sexta-feira, agosto 28, 2026

Reconhecimento

Adoramos dizer mal de Trump — e convenhamos que o homem tem uma dedicação quase religiosa no que toca a merecer esse nosso afeto. Poucos políticos fornecem, com o rigor de um relógio suíço, tanta matéria-prima para ser detestados. 

Reconheço que a situação deve ser particularmente desagradável para os espírito de contradição, que andam ver a vida a andar para trás. Essa gente adoraria encontrar nele uma qualidade sólida, um rasgo de genialidade, para esmagar a maioria trumpocrítica. 

O drama é que o homem não ajuda. Defender Trump tornou-se num exercício de contorcionismo cognitivo que exige a anestesia voluntária do discernimento e uma dose heróica de cinismo, e nem todos estão à altura deste desafio.

Ainda assim, há que louvar a Trump a sua produtividade industrial de motivos para gerar a fácil indignação coletiva. Num tempo em que a sociedade se esfarela em fações por tudo e por nada, há que reconhecer-lhe o feito quase poético de ter criado uma forma inédita de comunhão universal. Que essa comunhão, nesta história, não seja a favor dele é apenas um pormenor.

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