Este cavalheiro é o meu avô paterno. Morreu subitamente em 1925, com 52 anos, mais de vinte anos antes de eu nascer. Deixou viúva a minha avó, que viveu até 1963.
Que eu saiba, há apenas uma meia dúzia de fotografias deste meu avô. Em todas, sem exceção, afivela este ar grave.
Desde criança que olho as imagens deste avô com uma imensa, mas insaciável, curiosidade. Como sorriria para os muitos netos, se acaso os tivesse conhecido?
Sabendo-se, do comprovado arquivo oral familiar, que tinha um reconhecido êxito com as mulheres — e a minha avó bem sofreu com isso —, de que modo a sua aparente gravidade se adocicaria à vista dos campos da perdição sentimental?
O meu pai, que tinha 15 anos quando o pai morreu, recordava-o como um homem pouco dado a gestos de carinho para com os filhos. Ao que me contava, era também de uma extrema rigidez no tocante ao comportamento destes.
Por contraste, na memória da minha avó, passada mais tarde em conversas com os filhos, o António Emílio — era assim que se chamava — seria uma pessoa com imensa graça, mesmo um brincalhão.
Agora é tarde para sabermos se seria mesmo assim — ou se, no fundo, ele seria afinal as duas coisas.
Eu, para sempre, olharei esta fotografia como um mistério.

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