido também em Viana do Castelo, tinha vivido uns anos em Lisboa antes de se fixar ali, onde foi gerente da Caixa Geral de Depósitos por mais de um quarto de século. Morreu na mesma terra, viúvo, aos 97 anos. Dele herdei uma infinidade de historietas da Viana da sua época — terra da qual sempre se sentiu, de certa forma, “exilado”, embora eu tenha sempre achado que era mais vila-realense do que eu próprio.
Não se imagine que a origem comum do meu pai e do meu sogro os aproximava especialmente. Conheciam-se, respeitavam-se, mas cada um tinha a sua própria roda de convívio.
Mesmo depois do meu casamento, quando se cruzavam na rua, cumprimentavam-se e tiravam o chapéu um ao outro, tratando-se com cerimónia. Nas poucas vezes em que pensei poder ajudar a encurtar essa distância — sobretudo depois de ambos ficarem viúvos —, percebi que havia ali uma linha que nunca seria atravessada.
Certa tarde, levámo-los a Viana do Castelo, já ambos na segunda metade dos seus 90 anos. Ouviam mal os dois, e a conversa entre eles custava a fluir, mas foram surgindo memórias comuns — embora apenas de Vila Real, onde tinham vivido tantas décadas.
A dado momento, veio à baila uma senhora, casada com um conhecimento comum. O meu sogro, que tinha um gosto especial — e muito respeitável — pela observação do sexo feminino, soltou uma expressão bem sua: “… por sinal, bem jeitosa!” O meu pai, ao meu lado, certo de que o ouvido do outro vianense não apanharia o comentário, e claramente pouco de acordo com a generosidade estética que acabara de ouvir, atirou-me, em voz baixa: “Tem boa boca, o teu sogro…”
A que propósito trago isto hoje? Por razões que, por incrível que pareça, se prendem com Donald Trump. Ao acompanhar o "follón" que vai pela imprensa americana à volta da mais próxima assessora do presidente, Natalie Harp, dei comigo a pensar que, se o meu sogro e o meu pai fossem vivos, concordariam sem hesitação em considerá-la “… por sinal, bem jeitosa!” E eu juntar-me-ia ao coro — por muito que isso provoque o arrepio de algumas leitoras mais avessas a este tipo de apreciação estética, pelo menos quando dirigida ao sexo feminino.

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