sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Contra o vento

Posso estar enganado, mas não me parece que projete na opinião pública portuguesa um sinal de que a nova maioria parlamentar tem um sentido certo das prioridades políticas fundamentais para o país o facto de serem escolhidas questões como a eliminação das taxas moderadoras para o aborto ou a adoção por casais homossexuais como os primeiros temas em que se objetiva o respetivo entendimento. Embora pessoalmente não tenha objeções substantivas perante ambas as iniciativas, não me parece correto que se crie a ideia de que a agenda parlamentar está como que refém de causas "fraturantes", que o país está muito longe de assumir como urgentes. Em especial, fica criada a ideia de que o PS vai a reboque de uma agenda que não é a sua. Menos feliz e sintomático me parece também o facto de se terem detetado, e evidenciado a público, divergências formais entre os partidos da nova maioria quanto ao modo de apresentação da questão da reposição dos feriados, o que obrigou ao atraso na iniciativa legislativa - cuja pressa, aliás, não é nenhuma. "First things first", dizem os ingleses e com razão.

Em tempo: um amigo faz-me notar, em jeito de remoque, que o PSD/CDS defende a posição que exprimi neste texto. "And so what?". Eu penso pela minha cabeça. E acho muito bem que, por uma vez, sigam o que eu digo...

9 comentários:

septuagenário disse...

Andou Mário Soares a servir sapos durante tantos anos, para agora o PS recolher alguns sapitos que sobraram.

Talvez Costa e o seu partner açoriano os recolham e guardem só para eles.


António Azevedo disse...

Custa-me perceber porquê que não percebem que o Povo não quer qualquer destes protagonistas desde a direita à esquerda. Tanto os que votaram como quem não pôs lá os pés.
Vê-se que não têm vergonha e não dão espaço a quem a tem!
antónio pa

Luís Lavoura disse...

Não concordo com o post. A questão é a seguinte: enquanto não há governo, a Assembleia da República não tem muito que fazer. Tem portanto tempo para se dedicar a coisas que só a ela dizem respeito, como sejam estas questões ditas "fraturantes", que são questõs que não carecem de uma proposta de lei da parte do governo nem do assentimento deste.

Jose Tomaz Mello Breyner disse...

A bandalheira e a falta de valores a institucionalizarem-se no meu querido Portugal

Manuel do Edmundo-Filho disse...

Subscrevo inteiramente este post. E é assim, com estes deslizes desnecessários, que o "estado de graça" de um governo PS, ainda antes de o ser (e veremos ainda se o será), se esvai num "ai". E é mau, muito mau, que o PS deixe instalar a ideia de que vai andar a reboque. E este ponto é um dos meus receios.

David Lencastre disse...

O comentador Luís Lavoura tem razão. Todavia, a questão que refere dos Feriados é igualmente pertinente. A posição do PCP, com base em procedimentos da A.R não caiu bem. Mariana Mortágoa, no debate com Teresa Leal Coelho, na Sic, tentou, com sabedoria e diplomacia, dar a volta ao texto (embora se percebesse o seu descoforto). Fica-me a impressão de que o único parceiro político com alguma solidez, para o PS, é o BE. E, quem sabe, talvez o PEV. Enfim, vamos lá ver como seguirá a caravana. Conduzida com mestria e imansa paciência por António Costa. Será que, em boa verdade, o PCP nunca mudará?
David Lencastre

João Forjaz Vieira disse...

Mas como é que o PS pode não andar a reboque? Quem vota neles?
João Vieira

Isabel Seixas disse...

claro! Evidentemente...

Joaquim de Freitas disse...

"José Tomaz de Mello Breyner disse...
A bandalheira e a falta de valores a institucionalizarem-se no meu querido Portugal "

Desde quando? Desde que o poder se comporta como o herdeiro, daqueles que perderam a revolução. Os valores de Abril não são só esquecidos, como são atacados. E não é a burguesia, que sucedeu à nobreza, que está preocupada pela situação, porque a provocam.

A saúde, a educação, a segurança Social, o direito ao trabalho, a reforma, são direitos que não lhes interessam. Por isso os atacam, Senhor Mello Breyner.

O "seu querido Portugal" é vendido em leilão e comprado pelo estrangeiro a vil preço. O nosso, o meu Portugal onde nasci vejo-o representado aqui, neste país onde vivo, por aqueles que não tiveram um futuro e foram obrigados a emigrar, assim aconselhados pelos seus amigos do governo. Muitos, continuam a ser concierges, empregadas domésticas, (uma promoção, porque ai os burgueses chamam-lhes criadas) e no que podem encontrar, segundo as suas capacidades.

O governo hipoteca de maneira perigosa a nossa soberania, o nosso futuro. A fome é agora quotidiana em certas camadas da população, enquanto que os ricos se enriquecem cada vez mais. A injustiça social reina. Quem transforma os Portugueses em sob proletariado da Europa, incitando-os a emigrar? Se é isso estar na Europa, não sei se não valia melhor não ai estar!

A democracia não se resume ao voto. Implica um contrato entre eleito e eleitor. O neo fascismo aponta o nariz em muitas declarações de certos ministros.
A verdade é que não têm a coragem de dizer que são contra o 25 de Abril.

A maioria pratica a política em voga no mundo ocidental: servem-se em vez de servir; lutam pelos interesses em vez de lutar pelos valores.

São estes e aqueles que os apoiam, que criam a bandalheira.

A liberdade, a democracia, a solidariedade, a justiça social, estão longe das suas preocupações.

Antes de lamentar a bandalheira e a falta de valores, seria bom de olhar à sua volta, neste belo país minado pela corrupção das elites, tão longe do sonho que cada Português teve, quando ouviu alguém, em frente do Castelo de Guimarães, em 1940, dizer: " Portugal pode ser se nós quisermos, uma grande e prospera Nação".

Não existe prescrição contra a verdade: os erros pelo facto de serem velhos não são melhores.