Era azul escuro, comprido, e assentava muito bem na figura elegante e esguia daquela senhora, que andava acompanhada por um catraio pequeno, no hotel onde estou instalado. Só havia um pormenor: o vestido estava do avesso. A marca do produto, num retângulo branco, flutuava bem visível, salvo para a própria.
— Minha senhora. Peço desculpa, mas queria chamar a sua atenção para o facto de ter o vestido do avesso. Provavelmente nem notou...
— Olhe lá! Tem alguma coisa a ver com isso? Meta-se na sua vida! Olha que topete! Ele há cada um! Que intrometido!
O diálogo, com este final desagradável, não teve lugar.
— Ah! Muito obrigada. De facto, não tinha notado. Foi muito delicado da sua parte chamar-me a atenção. Fico muito grata.
Ela também não disse isto. Aliás, não disse nada. É que eu, ‘à cause des mouches’, como dizia um amigo do meu pai que julgava falar francês, decidi também não arriscar e nada lhe dizer. O mundo está difícil e eu já não tenho idade para comprar guerras.
E lá continuou a passear pela sala a elegante senhora, qual Paulina vestida de azul, acompanhada pelo catraio, com o vestido do avesso que, apesar de tudo, lhe assentava muito bem.

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