Há dias, num daqueles encontros — uma espécie de “amigos de Alex” que vamos repetindo nesta fase da vida —, em que travamos conversas retrospetivas, já cheias de lacunas de memória em que nos compensamos mutuamente, vieram à baila os tempos da vida associativa universitária, antes da Revolução de Abril.
Creio que fui eu quem trouxe à conversa o nome de João Crisóstomo, a propósito das RIAs.
Para quem não saiba, o acrónimo RIA designava, em Portugal, no tempo das lutas académicas, as Reuniões Interassociações — encontros de dirigentes estudantis de várias faculdades, geralmente convocados para discutir “novas formas de luta”, naqueles tempos áureos em que os universitários se uniam em torno de reivindicações que iam muito para além das propinas e das praxes.
João Crisóstomo, que infelizmente já desapareceu há muito, era um dirigente associativo dos anos 1960 e 1970 e uma figura marcante para a minha geração académica. Representava o IES — Instituto de Estudos Sociais, uma escola que nascera no Ministério das Corporações e soubera evoluir até se transformar no ISCTE — que hoje é uma bela universidade que deliciosamente tanto irrita alguma direita da paróquia.
O João tinha um vozeirão tonitruante, que lhe saía da cara emoldurada por um bigode farfalhudo. O seu discurso era sempre pontuado por expressões criativas, que escapavam à linguagem estereotipada dos comícios associativos da época. Ouvi-lo era uma delícia. Ficou célebre — embora seja impublicável — um comentário que lançou durante um sit-in na Alameda da Cidade Universitária.
Lembro-me bem da primeira vez que conheci o João, numa reunião em que procurávamos desenhar uma estratégia comum para as escolas ligadas às Ciências Sociais, creio que em 1970 ou 71. Perante um comentário meu — talvez sugerindo alguma linha de ação —, despachou-me com uma frase definitiva:
— Deixa-te disso! Essa questão já foi discutida no IV Seminário!
A timidez de novato impediu-me de perguntar o que era esse “IV Seminário”. Passei, por isso, alguns dias a tentar perceber do que se tratava, recorrendo a caminhos tortuosos que não expusessem a minha ignorância. Vim finalmente a saber que a referência era ao IV Seminário de Estudos Associativos, que tinha tido lugar meses antes da minha chegada a Lisboa, uma iniciativa cujas conclusões acabaria mais tarde por obter. Deduzo, por pura lógica, que antes dele teriam ocorrido outros três seminários — cujo rasto nunca encontrei e que, confesso, já não tenho grande curiosidade em procurar.
João Crisóstomo era uma verdadeira enciclopédia do associativismo. Falava dos pormenores das lutas académicas anteriores com uma segurança e um conhecimento impressionantes, citando, com inesperada precisão, factos muito antigos a que, naturalmente, não tinha assistido.
Certa madrugada, numa sala de Económicas, no Quelhas, à margem de uma RIA, alguém lhe lançou uma pergunta provocatória:
— Ó João, diz lá uma coisa: afinal, estiveste ou não na greve de 1907, antes da implantação da República?
O João, já de si propenso a reações fortes, “passou-se” de vez, aconselhando o interlocutor a deslocar-se para um destino menos nobre. E por pouco qur não começaram a voar dossiês. Depois, tudo se reconciliou — também com a “ajuda” da polícia, que entretanto nos cercara e nos obrigou a saltar o muro da escola.
Belos tempos? Ora essa! Os tempos de ditadura podem ter sido excitantes, mas bons não foram. Ou, melhor dizendo: só tinham de bom o facto de sermos muito mais novos.

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