quinta-feira, 12 de março de 2015

Memorabilia diplomatica (III) - A guerra das alcachofras


Num passeio de manhã, num mercado de legumes, deparei com uma bancada cheia de belas alcachofras. Isso recordou-me uma historieta diplomática do final dos anos 80.

Estávamos nos tempos da renegociação da Convenção de Lomé (agora já vamos na Convenção de Cotonou), o acordo que, nomeadamente, permite aos países africanos (e também a outros, das Caraíbas e do Pacífico) exportar para a Europa, em condições privilegiadas, algumas das suas produções agrícolas, parte das quais essencial para sustentarem as suas débeis economias. Nesses cíclicos momentos negociais, os produtores europeus tentavam sempre convencer os seus governos a evitar que a Europa fizesse novas concessões. A Comissão Europeia, responsável pela negociação, propunha uma lista de possíveis novas aberturas e os vários Estados europeus retiravam dela, apresentando as suas razões, produtos que entendessem concorrentes com os seus.

O nosso Ministério da Agricultura enviara-nos uma lista de “produtos sensíveis” para os agricultores portugueses. Conseguíramos sustentar a maior parte deles, mas, nas versões sucessivas dessa “lista negativa” (como é vulgarmente chamada) europeia, a Comissão teimava em não incluir - imaginem! - as nossas alcachofras. Porque não compete aos diplomatas, que se encarregam de negociar, serem eles a “deixar cair” as objecções colocadas pelos departamentos especializados, era nosso dever tentar encontrar, e até inventar, todos os argumentos possíveis para sustentar o bom fundamento das nossas posições de defesa comercial.

Num determinado passo das discussões técnicas, uma nova proposta da Comissão de “lista negativa” europeia chegou à mesa das negociações. Mas, uma vez mais, nada de alcachofras... Pedimos a palavra e regressámos ao nosso argumentário, tão convincente quanto possível, sublinhando que as margens de comercialização dos nossos produtores de alcachofras eram já muito reduzidas, que uma invasão do nosso mercado por alcachofras de origem africana originaria um desastre económico no sector, etc. Não sei se fomos ao ponto de referir a possibilidade de crescimento de desemprego sectorial, bem como outros efeitos colaterais de natureza social, mas devemos ter ficado perto disso.

Recordo-me que a enfática posição portuguesa foi apoiada pela Grécia e pela Itália, embora, em ambos os casos, com uma convicção que se me afigurou um tanto débil, o que tomei à conta do facto de poderem estar a reservar-se para um defesa prioritária de outros produtos, em que teriam maior interesse direto.

Finalizada que foi a apresentação do nosso caso, feita com todo o garbo possível, a Comissão Europeia tomou a palavra, através de Manuel Marín, o comissário do pelouro. Como quase todos os espanhóis, Marin falava (e julgo que ainda fala) um francês com uma pronúncia macarrónica, cheia de “xes”, o que dava às suas intervenções uma sonoridade algo caricata, um castelhano em tom rural beirão. Mas Marin – que, posteriormente, já foi ministro e presidente das Cortes espanholas – é um homem fino e muito inteligente. Além de ser um bom amigo de Portugal, diga-se de passagem. 

Dirigindo-se à presidência da sessão, disse ter tomado muito boa nota dos sólidos motivos que a delegação portuguesa, apoiada por outras, acabara de apresentar, "com tanto brilho", com vista a recusar, liminarmente, a possibilidade de autorizar a entrada de alcachofras africanas no mercado português.

Chegado que foi este ponto do discurso do comissário, a delegação portuguesa ficou mais descansada. Imagino que nos teremos recostado nas nossas cadeiras, prenhes de satisfação pelo dever cumprido. E preparávamo-nos para ouvir da Comissão Europeia a confirmação final de que, por consequência, ela iria, finalmente, colocar as nossas prezadas alcachofras na “lista negativa”.

Foi então que, continuando a dirigir-se ao presidente da sessão, como era de regra, mas olhando de viés para a delegação portuguesa, com um sorriso que adivinhávamos malandro, Marin acrescentou: “Mais, M. le Président, je dois vous avouer un secret: il n’y a pas des artichauts en Afrique” (“Mas, senhor Presidente, devo confessar-lhe um segredo: não há alcachofras em África”). Afinal - surpresa das surpresas! -, a África não produzia as alcachofras que nós, tão denodadamente, tentávamos impedir de concorrerem com as nossas!

A sala entrou em gargalhadas – e nós em sorrisos, definitivamente, bem amarelos. Pela teimosia do nosso Ministério da Agricultura, numa defesa pateta das nossas alcachofras, tínhamos perdido uma boa ocasião para não desperdiçar capital negocial numa discussão europeia.

Mas, também eu, devo confessar-lhes um segredo: hoje, no mercado, não me contive e deitei um olho às caixas que acondicionavam as alcachofras. Não fosse dar-se o caso de serem originárias de algum país africano. Não eram...

(Reedição de historietas da diplomacia por aqui já publicadas)

10 comentários:

Gonçalo Pereira disse...

Muito bom. Merecia lugar na antologia de histórias sobre os bastidores da diplomacia.

Luís Lavoura disse...

il n'y a pas

Falta o y.

Guilherme Sanches disse...

E só por curiosidade - há produção de alcachofras em Portugal?
Um abraço

Anónimo disse...

Luís Lavoura, perdeu uma óptima ocasião de ficar calado!

Zé Fernandes, "Bila Rial"

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro Luis Lavoura. Tem toda a razão. E havia um outro erro, que já corrigi.
Caro Zé Fernandes. Grato pelo "apoio" mas os erros corrigem-se e aqui confessam-se sem o menor problema

Bartolomeu disse...

Só tenho um reparo que não me escuso de fazer: O Senhor termina este bem-humorado texto ou... de boa vesícula, prometendo que iria revelar aos seus leitores, um segredo. Vai-se ver e a promessa só foi cumprida pela metada. Afinal, qual é a origem das alcachofras que viu hoje na banca do mercado? Eram espanholas? ;)

Francisco Seixas da Costa disse...

É verdade! Eram espanholas...

Bartolomeu disse...

Ah grande Marin!

Anónimo disse...

Então fui eu quem perdeu uma boa ocasião de ficar calado!
Ainda bem que o Tenente Abreu não me viu fazer esta triste figura.

Zé Fernandes, "Bila Rial"

patricio branco disse...

que se passava com o min da agricultura?