Nunca na vida me passou pela cabeça votar no PSD ou em qualquer partido de direita, mas confesso que, como cidadão, não deixa de me preocupar a crescente irrelevância da força política que representou, para a direita, aquilo que o PS foi sempre para a esquerda. É que essa deriva se faz em proveito da extrema-direita mais obscenamente xenófoba e racista ou, residualmente, de uma direita radical, populista e a-social, ambas representando o pior daquilo que a democracia portuguesa até hoje gerou.
O espetáculo dos últimos dias foi, aliás, bem elucidativo. Perante o desfecho que, no caso judicial da Madeira, era mais do que óbvio, a liderança do PSD meteu os pés pelas contradições, tentando travar o insalvável, com uma total ausência de dignidade e frontalidade. Viu-se o resultado.
Isso veio somar-se, aliás, à extraordinária exibição do mais refinado oportunismo por parte de alguns dos seus militantes e deputados, que saltaram sem o menor pudor para o lado de quem lhes acenou com a possibilidade de um lugar à mesa do orçamento. Muitas pessoas ainda não interiorizaram bem o que isso revelou: que aquela gente, a começar pelo líder do partido da extrema-direita, que desde o início se passeia ou agora transita alegremente para ali, esteve, ao longo de muitos anos, a fingir que era democrata e que partilhava uma agenda cívica com um mínimo de decência, enquanto alinhava na militância ou esteve sentado na bancada parlamentar do PSD! O PSD não deve apenas ir dizendo, tentando convencer alguns, que não se coligará nunca com essa gente: devia estar a denunciar publicamente o seu repúdio perante as propostas dessa gente e da ideologia que lhe está subjacente. Por que o não faz?