quarta-feira, 2 de maio de 2012

Debate

A França vai viver, na noite de hoje, um daqueles momentos que a sua história política irá registar para sempre: o tradicional debate televisivo entre os dois candidatos apurados para a segunda volta da eleição presidencial. Digo tradicional, mas não digo obrigatório, porque Jacques Chirac se recusou a esse ritual quando, em 2002, ficou surpreendentemente frente-a-frente a Jean-Marie Le Pen. 

Este tipo de debates políticos tem, em Portugal, uma tradição mais recente. Quem tem idade, ou interesse por isso, lembra-se bem do confronto, em novembro de 1975, entre Mário Soares e Álvaro Cunhal, num contexto político muito tenso, se bem que não eleitoral. Essas quatro horas de discussão, ficariam marcadas pela expressão, que, a partir daí, se tornou clássica, várias vezes repetida pelo líder comunista -  "Olhe que não! Olhe que não!" -, quando Soares acusava o PCP já não sei bem de quê, em concreto. Dos restantes debates presidenciais ou entre candidatos ao lugar de primeiro-ministro, guardo naturalmente algumas recordações fortes, embora confesse que nenhuma delas, sem exceção, integra as minhas memórias admirativas.

Neste capítulo, a França tem momentos que ficaram para sempre no imaginário coletivo. Em 1974, Mitterrand ficou claramente desestabilizado quando Giscard d'Estaing lhe disse: "vous n'avez pas le monopole du coeur", referindo-se àquilo que alguma esquerda considera ser a sua superioridade moral. Sete anos mais tarde, na desforra política que o levaria finalmente ao Eliseu, o líder socialista, ao ser acusado de ser "l'homme du passé", respondeu a Giscard que, nesse caso, então ele era "l'homme du passif", atendendo à situação económica que herdava. Mitterrand, na sua recandidatura em 1988, seria ainda autor de uma "blague" deliciosa, quando Jacques Chirac, seu primeiro ministro num governo de "coabitação" (presidente de cor política diferente do executivo), de quem era opositor na eleição presidencial, afirmou que os cargos que ambos assumiam deveriam ser esquecidos durante o debate, razão por que iria passar a tratá-lo simplesmente por "senhor Mitterrand". A resposta do socialista foi tão fulminante - "vous avez tout à fait raison, monsieur le Premier ministre!" - que Chirac ficou afetado para o resto do confronto, chegando, a certo ponto, a dirigir-se a Mitterrand como... "monsieur le Président"!

Logo à noite, esperam-nos duas horas e 40 minutos de debate intenso. A negociação entre as candidaturas, entre outros pormenores, decidiu que o ambiente do estúdio esteja a 19ºC. Mas, pelo que tenho ouvido e sentido, a temperatura vai subir bem mais na casa dos franceses.  

(Em tempo: não esperem que este blogue opine sobre quem ganhou ou perdeu o debate, claro!)

9 comentários:

rebecca09 disse...

Caro Senhor Embaixador e amigo,
Lendo o seu roda pé, em que esclarece a sua isenção em relação a favoritismos, francamente, acheio-o desnecessário quando, como distinto diplomata, V. Exa é conhecido pela sua imparcialidade. A propósito Gostei do esclarecedor termo "coabitação" (presidente de cor política diferente do executivo)”! Bom debate, possivelmente muito à Cunhal “olhe que não”, “olhe que não”! Abraço.
Gilberto Ferraz

patricio branco disse...

serão os debates decisivos quanto ao voto? não creio.
dizem que o debate entre gonzalez e aznar de 1996, em que o 2º se mostrou muito preparado com conhecimento de dossiers e numeros, que gonzalez não tinha e se espalhou, foi decisivo para a vitoria do popular.
normalmente os debates criam muitas expectativas, tal como um jogo ou competição, e acabam por ser espectaculos aborrecidos que não nos esclarecem ou divertem.
cheira me que hollande ganhará por estreita margem

Anónimo disse...

Espero que se houver "blague" que tenha algum humor... Estamos todos a precisar de descontrair um pouco. Não vou perder um momento destes... Espera-se de si a isenção de "Monsieur l'embassadeur du Portugal en France", que tão bem nos representa.

Anónimo disse...

O Senhor Alcipe, que é muito imparcial, manda dizer que a figura do renascentista português Francisco de Hollanda deve merecer-nos uma evocação respeitosa e que as canções de Chico Buarque de Hollanda são um marco na música popular brasileira e universal. Agora vou consertar a parabólica para não perdermos o debate desta noite.

a) Feliciano da Mata

Anónimo disse...

Estes espectáculos às vezes até são hilariantes. Mas só isso! De informativo ou esclarecdor, pouco!

patricio branco disse...

da parte que vi, 2a metade, anotei a passividade total dos condutores do debate, a incapacidade para hollande de se calar quando não era o seu tempo de falar, interrompendo constantemente sarkozy de falar, mesmo nos monólogos finais; e, ao contrario, a frieza e dominio de sarkozy aguentando as interrupções sem perder o fio à meada, e sem interromper hollande quando este falava. aspectos formais mas importantes.
sobre as ideias, sem duvida que hollande se mostrou populista quando se abordou a emigração sobretudo islamica, acusando sarkozy simplesmente de ser anti arabe e mostrando se duma extranha e liberalidade para com os emigrantes não europeus, o que levou sarkozy a uma minuciosa e esclarecedora explicação das suas ideias.
Do que vi, preferi sarkozy. Hollande pareceu-me mais caotico, desordenado, com ideias feitas, slogans confusos, etc, e de 2 males o menor. eu pela parte do debate que vi sentia me mais seguro a votar sarkozy, embora não morresse de amores.

Anónimo disse...

a meu ver hollande foi demasiado sem sal, demasiado defensivo...
ainda que o o sal nao ganhe eleicoes, preferi sarkozy



por outro lado fiquei a pensar que infelizmente a maior parte dos politicos portugueses nao durava nem 10 minutos num debate destes...


bem haja





bem haja

Isabel Seixas disse...

Em qualquer debate atual per si, se perde aquela candura,natural e especifica da individualidade, de cada candidato dada a contaminação pelos acessores de imagem que os condicionam. Mesmo que consigam manter um raciocínio frio e fluente a lucidez essa coitada faz um exercício estoico quase sobrehumano impróprio para cardíacos.

Ambos saem reforçados em termos de resiliência...Mas a prova é menos dura para quem já teve uma pelo menos primeira vez...
Daí que acho mais promissor o que denotou maior fragilidade.

Helena Oneto disse...

Apraz-me concluir que o comentador Patricio Branco não vai votar.