domingo, 14 de março de 2010

Emprego

Julgo que o nome era Silva. António Pedro de Vasconcelos contou-nos, há dias, em Paris, que ele era o funcionário que tinha por missão, nos tempos que antecediam o 25 de Abril, transportar entre o jornal "O Século" e os serviços da Censura (que o marcelismo crismou de "exame prévio") as provas tipográficas que eram submetidas à vistoria, antes da impressão das publicações. Era um vaivém diário constante, da rua do Século à rua da Misericórdia, até se obter a autorização final que permitisse dar ordem de preparação das edições. 

A.P. de Vasconcelos dirigia então o "Cinéfilo", uma revista do grupo controlado pelo jornal - onde figuravam algumas outras, como "O Século Ilustrado" ou a "Modas & Bordados". Sem exceção, tudo tinha de ir à censura, pela mão diligente do Silva, uma figura simpática, que já fazia parte da rotina da casa, bem conhecido de todos os jornalistas.

No dia 25 de Abril de 1974, a manhã estava, como se compreenderá, a ser muito confusa. Marcello Caetano ainda não se tinha rendido, o Carmo ainda não fora ocupado por Salgueiro Maia, a sorte da Revolução estava ainda longe de definida. Soube-se, porém, que o diário "República", muito próximo dos meios democráticos, tinha decidido arriscar e fizera já uma edição especial, sem se sujeitar ao controlo da censura. A vontade dos jornalistas de "O Século" e restantes publicações era, naturalmente, idêntica.

Entretanto, imbuído da rotina profissional, chega o Silva, para recolher as provas da edição seguinte do "Cinéfilo". A.P. de Vasconcelos diz-lhe que não tenciona mandar as provas do "Cinéfilo" para visto prévio. O Silva insiste, sem sucesso, e fica por ali, sem rumo certo, não podendo levar a cabo a sua tarefa habitual. Com as horas a passar, com o adensar das notícias de que o regime se estava a esboroar, parte do pessoal do jornal sai para a rua. A.P. de Vasconcelos convida então o perturbado Silva a acompanhá-lo à zona próxima da rua da Misericórdia, onde se sabia ser grande a movimentação popular, bem perto do quartel onde Marcelo Caetano se refugiara. Por ironia, era também nessa artéria que, num singular contraste, se situavam as instalações do "República" e as da da censura, cada uma do seu lado da rua. 

Aí chegados, o ambiente não enganava: a democracia estava na rua, o edifício da censura estava já como que isolado. A.P. de Vasconcelos, que comungava a alegria comum aos milhares de pessoas que enchiam a zona, nota que a cara do Silva era tudo menos felicidade. Seria saudosismo pela queda do regime? A interrogação não durou muito. O pobre do Silva pergunta-lhe, angustiado: "Ó senhor Vasconcelos, e agora o que é que eu vou fazer?"

O 25 de Abril não foram só alegrias.

8 comentários:

Anónimo disse...

Uma autópsia interessante...
Já vi pessoas "cuidadores"tentarem prolongar a vida (e o sofrimento)de pessoas idosas em fases terminais sob pena de perderem o "Emprego"...

Pois é... Nós os bafejados pela sorte, detentores dos empregos convencionados hierarquicamente mais Valorizados, nascidos do 25 de Abril como "Direitos" atribuindo aos novos bodes expiatórios os deveres de reféns dos azares circunstanciais de vida... Que os remetem para o lugar dos ostracizados sem apelação, Porque Sim...Pela Nova Verdade... Ainda menos Mal que é a Democrática/Flexível/Inclusiva/Mal Menor...

Mas também exclui...
Que não pense que não dou conta...

Quanto ao Sr. ...Sr. Embaixador No Seu Melhor Que perspicácia... Começo a ter e a sentir um travo de inveja por não ter nascido primeiro.

Também tenho algumas mágoas em relação ao 25 de Abril...

Por exemplo...
Porque continua a Ser-me acometida a obrigação intrínseca/Colada à pele/indissociável de fazer o jantar e lavar a loiça... e o meu Marido diz complacente"Espera (Que é como quem diz Faz enquanto vê a milésima repetição do golo de não sei quem... que criativo)"Já" te ajudo...

Grande Lata...

Isto não acaba aqui...
Isabel Seixas

Margarida disse...

E cuidar-se-ia que sim?
...É perguntar a qualquer um dos milhares de ditos 'retornados'.
Nem seria preciso ir mais longe.
Mas se for, vai-se.
O romantismo, às vezes, queda-se em insuspeitos corações...

Helena Sacadura Cabral disse...

Ai! Senhor Embaixador se o Eça ou o Ramalho fossem vivos teríamos outra visão do 25 de Abril...
No Banco de Portugal, o meu fiel contínuo, resolveu tornar-se "sexy" abolir a gravata, abrir a camisa até onde os pelos de Sansão eram visíveis e tratar-me por camarada.
O revolucionário Mouta Liz que antes até tinha um carrinho de sport e camisinhas de marca, decidiu submeter os quadros do Banco a exame político prévio para saber se podíamos continuar a exercer funções...
E o Dr Ramos Pereira que de contínuo chegou a administrador e foi uma das mais competentes figuras daquela casa, viu todo o seu trabalho ser queimado e foi posto borda fora.
Eu, que sempre tive poucos medos, cheguei para o processo revolucionário em curso na altura. Despachei o Lopes para os Recursos Humanos e ao Mouta liz disse que o que ele fazia eu fazia melhor. E o que eu fazia ele nem de perto lá chegaria.
No Sindicato andei à pancada em defesa de Ramos Pereira. Dei e levei. Mas fiquei no Banco e hoje durmo descansada, porque fiz o que devia. E nem agora me calam!
Mas gostei de viver o primeiro 1 de Maio em liberdade. Essa alegria ninguém ma tira. E fiz dois filhos que são "gente", quer se goste ou não deles.Isso também ninguém me tirará do epitáfio a que juntaria ter-lhes dado como Pai, um dos homens mais inteligentes e cultos deste país. E muito sério, que já é matéria rara na terrinha...
Dewsculpe o longo desabafo. Mas ando muito zangada com o que se está a passar no meu país!

Guilherme Sanches disse...

Que bem!
A verdade, para ser credível, tem de ser dita por inteiro.
Obrigado, seja qual for o prisma pelo qual o tema deste post foi visto, e pela subtil habilidade de lhe dar ambígua leitura, ao gosto de cada um.
E... posso aproveitar para mandar um recado por esta via? Obrigado mais uma vez.
É para Isabel Seixas (que apenas conheço "daui"), um atrevido pedido de esclarecimento - desculpe se mal pergunto, mas o que é que o 25 de Abril tem a ver com essa poética "obrigação intrínseca/colada ao fogão ou à bancada da cozinha"? Olhe que cá em casa, há mais de 25 anos, eu nem sei se a minha esposa sabe cozinhar. Um ovo estrelado que seja. E para ser franco, prefiro não saber. Se calhar esta é que é a verdadeira obrigaç... Não, não é. Mas também não é do 25 de Abril.
Desculpe o comentário, mas a vida não pode ser só feita de momentos sérios. Afinal, cozinhar é também uma forma de arte, em que as obras têm a grande vantagem de ser comestíveis.

Julia Macias-Valet disse...

Coitado do Senhor Silva...

Anónimo disse...

Caro Guilherme Sanches
Uma das "dádivas" mais...eloquentes do 25 de Abril que eu admiro incondicionalmente é permitir-nos
Atrevimentos em"Liberdades de expressão".

Quanto à cozinha(onde pelo menos domino e não só) obviamente tem razão, é também, um dos motes de delimitação da alternância de quem quer "partilhar" o poder instituido, visando a aquisição...
Embora não descure disto tudo, a dimensão aliciante de ver o que consigo.

Agora convenhamos o Sr. nem no "após" 25 de Abril ter aproveitado para descobrir se a Sua mulher sabe estrelar um ovo...
Se calhar fez bem,tem sempre tempo, não se desgaste em trivialidades que nem ...
O 25 de Abril "esperança subjectiva de todas as liberdades de cada um"...E que obviamente não tem culpa das expectativas individuais goradas... Se concordo Consigo.

Só quis reforçar a Ideia inclusiva do Sr. Embaixador, de que percebo que o bem de alguns nem sempre é o bem de Todos.

Mas...Sabe tão bem ter desculpa.

As artes comestiveis também me parecem pertinentes...Quando as papilas gustativas também acham, não estava por acaso a insinuar?...

As novas verdades, não excluem per si, velhas mentiras.
Que fique bem claro que ostento com orgulho o poder do acordar do 25 de Abril, que espero ajudar a contextualizar, à falta de melhor.
Isabel Seixas

PS O apenas é dos com penas?!... Não tenha, acredite que sei do que falo, obrigada pela Sua atenção.

Helena Sacadura Cabral disse...

Ora logo eu, entre onze livros publicados tenho, orgulhosamente, dois, lindos, de cozinha. De inspiração alentejana materna.
E se Deus quiser - há-de querer - para o ano, farei honras a meu Pai, e vou aventurar-me pela cozinha de cariz beirão.
Não sabem o que perdem, aqueles que não cozinham. É que não há nora que me leve a palma na matéria, nem homem que resista aos meus petiscos culinários. Já do resto, não serei exemplo!

Anónimo disse...

Oh! Doutora Helena

Que resto?
Acho que já não falta
mais nada,falta?
Isabel Seixas