segunda-feira, agosto 03, 2026

Internacional Situacionista


Não recordo quando terei ouvido falar, pela primeira vez, na "Internacional Situacionista", um movimento intelectual (nascido em meados dos anos 50 e que se prolongou pelos anos 70) que criticava o capitalismo, acusando-o de transformar a vida num espetáculo da própria vida — culto das imagens e do consumo. 

Havia por ali algum marxismo, mas também influências libertárias, surrealistas e uma forte crítica cultural. Uma das formas de resistência era a ‘dérive’, o vaguear sem rumo pela cidade. Deve ter sido isto que me atraiu. Terei chegado ao Situacionismo pelo diletantismo...

Pode ser que tenha sido numa ida a França, no final dos anos 60, que acordei para o conceito. E tenho ideia de, em 1970, ter escrito um artigo para o segundo e último número da revista "Ibis", da associação de estudantes do ISCSPU, inspirado naquela corrente. Na altura, o texto foi considerado "inoportuno" e não foi publicado. Há anos, encontrei-o, numas papeladas antigas: era simplesmente mau, pelo que, retrospetivamente, deixo a minha gratidão à censura do coletivo que orientava a revista.

Nada sei sobre o eventual curso do Situacionismo em Portugal. Apenas me recordo de, no Café Montecarlo, em Lisboa, ao fundo do corredor que levava aos bilhares (depois do pouso dos neo-realistas e dos degraus, antes da cabine telefónica), haver, no início dos anos 70, a "mesa dos Situacionistas".

Porque falo agora da "Internacional Situacionista"? Porque estamos em agosto, tempo em que se fala daquilo de que normalmente não se fala, e porque a imprensa nos trouxe agora a notícia da morte, aos 92 anos, de Raoul Vaneigem que, como Guy Debord, foi figura central do movimento. 

Vaneigem escreveu o "Traité de savoir vivre à l'usage des jeunes générations" e Débord foi autor do "La société du spectacle". Ambos os textos foram publicados antes do Maio de 1968, para cujo caldo cultural contribuiram. Recordo também uma brochura, muito popular pela simplicidade e pela frontalidade da linguagem utilizada, chamada "De la misère en milieu étudiant".

O movimento editou 12 números de uma revista teórica com o seu próprio nome. Creio que em 1972, saiu um volume com capa prateada que agregou esses números. Algures nos anos 70, comprei-o em Paris, numa tabacaria no passeio do Boulevard St. Michel em frente às termas de Cluny. (É verdade: tenho boa memória!) Creio que jaz na biblioteca municipal de Vila Real, no fundo bibliográfico com o meu nome. 

Quem, na capital transmontana, se sentir, nos dias de hoje, apelado a revisitar o Situacionismo, faça favor! O volume estará à sua espera, desde que entretanto não tenha iniciado a sua própria "dérive" pelas estantes.

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