segunda-feira, 1 de março de 2010

Telejornais

Impressiona-me imenso a incapacidade dos canais televisivos portugueses para limitar a extensão dos seus telejornais. Não sei o que se passa na generalidade dos países do mundo, mas, em todos quantos vivi, os períodos noticiosos das televisões de referência têm sempre uma duração bem limitada, raramente excedendo os 30 minutos.

A adoção rigorosa desse modelo ajuda a priorizar a importância das notícias, facilita a que o tratamento dos temas seja feito com sintetismo e limita aquelas palavrosas ligações "ao local", onde os repórteres apenas repetem o conteúdo das peças, alimentam os "manifestantes das oito" ou dão voz a transeuntes que pouco viram. 

O que mais impressiona nos telejornais portugueses é a total ausência do conceito de "tempo", o qual, aparentemente, é um bem muito escasso em televisão. Muitas vezes, num debate temático, os moderadores interrompem, com facilidade, uma exposição interessante, por falta de um minuto disponível. Porém, num telejornal, um acidente de estrada ou um incidente desportivo tem direito a longo tratamento, com pormenores e comentários cheios de inanidades perfeitamente dispensáveis. O que mais me preocupa é que, pelos vistos, toda a gente acha isto natural...

Este meu comentário vem a propósito do profissionalismo com que ontem vi tratada, ao longo do dia, na televisão francesa, a imensa tragédia provocada pela tempestade, que aqui causou largas dezenas de vítimas. Cada telejornal dos principais canais da televisão francesa, públicos e privados, não alterou o seu formato de meia-hora, tendo, no entanto, tratado o assunto com profundidade, em peças curtas, com notas humanas,  diretos breves e concisos, opiniões de especialistas e - muito importante! - com escassíssimas e muito curtas declarações de entidades oficiais. Tudo isto sem deixar de referir outros temas da actualidade francesa e mundial. E, repito, apenas em 30 minutos.

9 comentários:

expressodalinha disse...

É muita vacina contra a gripe. Muito acidente de viação... Muita falta de imaginação.

Abruxo disse...

Tem toda a razão...mas olhe que, felizmente, há muita gente que se importa e também se interroga sobre toda essa banalidade feita notícia.

Anónimo disse...

Senhor Embaixador o Sr. personaliza o que eu chamo de Verdadeira massa critica, acutilante, perspicaz, oportuno, observador idóneo, Enfim...
Subscrevo com admiração...
Como me identifico com a essência do seu texto, temo que para além de todas as solicitações de que é alvo o convidem também para a supervisão de programas de televisão, e quem ganharia éramos nós, pois veríamos com maior nitidez a dissociação do essencial do supérfluo.
Isabel Seixas

Anónimo disse...

O que é a cultura ?

"pelos vistos" faz parte da nossa cultura nacional.

A discerner les ressorts de chaque culture, on découvre ce qu'y ont de spécifique les moteurs de l'efficacité.

C.Falcao

Miguel RM disse...

Excelente comentário. A falta de concisão que aqui comenta é uma verdadeira doença da TV portuguesa
Proponho algumas pistas para explicar o fenómeno, já que não basta culpar os jornalistas, o público também tem responsabilidade: baixo nível educacional, reduzido número de leitores habituais (de livros e de jornais), prática democrática incipiente, partidos políticos em decadência.

Julia Macias-Valet disse...

Levam ali 1 hora a "mastigar mato"... Nao ha pachorra !

Helena Sacadura Cabral disse...

Senhor Embaixador
Tem toda a razão. Julgo tratar-se de uma qualquer razão cultural a que acrescem um gosto mórbido pelo miserabilismo e um prolixismo incontrolável, por parte de quem tem a palavra.
No meu velho tempo tive uma professora que testava a nossa "capacidade de resumir" e que nos treinou para sermos sintéticos.
Se olhar os debates no Parlamento e o gosto com que os deputados se ouvem a si próprios;
Se ouvir os discursos dos políticos e a vacuidade que, por norma, os acompanha;
Se ler as redações dos alunos do liceu e os textos dos universitários;
Se tentar entender os comentadores convidados de certos progamas;
então, sim, percebe que em Portugal se vive de imagem e de palavra. Ambas excessivas e de conteúdo questionável...

Anónimo disse...

Creio que a explicação para tal fenómeno é bem prosaica: os telejornais são programas relativamente económicos e garantem audiências. Para contrariar esta tentação seria preciso mais responsabilidade por parte das direcções de informação, dum lado, e um público mais exigente, do outro.
Gabriel

Anónimo disse...

Concordo com MIGUEL RM. Excelente Post este. Julgo, porém, que para se chegar a um Telejornal como esse, de 30 minutos, ter-se-ia que fazer uma, ou outra, opção. Em primeiro lugar, organiza-lo tematicamente, como sucede em alguns países. Assim, por exemplo, o referido telejornal deveria abrir, sempre, com notícias da actualidade nacional (política, economia, assuntos diversos, mas relevantes) e só, excepcionalmente, com destaque para alguma situação mais trágica, desde que tivesse uma projecção particular, como, infelizmente, sucedeu com a Madeira. 10, ou 12, minutos seriam suficientes. Depois, passava-se para as questões de actualidade internacional, enfim, para o que se exigiria um critério de qualidade e oportunidade nas escolhas dos temas. 8 minutos seriam, provavelmente, suficientes. De seguida, um pequeno espaço para notícias de carácter cultural e só após, a finalizar, uma página sobre “desporto”, onde caberia não apenas o futebol, mas outras actividades de relevo e onde porventura se distinguissem atletas portugueses (os assuntos culturais tinham de anteceder os desportivos, caso contrário “o pessoal” desinteressava-se do resto do telejornal). Digamos, 10 minutos para estas duas partes (concedo que com algum prejuízo cultural, mas temos de ser “realistas”…). Eventualmente, havendo “matéria” que justificasse, poder-se-ia, já no fim, ter um comentador para um determinado assunto (político, económico, social, etc). Aqui, 5 a 7 minutos, numa apreciação sintética, focalizada.
Para que isto fosse possível, acabavam-se – de uma vez por todas! – com as aberturas cretinas dos telejornais sobre futebol, “empurrando-se” o tema (futebol) para a página “desportiva” e sem impedir o tratamento, mesmo que menor, de outras actividades desportivas; e acabava-se com os miseráveis e desrespeitosos intervalos de longuíssimos minutos para a publicidade. Proibia-se a publicidade durante o noticiário, assim podendo comprimi-lo nos tais 30 a 35 minutos. Ou, a não se poder evitar, dar-se-ia apenas 1 minuto entre cada tema (nacional-internacional-cultural-desportivo).
Esta a minha proposta, baseada em “experiências” antes visualizadas noutros países. Tal, todavia, implicaria um jornalismo sério, muito profissional, capaz (conseguir integrar este conjunto de temas em 35 minutos requer qualidades específicas, de saber perceber o que tem e não tem interesse, como focalizar os assuntos, trata-los, etc) e sobretudo que evitasse a tentação do sensacionalismo bacoco. Não sei se tal será – alguma vez – possível em Portugal. Não tanto por falta de bons profissionais (que os há, sejamos justos), mas, sobretudo, porque é praticamente impossível combater três coisas patéticas neste “triste” país: a influência nefasta do futebol, o “voyerismo” sobre tudo que cheire a tragédia e o gosto mórbido pela escandaleira (determinados questões que tenham carácter grave poderiam ser abordadas e tratadas, mas com sobriedade, contudo, a tentação do “ruído” pesa mais). E como as ditas audiências se baseiam, precisamente, nestes três factores, muitas vezes conjugados, não há volta dar! Vamos continuar na mesma. Como a lesma!
Romualdo