"No vão do arco, como dentro de uma pesada moldura de pedra, brilhava, à luz rica da tarde um quadro maravilhoso, de uma composição quase fantástica, como a ilustração de uma bela lenda de cavalaria e de amor. Era no primeiro plano o terreiro deserto e verdejante todo salpicado de botões amarelos; ao fundo o renque cerrado de antigas árvores com hera nos troncos, fazendo ao longo da grade uma muralha de folhagem reluzente; e, emergindo abruptamente dessa copada linha de bosque assoalhado, subia no pleno resplendor do dia, destacando vigorosamente num relevo nítido sobre o céu azul claro, o cume airoso da serra, toda cor de violeta-escura coroada pelo Palácio da Pena, romântico e solitário no alto com o seu parque sombrio aos pés, a torre esbelta perdida no ar, e as cúpulas brilhando ao sol como se fossem feitas de ouro…”
( Eça de Queiroz, "Os Maias" )