1. A corrupção continua a marcar o quotidiano da vida política ucraniana. É uma endemia nacional que precede a guerra mas que, aparentemente, se agravou muito com ela. É extraordinário o número de responsáveis que têm sido afastados nos últimos anos. Mas, a contrario, prova que ainda há por ali estruturas que persistem em alguma tentativa de controlo da questão. Elas têm obrigatoriamente de funcionar, mesmo que de forma limitada: são essenciais para Zelensky poder mostrar ao mundo que o financia que tem alguma atenção ao rumo das faraónicas quantias que têm entrado nos cofres de Kiev.
2. Há que estar atento ao que se passa no norte da Síria. Aproveitando a fragilidade do poder central de Damasco, a Turquia tenta reforçar a sua presença em áreas que Israel, a potência regional mais forte, considera caberem dentro da sua área de influência. E isso está a levar a conflitos, por ora limitados. Gerir uma relação com um país em frangalhos, depois de ter contribuído fortemente para essa situação, é o que Israel procura fazer na Síria. Telavive ainda pode vir a ter saudades dos tempos em que lidava com um poder forte em Damasco — adversário mas previsível.
3. O grande beneficiário da fragmentação do campo socialista francês, no caminho para as presidenciais de abril/maio de 2027, pode vir a ser Jean-Luc Mélenchon, lider da "France Insoumise". Tal como Marine Le Pen não deixará de fazer no lado oposto do espectro político, Mélenchon irá agora tentar alargar a sua base potencial de apoio. É que sem conseguir ir buscar votos à esquerda que se situa à sua direita, tentando nela surfar as saudades do "Nouveau Front Populaire" — a tentativa de "geringonça" francesa que o próprio Mélenchon, arrogantemente, ajudou a destruir —, as suas hipóteses de chegar ao Eliseu continuarão reduzidas.
4. Uma das estrelas em ascensão na direita espanhola, Isabel Díaz Ayuso, pode ter tropeçado numa operação que está a ser investigada por alegadas irregularidades no exercício das suas funções na Comunidade de Madrid, por virtude de um apartamento adquirido para seu uso, aparentemente à margem das regras. Sendo ela uma sombra permanente ao líder do PP, Núñez Feijóo, alguma alegria pode estar a provocar este mau período da líder madrilena no seio da direção do partido. O comportamento de Ayuso numa visita política ao México já havia revelado uma densidade política inferior ao que prometia. Mas, atenção: Ayuso está longe de ser uma carta batida na vida política espanhola.
5. O Brasil político não é um país, é um continente. Uma eleição presidencial, dentro de poucas semanas, irá mostrar, uma vez mais, um país dividido grosseiramente entre um Norte onde a pobreza favorece Lula da Silva, e a esperança que ele encarna, e uma zona Sul onde, muito simplesmente, irá preponderar o candidato que demonstrar ser mais eficaz para derrotar o velho sindicalista, qualquer que seja o seu nome. No passado, foi um improvável Jair Bolsonaro a corporizar essa luta. Agora, pode ser o seu filho Flávio. A direita brasileira tem ainda outros nomes a correr na liça. No caminho político da sua radicalização, ela foi perdendo algumas figuras que representavam a sua face mais apresentável. A ironia é que um deles, Geraldo Alckmin, é hoje candidato a continuar como vice-presidente de Lula.

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