sábado, 26 de maio de 2012

A boleia

Há semanas, num cruzamento de estrada, na Alemanha, e num segundo, veio-me à memória uma história passada na segunda metade dos anos 60, também na parte ocidental daquele país, também numa confluência de caminhos, num tempo em que, em férias, eu percorria a Europa "à boleia".

(Para as gerações atuais, desde as que já usufruíram do Interail até às que hoje usam a Ryanair, pode parecer bizarra aquela forma de viajar. Hoje, praticamente, ninguém dá boleias, por muitas razões, em especial as questões de segurança. Nesse tempo, as coisas eram muito diferentes. Percorriam-se milhares de quilómetros, sem grandes cuidados, com a graça de conhecer gentes diferentes, sem grandes custos, num acumular de experiências bastante ricas. Eu que o diga! Um ano, saí de Lisboa, da Rotunda do Relógio, chegando até à fronteira da Suécia com a Noruega, dormindo em Pousadas de juventude, passando vários dias em Paris, Amesterdão e Copenhague, "mecas" para alguns de uma geração portuguesa que tentava escapar sazonalmente à periferia. E, noutros dois anos, fiz aventuras similares, embora menos ambiciosas.)

Mas voltemos à estrada. Já não me recordo bem qual a cidade do sul da Alemanha que, naquele dia de século passado, eu pretendia alcançar, mas tinha escrito o seu nome a letras grandes na página de um largo bloco que eu utilizava para solicitar as boleias. A certo passo, parou um automóvel, conduzido por um cavalheiro idoso. Num inglês algo macarrónico mas suficiente, confirmou o meu destino e convidou-me a entrar no carro.

Nesse instante, dei-me conta que era uma pessoa que não utilizava os pedais da viatura, devido a uma acentuada deficiência física. Junto ao volante, tinha manípulos para o acelerador e o travão. Terá sido porventura o olhar menos discreto que deitei para tão pouco usuais instrumentos que logo levou o meu disponível condutor a explicar que havia sido ferido na Segunda Guerra, na frente leste. "Foram os russos que me fizeram isto", disse, com uma voz cortante, para logo acrescentar: "E foram também os russos, durante a invasão do meu país, que mataram a minha mulher". 

Não me recordo da minha reação, porque havia muito pouco que eu pudesse dizer, perante a tragédia que afetara, de forma tão brutal, a vida aquele homem. O tempo que vivíamos era de plena "guerra fria", havia ainda duas Alemanhas, os russos e a sua influência estavam por muito perto, apenas a algumas dezenas ou centenas de quilómetros.

O meu condutor sentiu-se estimulado a continuar a falar contra os russos, contra o comunismo, contra o executivo da "grande coligação", entre os cristão-democratas da CDU e os social-democratas do SPD, que então governava em Bona, em particular contra o então MNE Willy Brandt, que ele achava "um traidor", um esquerdista "vendido aos vermelhos". Ora eu, à época, até considerava Brandt um excessivo moderado, e a expressão "social-democrata", no nosso jargão político-radical de então, tinha uma sonoridade quase insultuosa. Por uma proverbial prudência, mantive-me calado, evitando qualquer comentário que pudesse aumentar a quase ira que jorrava do discurso prolixo e incessante do meu interlocutor.

"Mas isto vai mudar, você vai ver! Aqui na Alemanha, estamos a organizar um novo partido, o NPD, e vamos dar a volta a isto. Um destes dias, vamos acabar com esses vermelhos e vamos criar um regime novo. A Alemanha é um grande país. Temos de resgatar a nossa memória e deixar de ter complexos quanto ao regime que tivemos durante a guerra, que só foi derrotado pela aliança entre as democracias corruptas do ocidente e os bandidos comunistas. Vou hoje mesmo para uma reunião do NPD onde, com gente que combateu na Wehrmacht, mas também já com muitos jovens patriotas, estamos a preparar o futuro. Os Brandts e estes democratas traidores que nos governam vão ter a devida lição".

Importa lembrar, chegado a este ponto, que o NPD foi um partido neonazi criado em 1964, que nunca conseguiu fazer-se eleger para o parlamento federal, mas que chegou a estar representado em assembleias estaduais. A sua influência foi sempre muito diminuta na política alemã e alguma radicalização da conservadora ala bávara dos cristão-democratas, a CSU, de Franz-Josef Strauss, terá contribuído para esse inêxito. 

Aquela viagem estava a ser-me muito incómoda. Ia-me enterrando cada vez mais no banco do automóvel, desejoso que aquilo acabasse rapidamente, perturbado por aquele insólito encontro com uma Alemanha que apenas pelos jornais sabia que existia. Mas, ao mesmo tempo, olhando para o drama pessoal daquele homem, até era levado a entender que ele pudesse pensar da maneira que o fazia. Num certo momento, num cruzamento, tive uma inspiração: disse-lhe que, afinal, tinha mudado de ideias e que ficaria por ali, mudando os meus planos de percurso. Parou, eu retirei a mochila do banco de trás, agradeci a amabilidade da boleia e, quando me preparava para fechar a porta, ouvi-o perguntar "Você disse que era português?" Confirmei, para logo o ouvir de volta: "Que sorte que você tem de viver num país que tem à frente o Salazar. Aquilo é que é um homem!".

Não tenho a certeza, mas, baralhado como eu estava e desejoso de me ver livre do neonazi que, no fundo, tão amável tinha sido para comigo, confesso que não estou nada seguro de não ter confirmado...       

8 comentários:

Anónimo disse...

Esse homem ainda está vivo, Senhor Embaixador.
Agora já vai tolerando os russos. Não pode é com os gregos.
V

Isabel Seixas disse...

Dá que pensar...
Meu Deus que momento de aprendizagem emocional com ambivalências à mistura...

O post fenomenal, claro, se adorei.

PS Que pena a nós as mulheres nos ter sido sonegada à época essa forma económica de viajar por preconceito basicamente não parecer bem...É a vida

Anónimo disse...

Tal como agora... à boleia da Alemanha...

Anónimo disse...

O caro embaixador já era "diplomata" mesmo antes de o ser. Porque aguentar uma "seca" assim e fazer o esforço que fez sem deixar transparecer desacordo que magoasse aquele homem convencido de pertencer a uma raça superior era preciso "estofo" !
É verdade que naquele tempo a nossa geração também sabia calar... Que o homem não fosse um qualquer informador da Pide !
José Barros     

C.e.C disse...

Deixa-me tal história a pensar no quão antitético se tornam as coisas, ao ponto de tal se transformar numa Lei universal.
Uma época em que a política social fazia uma viragem radical de direcção, tinha, ainda assim, um maior à vontade de confiança pelos outros; cedendo a outrem um lugar no carro, coisa que na nossa actualidade -globalizada, "melhorada"- quase nem se imagina.

Por outro lado fiquei a ponderar no dito idoso alemão, e até que ponto lhe poderíamos censurar os ideais. Difícil será comparar as obrigações do passado, à apatia do presente, na sua recordação.

Henrique ANTUNES FERREIRA disse...

Caro C.e.C

Ou porque sou muito burro ou porque estou cada vez mais surdo - não entendi o seu comentário.

Por outro lado, mesmo sendo muito burro ou estando cada vez mais surdo, confesso que o comentário do Anónimo das 04:00 me encheu as medidas. Bué da fixe. Obrigado

C.e.C disse...

Ora essa, Sr. Henrique; se a algo se deveu, terá sido -certamente- a má explicação minha.

A ser honesto.. a tirada final do idoso alemão, sobre Salazar, deixou-me a ponderar nas cadências da emoção que se transformam em dogmas, com o passar do tempo.
Não me estranha nada que a olhos alheios tal figura tivesse um certo cariz de razão, nos tempos que se viviam; e poderíamos até pensar em épocas anteriores: 40's, 50's ..

Mesmo hoje, e admitindo ser de uma geração infante (em comparação a ditos acontecimentos), dou por mim a ter uma visão algo estóica dos acontecimentos passados. Admito, inclusive, que nem sempre me revejo no paradigma do "antagonista do povo".
Influências dos textos de Franco Nogueira, certamente... Mea culpa.

Anónimo disse...

Agora definitivamente percebo porque o considero um embaixador tão ricamente diferente a descrever a sua vida. Um vivedor que já antes de abraçar a "carreira" conhecia "de outro modo" as nações e as suas gentes. Parabéns, ao anônimo das 04.00 de 26 de Maio.