sábado, agosto 29, 2026

Não está bem

Os anglo-saxónicos dispõem da expressão “unwell”, que sempre me soou mais suave, quase um eufemismo de cortesia. Por cá, cada vez mais, é assim que me descrevem o estado de pessoas da minha geração, de quem há muito não tenho notícias e por quem pergunto: “não está bem”.

Não se recorre ao “não está bem”, sem mais pormenores, quando se trata de uma doença tradicional, dessas que há anos todos os dias se nomeiam. O uso da expressão parece antes sugerir que a realidade começou a passar um pouco ao lado dessas pessoas — ou que foram elas que dela se afastaram, o que vai dar ao mesmo.

Será decerto efeito da idade que tenho o facto de serem cada vez mais os amigos de quem ouço dizer isto. Antigamente, éramos mais sem rodeios: “não anda bom da cabeça”. Hoje, para muitos, a palavra “demência” banalizou-se, ainda que se use com mais comedimento do que a referência ao Alzheimer.

Por essa razão, refugiarmo-nos no “não está bem” acaba por ser uma cobardia lexical — mas perdoável. Eu uso-a. E, infelizmente, as ocasiões começam a ser mais do que muitas.

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