terça-feira, setembro 01, 2026

O pressentimento


O cenário foi uma estação dos Correios em Guimarães, há algumas semanas. 

Apresentei ao balcão um envelope com um livro. O destinatário tinha morada na própria cidade de Guimarães. Como remetente, indiquei a minha morada de Lisboa. 

A funcionária, muito atenciosa, olhou para o envelope: 

— Enganou-se. Pôs o destinatário no lugar do remetente. 

— Não, minha senhora. O destinatário mora mesmo aqui em Guimarães. Eu é que vivo em Lisboa. 

Ela voltou a olhar para o envelope, agora com uma expressão que misturava perplexidade e piedade. 

— Ah… mas que estranho. Está em Guimarães a enviar para alguém de Guimarães… e o remetente é de Lisboa. 

Fez uma pausa, como se esperasse que eu reconhecesse a gravidade do delito geográfico, como se, estando na cidade, a lógica imperativa devesse ser as coisas serem entregues por mão própria. Depois suspirou, minimamente conformada: 

— Mas, pronto! Já está explicado. 

Vi o envelope ser atirado para a vala comum das encomendas e tive um pressentimento. Escondi-o de mim mesmo. 

As semanas passaram e o livro continuava por entregar. Podia ter-se perdido. Podia ter-se atrasado. Não coloquei a hipótese, que seria prestigiante para a obra, de que alguém o tivesse desviado para ler. 

Regressei ontem a Lisboa. E lá estava o livro, são e salvo, na minha caixa do correio. 

Aparentemente a estranheza da senhora de Guimarães terá sido partilhada pela cadeia de distribuição. A ideia de alguém, morador em Lisboa, estar fisicamente no Norte e andar a distribuir coisas por ali revelou-se demasiado perturbadora. O sistema, pelos vistos, entra em colapso se o remetente não enviar as coisas a partir do sítio onde mora. Utentes mexediços desorientam o sistema. 

Hoje o livro voltou a ser enviado. 

Resta-me esperar que esta viajada obra chegue finalmente a Guimarães — de onde nunca devia ter saído. É que, pelos vistos, para os Correios, o caminho mais curto entre dois pontos na mesma cidade passa obrigatoriamente por Lisboa.

O pressentimento

O cenário foi uma estação dos Correios em Guimarães, há algumas semanas.  Apresentei ao balcão um envelope com um livro. O destinatário tinh...