quarta-feira, agosto 05, 2026

Jogo eletrizante


O jogo era péssimo. O futebol daquele país estava longe de proporcionar grandes espetáculos e a transmissão televisiva, a preto e branco, feita com meios escassos e técnica ainda mais precária, era de uma pobreza confrangedora.

Contudo, com a chuva que caía, pouco mais havia para fazer na residência consular portuguesa daquela cidade de um país em guerra, onde eu fora visitar um colega e com quem já tinha posto a conversa em dia.

Com uma cerveja a acompanhar, a emissão ajudava a passar as horas, até porque o meu avião de regresso só partiria na tarde do dia seguinte.

A certa altura, a imagem televisiva deteriorou-se durante alguns segundos, regressando depois à sua qualidade habitual. Mas por pouco tempo. A partir daí, sem qualquer regularidade, o incidente repetiu-se. Ver o jogo tornava-se um exercício penoso. E, naquele país, só havia um canal de televisão, claro.

— É sempre isto! Com estas variações de corrente, os aparelhos acabam todos por se estragar. Já perdi uma arca congeladora e o frigorífico anda a dar sinais preocupantes. Instalei estabilizadores, mas não adianta. E, sabes?, ainda tenho sorte, porque esta ligação elétrica foi-me cedida pela polícia. É um fio que vem diretamente da esquadra, que fica ali atrás. O comandante é meu amigo e foi ele quem sugeriu a ligação, para eu poder beneficiar do gerador deles quando há cortes gerais de energia — e aqui há imensos. O “quarto andar”* nem imagina o que poupa! Agora pensa no que sofre o resto da população desta cidade.

Eu continuava a fitar o errático écran e perguntava-me se Lisboa teria alguma vez verdadeira consciência das dificuldades enfrentadas por diplomatas e outros funcionários destacados para postos remotos, perdidos pelo mundo, sujeitos a privações constantes, à insegurança e às doenças típicas dessas terras, muitas vezes obrigados a viver longe das famílias.

Nessas circunstâncias, os pequenos prazeres assumiam uma importância desmedida: jornais atrasados chegados pela mala diplomática, um livro, um disco — como o que eu lhe levara — ou mesmo transmissões de futebol medíocre e programas de qualidade semelhante, acompanhados de uma, duas, três ou mil cervejas, para amortecer o quotidiano.

Um velho empregado entrou na sala para perguntar se queríamos — claro! — mais uma cerveja. Ao passar diante da televisão, observando as sucessivas interrupções da imagem, comentou:

— Hoje eles devem ter muitos "trabalhos", patrão.

O meu colega reparou no meu olhar perplexo e apressou-se a esclarecer, visivelmente embaraçado:

— O pessoal cá de casa, que sabe das entradas e saídas na esquadra, está convencido de que algumas destas quebras de corrente são provocadas pelos choques elétricos durante os interrogatórios aos “do inimigo” deles. Se calhar até têm razão. Sei lá! Também não lhes posso perguntar, pois não?

Voltou-se para a televisão e, irritado com mais uma interrupção da imagem, resmungou:

— C’os diabos! Ao menos os polícias podiam gostar de futebol…

(* Nome pelo qual os diplomatas designam a administração do MNE)

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