segunda-feira, 28 de maio de 2012

Outro abril

Ontem, um amigo criticou-me, ao telefone, alguma complacência que eu supostamente revelara, ao escrever que tinha "compreendido" o extremismo de um neonazi, deficiente de guerra, que cruzara nos anos 60, na Alemanha, numa historieta que aqui deixei registada, há uns dias. Na conversa, esse meu amigo, adiantou: "por este andar, ainda acabas a "compreender" as bombas do ELP e do MDLP, justificadas pelos dramas pessoais de alguns retornados, zangados com o 25 de abril".

Vamos por partes. É claro que eu podia ter evitado o desabafo que tive, que sabia ir contra o politicamente correto. Mas porque foi esse, de facto, o meu sentimento no momento, achei por bem deixá-lo expresso. Já não tenho idade para me coibir de dizer o que, realmente, penso.

E, porque talvez isso venha a propósito, deixem-me que conte uma cena ocorrida comigo, em S. Paulo, em 2005, na inauguração de uma exposição de pintura de José de Guimarães, na FIESP.

Eram os meus primeiros tempos no Brasil e muitas pessoas queriam conhecer o novo embaixador, recém-chegado. A certo passo do cocktail de abertura do evento, aproximou-se de mim uma senhora idosa que, com extrema simpatia, me disse, com um sotaque já muito brasileiro, mas onde se detetava a sua origem portuguesa: "Tenho sempre muito orgulho em conhecer os representantes da minha pátria! Por isso, queria saudá-lo, senhor embaixador, e desejar-lhe muitas felicidades para o seu trabalho".

Fiquei naturalmente sensibilizado com o gesto daquela simpática compatriota, que agradeci, tendo-lhe perguntado, com naturalidade, quando tinha vindo para o Brasil. Os bonitos olhos da octogenária entristeceram, antes de dizer: "Nem me fale nisso! Vim de Angola, em finais de 1974, deixando para trás tudo o que havia ganho numa vida de trabalho. Com o desgosto, o meu marido acabou por falecer pouco depois da chegada ao Brasil. Graças a amigos, consegui mudar a minha vida. Mas olhe! Nunca perdoarei àquela bandidagem que, no nosso país, fez o 25 de abril!"

Para o amigo que ontem me telefonou, devo confessar que não tive a menor coragem para retorquir à senhora que, com o maior dos orgulhos, eu também fazia parte da "bandidagem" que fez o 25 de abril, que essa fora a data que dera a liberdade à pátria de que ela tanto gostava e que esse fora um dos dias mais felizes da minha vida. "Compreendi" a senhora? Claro que sim. Ponho-me no lugar dela e pergunto-me se apreciaria que lhe oferecessem cravos vermelhos... 

Nunca me passaria pela cabeça tentar explicar àquela senhora, tal como nunca o faço quando cruzo outros portugueses que viveram e sofreram esses tempos, que a tragédia da descolonização desordenada foi, como bem dizia Ernesto Melo Antunes, a outra face da tragédia que foi a colonização. E que, por muitas culpas que possam ser atribuídas aos responsáveis políticos que geriram o país após o 25 de abril, a responsabilidade maior competirá sempre àqueles que, tendo tido a oportunidade histórica de negociar atempadamente a independência das colónias, não o fizeram, pela cegueira da ditadura que defendiam e nos faziam sofrer - a nós, portugueses, e aos povos dessas mesmas colónias, convém também nunca esquecer. O imenso respeito que tenho pelo drama que marcou a vida dos "retornados", que sempre afirmo publicamente, vai de par com aquele que não tenho pela classe política que o 25 de abril, em boa hora, derrubou.

A que propósito trouxe este episódio aqui? Para explicar que, tal como calei a minha profunda oposição ao neonazi que cruzei numa estrada alemã ou a minha insanável divergência com a senhora refugiada de Angola, as minhas convicções não mudaram um milímetro só pelo facto de perceber que o seu percurso de vida os terá conduzido a pensarem como pensavam. Chama-se a isso tolerância.     

11 comentários:

Henrique ANTUNES FERREIRA disse...

Não faço, por desnecessário, um comentário. Apenas, aplaudo, bato palmas.

Anónimo disse...

Marcas de tiros no carro, nas paredes. Rusgas a meio da noite. Enforcamentos nas ruas. Ameaças de morte. Subornos para sobreviver. Pânico. Miséria absoluta. Vidas perdidas, gerações perdidas, avós, pais, filhos, num ápice. Tudo acabado. Demasiado piegas, diriam alguns. Aproveitar as oportunidades, diriam os mesmos.
Fez bem em ser tolerante com a senhora velhinha.

Isabel Seixas disse...

Um Post revelador, se bem gosto da explicação na perspetiva diplomática, melhor ainda o respeito pelo
"Cada qual é igual a si próprio e á sua circunstância"...

Agora a perspetiva de enfermagem que tem que ter por pano de fundo uma visão holista sustentada no ser bio-psico-social-espiritual e cultural não me deixa simplesmente tomar partido.
Claro que aí regresso à isabel se é que isso ainda é possivel...

PS Estou a questionar-me se Nightingale a dama da lâmpada teve de tratar, alguém, ser humano também, não aliado, do outro lado da guerra da crimeia?...

Jose Tomaz Mello Breyner disse...

Senhor Embaixador

Chama-se a essa sua atitude educação e respeito , que é uma coisa que o Senhor Embaixador tem para dar e vender. E a maior prova disto é a diversidade de pessoas de diferentes ideologias que seguem este seu blogue.

Embora tenha ideias diferentes das suas Senhor Embaixador, quero aqui sublinhar uma passagem da sua intervenção com a qual estou totalmente de acordo

"responsabilidade maior competirá sempre àqueles que, tendo tido a oportunidade histórica de negociar atempadamente a independência das colónias, não o fizeram,"

Tem toda a razão, esta foi a nossa 1ª oportunidade perdida.

Um abraço

Anónimo disse...

Senhor Embaixador, como me sinto confortada, por já ter chegado àquela altura de não me enganar quanto à impressão primeira que faço das pessoas... Da primeira impressão que me causou o seu didáctico blog, onde a sua inteligência se revela, através das descrições ora com ironia, ora com bonimia, mas sempre com a tolerância, a curiosidade e a humildade perante o inusitado num contexto que nada o faria prever. A sua resposta à senhora que tudo perdera na sequência dos acontecimentos na África administrada pelos portugueses é de aplaudir pela sua honestidade intelectual!

jmc disse...

Um dos aspectos que me fez seguir este blog, desde que o descobri, foi verificar que o cargo que ocupa não o inibia de comentar os mais diversos assuntos com uma independência e, pelo menos aparentemente, sem os constrangimentos que um titular de cargo diplomático poderia sentir.
O "politicamente correcto" invadiu de tal forma a sociedade que a censura que impõe me parece disparatada. Parabéns pela postura que devia ser exemplo para muitos outros titulares de cargos públicos.

JM Castro

patricio branco disse...

diz se que há na russia uma grande nostalgia pela ordem e segurança sovieticas, entre as gerações mais velhas.

Jasmim disse...

Parabéns, Senhor Embaixador, pelo seu blog, ao qual cheguei por um feliz acaso da net!

A propósito da história que conta sobre esta senhora vinda de Angola, está no mercado o livro de Sarah Adamopoulos intitulado "Voltar Memória do colonialismo e da descolonização". Permite perceber diferentes ângulos desse período da vida portuguesa.

Santiago Macias disse...

Tolerância, claro. E inteligência e sensibilidade, também.

Anónimo disse...

Sr. Embaixador, neste seu blog expoe-se de uma forma absolutamente surpreendente, manifestando o pensamento de um homem livre de um caracter muito digno e infelizmente pouco habitual, para um homem com uma importante dimensao publica. O seu exemplo e' inspirador e por isso continuo um leitor atento...
Melhores cumprimentos,
António Pinheiro

patricio branco disse...

a uma professora primária italiana na reforma, que começou a exercer o seu magisterio ainda na epoca fascista, ouvi dizer: aquilo é que eram tempos, nesses anos havia ordem e educação em roma, segurança, limpeza, não era como agora, com esta desordem, ladroagem, sujidade, falta de educação, etc. (queixa aliás comum,que no passado as coisas eram sempre melhores). Bem, nunca me passou pela cabeça argumentar com a educada e tranquila senhora de quase 80 anos, lembrando-lhe que fascismo é fascismo nem nunca no meu intimo pensei sequer vejam me esta fascista. uma coisa é o regime e os seus mentores, seguidores e executores, outra as reacções individuais de cada cidadão na sua existencia pessoal.