sábado, março 15, 2025

A razão

Há algo que não pode deixar de acompanhar toda a campanha eleitoral, porque não fazê-lo seria tomar os portugueses por parvos: a razão que provocou esta crise.

sexta-feira, março 14, 2025

Ad hominem

Parece claro que a tática de Luís Montenegro para as semanas que aí vêm, além de apresentar o saldo da sua ação governativa, é tentar criar um contraste de "figura de Estado" com Pedro Nuno Santos. Vamos assim ter uma campanha "ad hominem", coisa que não deve ser bonita de ver.

quinta-feira, março 13, 2025

Ontem


Foi ontem. Jantar muito bem disposto com amigos, por mais de três horas. Nem uma palavra sobre eleições, Montenegro, Marcelo, o Chega ou os socialistas. Nem uma só vez chamados a terreiro Trump, Putin, a Europa ou alguma guerra. Apenas por menos de um minuto, o tal almirante roçou a troca de impressões. As boas conversas são assim mesmo.

Miguel Macedo

Lamento muito a morte de Miguel Macedo. Sempre um senhor na política, um homem sério, vítima de uma inqualificável incompetência e de leviandade judicial, feita com cumplicidade mediática, num caso que lhe afetou a reputação, a vida pessoal e profissional e, quem sabe?, a saúde.

Branco

Aguiar Branco dava ares, no início do mandato, de querer assumir uma atitude de Estado, consonante com as responsabilidades inerentes ao lugar que ocupa. Com o decurso do tempo, foi perdendo equilíbrio e isenção. É pena. Usando termos de teatro italiano, sai pela direita baixa.

Maio

A mim, confesso, tanto se me dá que as eleições sejam a 11 como a 18 de maio. Só não gosto do 28 de Maio.

Trump e Putin. O jogo


Trump dá o braço à Ucrânia e entala a Rússia numa pirueta para um cessar-fogo. 

Conversa entre Manuel Carvalho e Francisco Seixas da Costa, num podcast do jornal "Público".

Ver aqui.

quarta-feira, março 12, 2025

Encavacado

Cavaco Silva tem como objetivo de vida afirmar-se no olimpo social-democrata, numa espécie de competição virtual com a memória de Sá Carneiro e Passos Coelho. Num momento como este, com o líder do PSD envolvido numa trapalhada, o senhor professor está verdadeiramente encavacado.

Fasten seat belts!


Eu sei que a oposição já treme como varas verdes só de pensar nisto, mas gostava de lembrar que a reconstituição da AD para as eleições de maio implica o regresso a terreiro da sua terceira força, que nem pelo facto de ser mais discreta deixa de ter um forte potencial devastador.

M(AI)

Não dei conta que a senhora ministra da Administração Interna tivesse feito parte dos membros do governo escalados para irem às televisões defender a causa de Luís Montenegro. E, cá por coisas, tenho pena que isso não tenha acontecido.

Redil

Durante semanas, viu-se comentadores da área do governo criticarem Luís Montenegro, acompanhando o choque ético que atravessou o país. Isso foi ontem. Agora, com o cenário esquerda-direita de novo instalado no terreno, as ovelhas regressarão ao redil. Já se notou esta noite.

terça-feira, março 11, 2025

Samsonite


... e assim acaba uma promissora carreira parlamentar, quando tanto dela ainda era legítimo esperar. 

segunda-feira, março 10, 2025

11 de Março


Na tarde desta segunda-feira, tive muito gosto em falar para largas dezenas de estudantes, além de muitas outras pessoas presentes, no Picadeiro Real, no Palácio de Belém, sobre o que foi a tentativa de golpe militar que ocorreu há precisamente 50 anos. 

O excelente documentário feito para a RTP por Jacinto Godinho abriu a ocasião. Depois, a historiadora Luísa Tiago de Oliveira fez um enquadramento da conjuntura.

A seguir vieram os testemunhos. O jornalista Adelino Gomes relatou o insólito encontro entre revoltosos e as forças do então RAL 1, cena que ele cobriu para a RTP. O comandante Costa Correia, uma prestigiada figura que meses antes ocupara a polícia política à frente de uma força da Marinha, relembrou a sua participação nesse frente-a-frente, que o filme registou para a História.

Seguiu-se a evocação da célebre Assembleia do Movimento daa Forças Armadas, por três pessoas que nela participaram e intervieram. 

No que me toca, procurei explicar o que fazia o oficial miliciano que eu à época era no seio daquela história. Contei como integrei um grupo de oficiais, profissionais e milicianos, que, à hora de jantar desse dia, irrompeu pelo Palácio de Belém, suspendendo a reunião do "Conselho dos Vinte" e convenceu o presidente Costa Gomes a deslocar-se ao edifício do atual Instituto de Defesa Nacional, para uma sessão de debate com mais de 200 pessoas, entre os quais o primeiro-ministro Vasco Gonçalves e o almirante Pinheiro de Azevedo, que só terminaria cerca das sete da manhã. Tentei fazer uma leitura política do que ali se passou e, de caminho, falei também de uma outra reunião, muito mais tensa, com apenas cerca de 30 pessoas, que teve lugar 24 horas depois, onde se discutiu a composição do futuro Conselho da Revolução e em que também participei. 

O coronel Nuno Santos Silva, da Força Aérea, que no 25 de Abril tinha sido um dos ocupantes do Rádio Clube Português, deu uma muito interessante visão das tensões políticas da época, chamando "os bois pelos nomes" no tocante às graves responsabilidades de António de Spínola, que, em 28 de Setembro de 1974 e naquele 11 de Março, ia levando o país para a guerra civil.

Vasco Lourenço, figura central do MFA, encerrou os testemunhos, relatando vários episódios, nomeadamente as tensões que protagonizou com o coronel Varela Gomes, que era a figura mais polémica da chamada "esquerda militar".

A sessão terminou com uma intervenção do anfitrião da sessão, o presidente Marcelo Rebelo de Sousa, que falou em particular para os estudantes presentes. Também ele, à época com responsabilidades no jornal "Expresso", tinha algumas histórias para contar.

Foram umas belas horas. Fica uma foto da nossa audiência.

( Deixo a minha perspetiva sobre o 11 de Março de 1975, inserida num programa da RTP. Pode ver clicando aqui. )

"A Arte da Guerra"


Esta semana, fizemos uma interrupção no "A Arte da Guerra", o podcast sobre política internacional que, desde há quatro anos, faço com o jornalista António Freitas de Sousa, para o "Jornal Económico". 

Regressamos na próxima semana.

domingo, março 09, 2025

Pois é!

Parece que vamos mesmo para eleições. Trata-se de uma fuga em frente de Luís Montenegro, que, pela relegitimação que julga ir conseguir através delas, espera poder escapar ao juízo negativo que grande parte do país faz do modo como geriu a triste trapalhada em que se envolveu. Montenegro, que se saiba, não cometeu nenhuma ilegalidade, mas o seu comportamento na questão dos seus interesses empresariais demonstra uma indesculpável leviandade, que se não esperava de um primeiro-ministro e de um político experiente. A paralela exposição de uma rede de conluios entre autarquias, escritórios de advogados e estruturas partidárias, que se soma a outros episódios recentes, conduz a opinião pública a um juízo cada vez mais negativo sobre a integridade do aparelho político, à conclusão de que o país está subjugado por uma inescapável rede quase mafiosa de troca de favores. É com estas e com outras que, daqui a uns meses, só um milagre nos livrará de ver em Belém um totem de cara esfíngica, uma espécie de justiceiro eleito "by default". Nessa altura, os políticos que agora por aí andam bem poderão limpar as mãos à parede pelo lindo serviço que irão fazer à imagem do país.

sábado, março 08, 2025

Mulheres

Finais de 1985. Tinha acabado de chegar a Lisboa, vindo do segundo de dois postos no estrangeiro. Estava com dez anos de carreira. Fui colocado no serviço que fazia a coordenação dos assuntos europeus. Portugal ia "entrar na CEE". 

Eu era o único diplomata naquele serviço, onde só havia técnicos economistas: várias mulheres e um homem. Fiquei sob a chefia de uma delas. Dias depois, um amigo telefonou-me, inquirindo: "Ouvi dizer que vais ser chefiado por uma técnica?" Com toda a calma, disse-lhe: "Vou. Qual é o problema?" Sempre achei que, por detrás da pergunta, onde despontava algum elitismo profissional, estava essencialmente a circunstância de eu ir ser chefiado por uma mulher, o que nunca, até então, tinha acontecido a alguém da minha ou de anteriores gerações diplomáticas. 

Trabalhei ali quase dois anos, sempre sob a mesma chefia. De todas as colegas que conheci à minha chegada àquele serviço, incluindo naturalmente aquela que o dirigia e algumas outras que entretanto ali chegaram, fiquei para sempre amigo.

Exatamente dez anos mais tarde, vim a ocupar um cargo governativo na mesma área. Para o meu gabinete, escolhi sempre muito mais mulheres do que homens. Não o fiz deliberadamente pelo facto de serem mulheres, confesso: sempre escolhi as pessoas exclusivamente pela sua competência técnica. Houve mesmo um período de alguns meses em que toda a gente que trabalhava comigo, com exceção dos dois motoristas, eram mulheres. 

Mais tarde - em Nova Iorque, Viena, Brasília e Paris - trabalhei com muitas mulheres. Desde há muitos anos que a qualidade do serviço público, na área externa que conheço bem, muito deve às mulheres, diplomatas ou técnicas, sem esquecer a indispensável máquina administrativa.

Trabalhar com mulheres foi sempre algo que gostei muito de fazer. Apeteceu-me recordar isto, neste que ainda é o dia internacional delas.

Tão simples...

O que faria se fosse eu a determinar o sentido de voto no PS na moção de confiança que o governo vai apresentar? Muito simples: decidia que o PS se abstinha, não caindo na esparrela de uma moção oportunista. De seguida, claro, avançava para a comissão parlamentar de inquérito. 

Quem será?

A mini-crise política em que país se viu envolvido não parece ter tido origem, que se saiba, em nenhum imbróglio empresarial de algum dirigente da oposição. Estão de acordo? Se sim, fácil será identificar o nome de quem quer levar o país para eleições.

Viva o 8 de Março!

A frase não é minha, li-a há pouco e é uma verdade que, nem por ser lapalisseana, deixa de ser uma imensa verdade: metade do mundo são mulheres; a outra metade são os filhos delas. Viva o 8 de Março!

A denúncia da ditadura


Sou pouco dado a ir a filmes que estão na berra. Faço mesmo gala de não correr a ver os que tiveram Óscares, antes de passarem uns bons tempos sobre o início da sua exibição. Às vezes, acabo por só os ver na televisão.

Pratico o mesmo com a leitura de autores a quem tiver saído, na rifa de Estocolmo, o Nobel da literatura. Só os leio, quando os leio, mais de um ano depois. Idem com os restaurantes ditos imperdíveis. Só lá vou quando já quase não se fala deles e ninguém lhes liga. É isso: em toda a minha vida, sempre mantive uma forte rejeição às modas. É claro que isso me coloca um pouco à margem nos jantares "en ville" ou nas almoçaradas em tertúlias. Mas cada um é como é, não é? 

Ontem, porém, uma circunstância muito pontual, por cancelamento de outro compromisso, deu-me a possibilidade de ir ver o filme brasileiro "Ainda estou aqui". Não escondo que algum viés político me fez privilegiar a ida a essa "fita". Um filme contra uma sinistra ditadura como foi a brasileira é, para mim, algo interessante. Não me arrependi: filmes como este, ainda por cima nos tempos que correm, oferecem boas lições históricas. Resta saber se alguém as aprenderá, ou melhor, se elas têm alguma eficácia para trabalhar as consciências e conseguir mudar o curso das coisas.

Já agora, deixo a minha opinião sobre o filme. Tem belos pormenores de realização, com apelativas imagens de época, embora os saltos no futuro quebrem e não acompanhem o ritmo narrativo anterior, acabando por "documentarizar" uma parte significativa da obra. Achei pena! Fernanda Torres revela-se uma magnífica atriz. 

No final do filme, rodeado de pipoqueiros, tive a cobardia de não abrir uma salva de palmas. Teria sido instrutivo saber se haveria muita gente a seguir-me. Provavelmente não teria. Mas o facto é que não tive a coragem de ser coerente com o que estava a pensar. 

sexta-feira, março 07, 2025

"A Arte da Guerra"


Para quem tiver paciência e uns minutos, desta vez de forma não segmentada porque se trata basicamente dos mesmos temas, aqui fica o episódio desta semana do podcast "A Arte da Guerra", com o jornalista António Freitas de Sousa, em que se fala de Trump, de Zelensky, dos esforços de defesa europeus, da questão nuclear, da guerra comercial americana e até do futuro papel da Turquia. Como se diz nos restaurantes, espero que gostem.

Pode ver e ouvir aqui.

quinta-feira, março 06, 2025

José António Saraiva


Foi há mais de duas décadas. Eu tinha sido objeto de uma determinada ação política, executada com o objetivo de me prejudicar, embora embrulhada em falsos pretextos. O "Expresso", de que José António Saraiva era diretor, publicou, na sua primeira página, uma notícia que dava uma visão falseada da questão, claramente soprada por alguém a quem essa versão convinha que fosse difundida por um jornal com aquela projeção. Conhecia mal José António Saraiva, mas telefonei-lhe e disse-lhe isso mesmo. A sua reação foi de clara surpresa: "Só publiquei a notícia daquela forma porque considerei que a minha fonte, que era de um nível político muito elevado, era de total confiança". Retorqui: "Essa pessoa, que desconfio quem seja, mentiu-lhe. Se quiser, pode citar-me a dizer que essa figura mentiu". E dei-lhe dados e pistas que lhe permitiriam, se quisesse, repor a verdade dos factos. Assim aconteceu. Uma semana depois, o "Expresso" voltou ao assunto, desta vez com todo o rigor factual e dando-me mesmo oportunidade para afirmar a minha parte da verdade. Não esqueci isto. E apetece-me lembrar esse gesto, nesta que é a hora da morte de José António Saraiva, com uma idade que conheço bem.

Língua portuguesa


Tive muito gosto de participar ontem no Congresso "Da minha Lingua vê-se o Mundo", organizada pelo jornal "Público", no seu 35° aniversário e nos 500 anos de Camões. Foi um debate animado com Álvaro de Vasconcelos, moderado pelo jornalista Manuel Carvalho.

Aa minhas intervenções centraram-se no estatuto internacional da língua, nos limites da sua projeção e no grau razoável de ambição que é possível ter para a sua contínua promoção. Falei do papel do Brasil e do futuro da língua em função do ascendente demográfico previsível de Angola e Moçambique, no final do século. Procurei ser realista, tentando não ser voluntaristicamente eufórico nas perspetivas futuras do Português no mundo. O patrioteirismo linguístico não faz o meu estilo.

quarta-feira, março 05, 2025

11 de Março - 50 anos depois


... não morre solteira!

Importa que o PS deixe claro que, mal tome posse a nova Assembleia da República, depois das eleições, e qualquer que seja o desfecho destas, apresentará um requerimento para a constituição de uma comissão parlamentar de inquérito, nos mesmos termos da que já tinha anunciado.

Trump


Sinto-me um pouco masoquista, mas aqui estou eu a ver e ouvir o discurso de Trump no Congresso americano. São quatro da manhã, mas não podia perder este espetáculo de egocentrismo e megalomania. Ao ouvir este discurso alucinado, sou levado a concluir que não é (só) Trump quem está doido, são os americanos que o escolheram que o estão.

terça-feira, março 04, 2025

Jean-Louis Debré


Jean-Louis Debré, que hoje morreu, foi uma figura atípica da vida política francesa. Conhecido "franc-parleur", mantinha Nicolas Sarkozy e Edouard Balladur como seus "inimigos íntimos" - e não o escondia. Ao contrário, Jacques Chirac foi um dos seus grandes amigos, uma figura a quem se manteve fiel ao longo da vida. 

Era filho de Michel Debré, uma das maiores figuras da V República. Escreveu ficção, comentou em programas de rádio e tinha sempre um "bon mot" à mão. Tem livros de memórias bastante interessantes.

Debré teve uma carreira pública relevante, como deputado, ministro do Interior, presidente da Assembleia Nacional, figura proeminente do partido gaullista e presidente do Conselho Constitucional. 

Foi nesta última qualidade que o conheci, num almoço que ofereceu ao professor Rui Moura Ramos, então presidente do nosso Tribunal Constitucional - instituição que, contudo, tem um perfil funcional diferente do Conselho Constitucional francês. 

Esse almoço foi divertidíssimo. Debré faz comentários irónicos sobre Sarkozy, contou episódios da difícil convivência entre Jacques Chirac e Giscard d'Estaing e outras histórias do quotidiano político francês. A certa altura, disse-nos: "Como toda a gente sabe que não gosto de Sarkozy, a começar por ele, seria uma hipocrisia, mesmo com a função institucional que tenho, não apenas pôr-me a dizer bem dele mas mesmo não dizer o mal que dele penso". E foi por ali adiante...

À esquerda, havia muita gente que apreciava a sua heterodoxia e, em especial, o modo elegante como respeitara os direitos da oposição, aquando da sua presidência do parlamento. Ele próprio não escondia que lhe tinha "acontecido" votar à esquerda. Era um grande figura de uma certa direita gaullista que está a acabar em França.

À saída do almoço, o seu telemóvel tocou e o som que dele saiu foi uma versão da "A Internacional". Perante a surpresa de todos, Debré explicou: decidira colocar no telefone, em relação a algumas pessoas, músicas que as identificassem. Assim, com "A Internacional", ele sabia que quem o chamava era alguém de esquerda. Revelou então que tinha a "Le Chant des Partisans" para os amigos gaullistas, creio que "A Marselhesa" para os contactos de direita e outras músicas, com menos conotações políticas, para os contactos de familiares.

Homens assim fazem falta na política. Talvez por isso o seu último livro, um verdadeiro inventário de belas blagues, não sendo uma obra-prima, revela bastante do que ele era: "Quand les politiques nous faisaient rire".

UK


Na imprensa conservadora britânica.

segunda-feira, março 03, 2025

O G20 depois de Trump


Ver aqui.

A nossa língua dos outros

É excelente que um filme em língua portuguesa vença um Óscar. O português é também a nossa língua dos outros.

"Trump e a força dos fracos"


Ver Keir Starmer e Emmanuel Macron a assumir um assinalável protagonismo, na atual crise de segurança ocidental, quando os sabemos a ambos extremamente debilitados nos respetivos cenários internos, mostra que a vida política é uma caixa de surpresas.

E deixa demonstrado que as fronteiras de uma rutura tão importante como foi o Brexit são subitamente diluídas quando "valores mais altos se alevantam", fazendo vir a jogo, mão-na-mão, os dois poderes nucleares europeus que um dia a América ajudou a cooptar para o Conselho de Segurança da ONU.

Quando muitos acusam, com óbvia razão, Donald Trump de abandonar o terreno multilateral e optar por um diálogo entre poderes, é uma ironia constatar que a Europa, nesta crise, se comportou exatamente da mesma forma: Macron impôs o Eliseu a Bruxelas e foi a Washington com ares de chefe de turma. A Europa dos 27 podia esperar ou, como diria De Gaulle, "l'intendence suit".

Aliás, na sua tumba em Colombey-les-Deux-Églises, Charles de Gaulle deve sentir-se vingado, ele que sempre achou que a excessiva dependência dos Estados Unidos reduziria a Europa a um poder vassalo de Washington.

Já agora, convém lembrar que o gaullismo, na ordem internacional, não era só isso, era também a sabedoria de um atempado sentido de relacionamento crítico com Moscovo.

Um sentimento que a Europa e a América do pós-Guerra Fria que nela se apoiou não souberam ou não conseguiram construir, assim contribuindo para o encasulamento autoritário e para o tropismo expansionista em que decantou o ressentimento russo.

Aqui chegados, e tendo a débito a patética cena na Sala Oval, que fazer, como diria o clássico? 

Em poucas semanas, a NATO ficou entre parêntesis. Era um guarda-chuva de segurança que se baseava na previsibilidade da reação americana à ameaça das fronteiras dos aliados que sob ele se acolhiam. Todo o afã demonstrado pela Finlândia e pela Suécia para aderirem tinha como objetivo poderem partilhar essa apólice de seguro.

Com a chegada de Trump, o automatismo da atitude dos EUA desapareceu. Macron teve razão antes do tempo, quando um dia disse que a organização estava em "morte cerebral". Está, pelo menos, em "coma induzido". Por esse lado, e até ver, sabemos com o que (não) podemos contar.

A Europa - e por Europa, cada vez mais, deve entender-se a União e a NATO europeias, salvo escassíssimos reticentes como Orbán - sente-se por sua conta e risco. E está a fazer rapidamente as contas aos riscos que aí vêm.

Já se percebeu que uma Euro-NATO seria uma construção a prazo e que, na tarefa imediata a que se propôs - defender esta Ucrânia -, só poderia confrontar a Rússia tendo Washington ao seu lado. E foi-lhe dito por Trump que não terá.

A fuga em frente europeia consiste em apoiar Zelensky, a todo o custo - "até ao fim", havendo leituras cínicas da expressão. E aqui pode entrar numa inevitável contradição com Trump, que já se cansou do presidente ucraniano - como um dia um seu antecessor de cansou de Yanukóvytch.

Do que nas últimas horas chega de Washington, relativamente à liderança ucraniana, fica a ideia de que não veria com maus olhos a substituição de Zelensky. Experiência não falta aos americanos para este tipo de operações e Maiden lá está para o que der e vier.

O que se passou entre Trump e Zelensky, à vista de todos nós, não facilitou a vida à Europa. Trump sabe que, em grande parte, se deve ao conforto político europeu o facto de o líder ucraniano manter um maximalismo de objetivos. Por isso mesmo, a sua irritação com o "desplante" de Zelensky é também um ralhete para quantos apoiam a sua recusa de aceitar uma solução "realista".

Trump entende que a Ucrânia já perdeu a guerra e que ela, no fundo, terá nascido da sua ambição de integrar a NATO. Ainda não foi ao ponto de comprar o argumento de que a expansão da NATO a Leste esteve na origem última desta tensão, mas já não anda longe disso. No essencial, Trump absolve a Rússia nesta guerra.

Ele parece pensar que, se Kiev vier a ceder às ambições territoriais de Moscovo, isso apaziguará a Rússia e permitirá a preservação da independência do país, com um estatuto neutral, uma espécie de protetorado europeu, cuja reconstrução competirá naturalmente aos europeus pagar.

Ao contrário de Zelensky, que quer garantias visíveis de segurança para o caso de ter de ser forçado a ceder solo à Rússia (e o subsolo aos Estados Unidos), Trump acha que a palavra de Putin lhe basta, porque entende - e este é o ponto essencial - que a Rússia só teme os EUA. E que, se Putin lhe prometer algo, ficará preso a esse compromisso para não ter de vir a afrontar o poder americano.

No tocante à Europa, Trump também "confia" em Putin e não parece ser minimamente sensível à doutrina, que hoje faz caminho nos corredores do medo europeu, de que a Rússia é uma ameaça iminente. Mas deixa intuir que, se a Europa persiste nesse temor e quer continuar a dispor do chapéu nuclear americano, deve contribuir bem mais para o "burden sharing" e dotar-se de melhor equipamento militar, dos EUA claro. Só lhe falta dizer: "comprem americano" e não assumam posturas comerciais agressivas quanto a Washington.

Trump não dura sempre, pensarão alguns. Pois não. Pode vir aí J.D. Vance. Gostam mais?

(Artigo publicado a convite do "Público")

domingo, março 02, 2025

Toda a gente?

Nos últimos dias, toda a gente fala do caso Montenegro e das suas repercussões para a estabilidade política do país. Toda a gente? Bom, bem vistas as coisas, nem toda ...

Ai se fosse o PS ...

Sei como funcionam as televisões, em face de um acontecimento como o de ontem. Mas ver todos - repito, todos - os canais de notícias a receberem ministros, a debitar os "eléments de langage" fornecidos por S. Bento, não foi uma coisa muito decente. Tivesse sido com PS e era o bom e o bonito!

Ainda a cena da Sala Oval

Ver aqui.

Com adversários assim...

Em Portugal, a inabilidade da esquerda é tanta que permite que a direita transfira para ela a responsabilidade das suas próprias crises. 

Já agora...

Já agora, para os que andarem distraídos com a Ucrânia, convém lembrar que Israel retomou os ataques na Faixa de Gaza. Não há nada como um comboio para esconder outro.

Há malas que vêm por bem...

A brincar, a brincar, com esta malapata do primeiro-ministro, já ninguém se lembra das malas do Arruda...

Alguém pode explicar ?

É minha impressão ou as regras aplicáveis às bicicletas, isto é, o código da estrada - como a proibição de conduzir contra a mão, a necessidade de terem luz à noite, etc - deixaram de ser obrigatórias? E os motociclos já podem "furar" livremente entre os automóveis? É mesmo assim?

... vê-se o mundo!

 


sábado, março 01, 2025

Trapalhadas


O primeiro-ministro tem toda a razão: o país não quer eleições. Mas ver Luís Montenegro no cenário de São Bento, rodeado do seu elenco lúgubre de prosélitos, trouxe-me à memória uma cena idêntica com Santana Lopes. É que o país, uma vez mais, também não quer "trapalhadas". E estas foi Montenegro quem as criou - só ele e mais ninguém!

... várias famílias


Em outros tempos, os jornais, quando queriam assinalar que tinham feito algo indo ao encontro da vontade expressa por alguns leitores, diziam que o faziam "a pedido de várias famílias".

Não foram várias famílias mas foram diversas vozes que, ao longo dos últimos três meses, me foram solicitando que voltasse a admitir a publicação de comentários. Ao que parece, há algumas pessoas que acham graça àqueles textos. Não sei quantas, dado que, desde que os comentários deixaram de ser publicados, os leitores do blogue aumentaram. Ele há cada mistério!

Mas, pronto, vamos fazer uma nova experiência. Só peço que sejam moderados no tom dos textos, para que isto possa ser um lugar sereno e amigável.

quinta-feira, fevereiro 27, 2025

O alibi


Sabia que o Luís Castro Mendes era um diplomata "de truz". Só não o sabia tão pérfido. Decidou marcar o lançamento do seu último livro para as 19.00 horas de hoje, no Grémio Literário, na rua Ivens, quando ele sabia, de ciência certa, que hoje iria estar um dia infernal de chuva.

Este é um conhecido truque! É assim que o Luís faz a separação das águas (neste caso, da chuva), é deste modo que ele seleciona os (verdadeiros dos falsos) amigos! 

Quem não tem pachorra para arrostar com a intempérie e meter-se no trânsito do Chiado vai argumentar que está com uma constipação "de caixão à cova". Os mais ousados vão dizer que estão com Covid. Outros justificarão a falta porque lhes chegou uma prima de Mirandela, atulhada de alheiras, à gare do Oriente.

O meu argumento para justificar a falta é, infelizmente, bastante mais frágil: disse ao Luís que, como antigo embaixador em França, tinha sido convidado para jantar esta noite com Macron, no palácio da Ajuda. Sendo isto embora pura verdade, ouvi o Luís, céptico, do outro lado da linha, responder: "Ai é?! Dá beijos nossos à Brigitte!" 

Derei, descansa!, Luís! 

Isto está um inferno! Já não há bons alibis!

quarta-feira, fevereiro 26, 2025

Conversa na SIC Notícias


Ver aqui.

Não é fácil explicar...


Há dias para a História. Ver os EUA (e Israel) a votar na ONU ao lado da Rússia, da Bielorrússia, da Guiné-Equatorial e da Coreia do Norte contra a Ucrânia foi um momento único. Se ainda desse aulas de Relações Internacionais, ia ter muito trabalho para explicar isto aos alunos.

terça-feira, fevereiro 25, 2025

A ver a vida passar

A cada dia que passa, com a deriva americana em crescendo, a Europa transforma-se numa impotente espectadora do seu próprio destino.

Centaur Club


Um grupo de fãs das sagas de Blake & Mortimer, a genial banda desenhada de Edgar P. Jacobs, decidiu criar em Lisboa o "Centaur Club", uma tertúlia cujo nome foi inspirado pela agremiação londrina tornada famoso no album "La Marque Jaune".

Por ora, o grupo, cujas futuras admissões passarão por rigorosos critérios de seleção, tem apenas quatro integrantes. As agendas dos respetivos encontros serão pontuadas por aprofundadas reflexões em torno das figuras mais marcantes do mundo de Jacobs. O inesquecível coronel Olrik ocupar-nos-á, naturalmente, a primeira reunião.

A vida é demasiado curta para que a gastemos em torno de coisas excessivamente sérias e graves, como dizia o meu colega Steinbroken, personalidade que também merecia que alguém lhe dedicasse uma tertúlia.

segunda-feira, fevereiro 24, 2025

Repita lá!

Quando ouço alguns políticos, um pouco por todo o mundo, dizer que estarão com a Ucrânia até ao fim, interrogo-me sobre o que isso realmente pode querer significar.

"Deutschland über alles!"


Como as sondagens há muito indicavam, o partido de extrema direita AfD, Alternativa para a Alemanha, obteve um excelente resultado nas eleições legislativas de domingo. Não vai ter possibilidade de entrar no futuro governo, mas o seu peso político está em crescendo, como em crescendo está o receio europeu de ver aproximar-se do poder, na Alemanha, uma força que não esconde a nostalgia por um passado que trouxe a tragédia e a devastação ao continente.

Por estes dias, tenho-me lembrado muito de uma pessoa cujo nome nunca soube, que só vi creio que menos de uma hora, vai já para seis décadas. Alguém que já deve ter morrido há muito, mas que deixou em mim uma imagem impressiva. 

Este é um episódio que creio que já aqui contei, mas que agora me apetece repetir, depois do que passou nestas eleições alemãs.

Nesse final dos anos 60 e nos inícios de 70, passeei algumas vezes à boleia pela Europa, chegando até aos países nórdicos. De uma delas, tendo saído da Bélgica, eu atravessava a Alemanha, dormindo em vários locais. Já não recordo qual era a cidade alemã onde, naquele dia, eu pretendia chegar. 

Sei apenas, de certeza segura, que o nome da localidade estaria escrito, em grossas letras, numa página branca de um grande bloco de argolas, preservado dentro de uma cobertura plástica transparente, para evitar uma eventual chuva. Tenho saudades de quando era assim imensamente organizado...

Eu estaria, ao que recordo, à entrada de uma autoestrada. A certo passo, parou um automóvel, conduzido por um cavalheiro que à época achei ser já bastante idoso. Num inglês algo macarrónico mas suficiente para uma conversa simples, confirmou o meu destino e convidou-me a entrar para o seu carro.

Coloquei a mochila no banco traseiro e sentei-me ao seu lado. Nesse instante, dei-me conta de que era uma pessoa que não utilizava os pedais da viatura, que tinha uma acentuada deficiência física. Vi que tinha manípulos junto do volante, para acionar o acelerador e o travão. 

Terá sido porventura o olhar menos discreto que deitei para tão pouco usuais instrumentos que levou o meu disponível transportador a explicar que havia sido ferido na Segunda Guerra, como soldado da Wehrmacht na frente leste. "Foram os russos que me fizeram isto", disse, com uma voz cortante, para logo acrescentar: "E foram também os russos, durante a invasão do meu país, que mataram a minha mulher". 

Estava feita, dessa forma simultaneamente simples e brutal, a sua apresentação. Não recordo pormenores da minha reação, talvez porque houvesse muito pouco que eu pudesse dizer, em face da tragédia que afetara, de forma tão marcada e definitiva, a vida aquele homem. 

O tempo que então atravessávamos era de plena Guerra Fria, havia ainda o Muro e as duas Alemanhas. Os russos e a sua visível influência estavam por muito perto, a escassas centenas de quilómetros.

Perguntou-me de onde eu vinha. Ao ouvir o nome de Portugal, vi surgir-lhe na cara um esgar feito sorriso, creio que o único que lhe detetei em toda a viagem. "Você é de um país que tem a sorte de ter tido Salazar no governo. Como a Espanha tem, com Franco".

Comecei a perceber "do que a casa gastava". Mantive uma "cara de poker", terei dito umas banalidades factuais e preparei-me para uns minutos de convívio menos fácil. Por mim, a última coisa que me interessava era uma discussão política. Não me apetecia fazer teatro, mas também não queria irritar o homem, que se prontificara a levar-me no seu carro.

Ao ter ali ao lado um cidadão do país de Salazar, uma figura que muito apreciava, sentiu-se estimulado a continuar a falar contra os russos, contra o comunismo, mas também, na sua política interna, contra o executivo da "grande coligação", entre os cristão-democratas da CDU e os social-democratas do SPD, que então governava em Bona. 

Uma sua "bête noire" era o então MNE Willy Brandt, que ele achava "um traidor", um esquerdista "vendido aos vermelhos". Ora eu, à época, até considerava Brandt um excessivo moderado, e a expressão "social-democrata" que o definia melhor do que a ninguém, tinha, no jargão político-radical do país político que eu então frequentava, uma sonoridade muito pouco positiva. Assim, por  proverbial prudência, evitei produzir o mínimo comentário que pudesse potenciar a raiva que jorrava do discurso prolixo e incessante do meu interlocutor.

"Mas isto vai mudar, em breve, você vai ver! Aqui na Alemanha, estamos a organizar um novo partido, o NPD, e vamos dar a volta a isto. Um destes dias, vamos acabar com esses vermelhos e criar um regime novo. A Alemanha é um grande país. Temos de resgatar a nossa memória e deixar de ter complexos quanto ao regime que tivemos durante a guerra, que só foi derrotado pela aliança entre as democracias corruptas do ocidente e os bandidos comunistas. Vou hoje para uma reunião do NPD onde, com alguma gente que combateu na Wehrmacht, mas também já com muitos jovens patriotas, estamos a preparar o futuro. Os Brandts e estes traidores que nos governam vão ter a devida lição".

Importa lembrar, chegado a este ponto, que o NPD foi um partido neonazi criado em 1964, que nunca conseguiu fazer-se eleger para o parlamento federal, mas que chegou a estar representado em assembleias estaduais. A sua influência foi sempre muito diminuta na política alemã e alguma radicalização da conservadora ala bávara dos cristão-democratas, a CSU, de Franz-Josef Strauss, terá contribuído para esse inêxito. A AfD na qual ontem votou um em cada cinco alemães, é o herdeiro do NPD a que o meu companheiro de viagem estava ligado.

Uma viagem que estava a ser-me bastante incómoda. Eu olhava a estrada, mantinha-me o mais silencioso que podia, enterrado no banco do automóvel, desejoso que aquilo acabasse rapidamente, um pouco perturbado por aquele insólito encontro com uma Alemanha que apenas pelos jornais sabia que existia. 

Num certo momento, num cruzamento, numa zona urbana, tive uma inspiração: disse-lhe que, afinal, tinha mudado de ideias e que ficaria por ali, mudando os meus planos de percurso. Parou, eu retirei a mochila do banco de trás, agradeci a amabilidade da boleia e ele desejou-me umas férias felizes no seu país.

Quando fiquei sozinho, antes de repensar o novo trajeto, devo ter matutado que levava daqueles penosos minutos uma boa história para contar à família e aos amigos. Nunca pensei que viria a pô-la numa coisa chamada blogue.

Hoje quase ninguém anda à boleia, mas começa a haver muitos mais neonazis e gente congénere por aí.

domingo, fevereiro 23, 2025

À mesa


Sou produto de duas práticas familiares. 

Tenho na minha memória que o ramo da minha família paterna, de Viana do Castelo, cultivava uma leitura meramente utilitária da mesa. Em casa da minha avó (o meu avô tinha morrido há muito, em 1925), ia-se para a mesa exclusivamente para comer e saía-se dela logo que a refeição estivesse concluída. A conversa era, naqueles minutos, um pano de fundo meramente acessório à função. Imagino que, com o irrequietismo de criança, esse regime me devia agradar bastante: nunca vi um miúdo ter gosto em ficar muito tempo à mesa.

Em casa dos meus avós maternos, o registo era precisamente o oposto. A mesa era o lugar para comer, mas também para ir conversando. O meu avô, figura patriarcal que deixou a sua carreira judicial para poder viver próximo da família, em Trás-os-Montes, era adepto da boa conversa pós-prandial, com o café, parentes e amigos. Lembro-me muito de belas noites de verão na Casa do Pereiro, em Bornes, em que familiares vizinhos iam chegando e se juntavam a quem já estava à mesa. E de outros serões, no inverno, em Vila Real, juntando os filhos à conversa, à mesa de jantar, muito depois deste, com queijo, salpicão, bola de carne e outras vitualhas a adubarem o prolongamento do convívio, com um chá no fim.

O meu pai, tributário da primeira cultura, creio que sobrevivia com algum esforço à segunda. E como, durante bastantes anos, eu e os meus pais vivemos com os meus avós maternos na mesma casa, imagino que ele tivesse de fazer um sacrifício para se adaptar ao ritmo ditado pelo sogro, com o qual, aliás, tinha uma relação excelente. 

Na leitura familiar, vinda de Viana e que a minha mãe partilhava, o meu pai sofria do "nervoso dos Costas", uma espécie de impaciência endémica que a tradição diz caraterizar-nos, uma agitação que, o mais das vezes, nos leva a uma exagerada intolerância ao convívio com figuras que se revelem menos interessantes, um diplomático eufemismo para chatos.

Reconheço que herdei esse último tropismo, mas sou também fruto da escola da conversa à mesa. Estou, assim, no meio das duas tradições familiares. Gosto de ficar à mesa quando a conversa me agrada, estou "em pulgas" para dali zarpar em outras circunstâncias. 

Por que razão falo disto agora? Porque, na noite de ontem, com um casal amigo, estivemos à conversa, à mesa de um restaurante, durante nada menos do que quatro horas. Isso mesmo! E só fomos andando quando percebemos que, nas mesas ao lado, já tinha havido dois turnos de serviço e os empregados começavam a olhar-nos de viés. 

À saída, pensei no meu pai e na expressão que ele sempre me atirava à cara quando me via perder horas em restaurantes, andar quilómetros para fazer uma experiência gastronómica, gastar dinheiro que talvez me fizesse falta para outras coisas em lautas refeições com amigos: "Isso é uma inferioridade". 

Levava sempre essa risonha crítica à conta de ele ser um pisco a comer e um pouco forreta com os gastos. Na noite de ontem, dei comigo a imaginar o que ele teria pensado das horas que gastei a alimentar a conversa e o corpo. E tive muita pena por já não lhe poder ouvir o remoque.

sábado, fevereiro 22, 2025

Francisco


Tem sido um imenso gosto conhecê-lo, caro amigo do mundo.

Adriano Jordão


A imagem é do belo teto do salão nobre da Câmara Municipal de Lisboa. Colhi-a ao final da tarde de ontem, durante a atribuição a Adriano Jordão da medalha de Mérito Cultural, por iniciativa do presidente no município, Carlos Moedas. Achei que ficava aqui bem.

O salão transbordava de amigos e admiradores de Adriano Jordão. Carlos Moedas disse palavras muito justas, Adriano Jordão respondeu com memórias tão detalhadas que justificariam um livro interessantíssimo. Vou tentar convencê-lo.

Durante muitos anos, para mim, Adriano Jordão era apenas o nome de um pianista bastante conhecido. Um dia, no final de 1985, ao descer a Avenida Álvares Cabral, deparei com um cartaz da campanha presidencial de Mário Soares em que figurava a cara de Adriano Jordão, como seu apoiante. Estranhei, dado que o sabia ligado ao PSD. E não estava enganado: Adriano Jordão acabaria expulso do partido por ter feito a opção pública de apoiar Soares, em detrimento de Freitas do Amaral. Com o tempo, vim a perceber que, para ele, as pessoas contam muito mais do que a política.

Quinze anos passaram e, numa noite de 2000, na Roménia, durante uma visita de Jorge Sampaio, conversei pela primeira vez longamente com Adriano Jordão, que havia sido convidado a fazer um concerto na capital romena, integrado nessa deslocação oficial. 

Creio que foi então que concluimos que havíamos feito o serviço militar ao mesmo tempo, com o 25 de Abril pelo meio - um tempo militar que Adriano Jordão ontem recordou como tendo sido um privilégio na sua vida, e eu só posso concordar. Depois dessa noite de Bucareste, fomo-nos encontrando a espaços.

Até que o vim a cruzar de novo, integrado na equipa que, em janeiro de 2005, herdei do meu antecessor, António Franco, na nossa embaixada em Brasília, onde o Adriano era conselheiro cultural.

Nunca fui - dizem as "más línguas" - um chefe fácil. Julgo que o Adriano experimentou, logo no início, a minha exigência, a minha "pressa", o pedido das coisas "para ontem". Mas rapidamente percebi que ia ter no Adriano Jordão, não apenas um colaborador leal, mas um parceiro empenhado, criativo, com uma vontade de fazer coisas, muitas e bem. E com muito "bom feitio" no trabalho, ao contrário de mim.

O Adriano era uma figura popularíssima em Brasília, muito prestigiado como personalidade e operador cultural, integrado na capital brasileira como muito poucos diplomatas o conseguiam ser. Simpático, educado, sociável, a sua residência, onde o piano tinha um lugar central, era uma das "casas abertas" de Brasília. 

A liderança que praticava na delegação local do então Instituto Camões, com meios escassos que ele "multiplicava", refletia-se junto dos nossos consulados. O Brasil é imenso, a nossa capacidade de promover e apoiar iniciativas fica sempre a anos-luz das necessidades. Mas sempre vi o Adriano Jordão ir aos limites do impossível.

No que me tocava, como embaixador, o trabalho desenvolvido pelo Adriano Jordão acabou por ser, em absoluto, fundamental para projetar a imagem cultural da embaixada que eu pretendia fixar. O auge dessa ação terá sido conseguido em 2007, durante o semestre da nossa presidência da União Europeia. A imensidão de iniciativas que conseguimos montar, com grande êxito, só foi possível pela dedicação extrema do Adriano Jordão, pela sua habilidade, pelas portas que conseguia abrir,  pelo método "sopa da pedra" que utilizava - fazer muito com o pouco que tínhamos. Até um "zepellin" ele inventou, com as cores da nossa presidência, para subir no céu de Brasília nos locais onde organizávamos eventos. 

A partir desse período de convivência no trabalho em comum, de um colega na embaixada, o Adriano transformou-se num grande amigo. E é muito bom vermos o mérito dos amigos reconhecido, como ontem aconteceu.

NATO

A NATO está em risco? Não e sim. Não chegámos ao ponto dos EUA desmantelarem a coordenação de forças e é pouco provável que o façam. Mas o valor político-militar da NATO, a certeza do "chapéu" de defesa através do seu artº 5, isso já se desvaneceu imenso. Esse é o grande risco.

quinta-feira, fevereiro 20, 2025

Cinco anos depois...


(19.2.25)

Caso EDP. Investigação a Seixas da Costa foi arquivada por falta de indícios

Ministério Público não encontrou qualquer indício de irregularidade do embaixador na linha de investigação relacionada com a construção da barragem do Foz Tua


O Ministério Público não viu qualquer indício criminal na atuação de Francisco Seixas da Costa no chamado caso EDP e arquivou a investigação aberta contra o antigo embaixador de Portugal em França. Isso foi comunicado pela Procuradoria-Geral da República a Seixas da Costa por carta.

“A acusação proferida no final de outubro de 2024 no referido inquérito 184/12 não respeita a qualquer facto que envolva V.Exa.”, lê-se na missiva a que o Observador teve acesso.

Tal como o Observador noticiou em junho de 2020, os procuradores Carlos Casimiro e Hugo Neto tinham aberto uma linha de investigação relacionada com uma alegada intervenção do embaixador junto da Unesco para que não fosse feita em 2012 uma recomendação da suspensão da obra da barragem do Foz Tua.

A investigação que levou ao arquivamento. Seixas da Costa nunca foi ouvido

Num despacho dos procuradores Carlos Casimiro e Hugo Neto, datado de junho de 2020 e então consultado pelo Observador nos autos do caso EDP, era claro que o MP suspeitava dessa alegada intervenção e o facto de Seixas da Costa ter sido nomeado administrador não executivo da EDP Renováveis em 2016 — numa altura em que António Mexia era o presidente daquela subsidiária da EDP e João Manso Neto o vice-presidente.

Certo é que os procuradores nunca sentiram necessidade de ouvir o embaixador sobre esses indícios.

Em declarações ao Observador em junho de 2020, Seixas da Costa refutou qualquer incompatibilidade ou conflito de interesses entre a sua atividade como diplomata e o convite para a administração da EDP Renováveis. Afirmando-se “pronto, e de consciência absolutamente tranquila, para dar todos os esclarecimentos que me vierem a ser pedidos”, o ex-embaixador classificou a suspeita do MP como “uma insinuação inqualificável.”

Por escrito, Seixas da Costa explicou então que apenas foi representante do Estado português junto da Unesco por “escassos meses”, e no contexto da austeridade orçamental imposta do Governo de Passos Coelho que o obrigou a acumular o cargo de embaixador em Paris com a representação de Portugal naquele organismo internacional.

Seixas da Costa pormenorizou ainda que a ministra Assunção Cristas informou-o em 2012 que, caso a Unesco levasse avante a sua recomendação de suspender a obra da barragem do Foz Tua, isso poderia implicar o pagamento “à concessionária, a EDP, uma verba orçada em cerca de 400 milhões de euros. Era-me pedido que tentasse negociar com a Unesco uma fórmula que permitisse a continuidade dos trabalhos, até que uma nova missão pudesse apreciar se os trabalhos de correção eram suficientes para acomodar as preocupações da Unesco.”

Tudo porque esta organização das Nações Unidas poderia, em última instância, retirar o “estatuto do Douro como património mundial” — uma classificação fundamental para a economia da região.

Seixas da Costa diz que se limitou a seguir as ordens do Governo, conseguindo com que a nova missão da Unesco viesse a Portugal, recomendando várias melhorias que foram executadas. “Uma dessas melhorias, recordo-me, foi o ‘enterramento’ da central elétrica, obra que, há pouco tempo, valeu um prémio arquitetónico ao arquiteto Souto Moura”, recorda o ex-embaixador que abandonou a carreira diplomática pouco depois disso.

Por outro lado, o ex-embaixador enfatizou ainda que o convite para administrador não executivo da EDP Renováveis como elemento independente “surgiu anos mais tarde, quando a minha experiência de administração em outras empresas já tinha mais de três anos”, como a Jerónimo Martins e outras sociedades.

Por isso mesmo, acrescentou, “constitui-se uma insinuação inqualificável que tal convite possa estar ligado ao trabalho que, em nome do Estado português e para defesa dos interesses desse mesmo Estado” o então embaixador desenvolveu junto da Unesco.

“Quem isso possa insinuar demonstra não ter o menor respeito pelo percurso profissional de quem dedicou, no seu todo, mais de quatro décadas ao serviço público, a cujo topo profissional chegou por mérito que nunca viu contestado, e que foi reconhecido pela mais elevada condecoração que um servidor público pode ambicionar”, afirma.

(Consultar o link aqui)

quarta-feira, fevereiro 19, 2025

Árabes


Chegou-me agora a notícia de que existe, na Torre do Tombo, uma "informação de serviço" por mim escrita, com 53 páginas (!), historiando as relações económicas entre Portugal e os Países Árabes (1970/1976). Estaria nos documentos de Melo Antunes. Não sabia que este tipo de trabalhos era conservado! Imagino que deva ser um texto chatíssimo! 

Língua portuguesa



Tive muito gosto em aceitar o convite que me foi formulado pelo jornal "Público" para participar, como orador, na conferência internacional "Da minha língua vê-se o mundo", que terá lugar no Centro Cultural de Belém, no próximo dia 5 de março.

terça-feira, fevereiro 18, 2025

Chinesices

É interessante a atitude chinesa ao afirmar que a Europa deve fazer parte das conversas sobre o futuro da Ucrânia. Marca uma distância face aos EUA e faz um gesto simpático para Bruxelas, neste tempo europeu de orfandade estratégica.

UE

A declaração de Moscovo de que não vê inconveniente numa adesão da Ucrânia à União Europeia, desde que excluída a adesão à NATO, é reveladora de que se conforma com uma Ucrânia (o que dela ficar) independente. Lembremos que, há três anos, tentou "bielorussificá-la".

Regra

Em diplomacia, em regra, não se improvisa. Dois líderes não se encontram para negociar, reunem-se para confirmar aquilo que, no essencial, já ficou acordado, a montante dessa reunião, e que cabe a eles anunciar. Toda a regra tem exceções, mas esta é a regra.

Fezadas

A sério que percebo a dimensão emocional da despedida de Pinto da Costa. Mas não percebi aquela cena de um bispo rodeado de taças no meio do relvado. Um pouco mais de contenção não faria mal à nossa igreja. Embora eu saiba que o mercado da fé não anda fácil...

"La Negra"


Vinha meio adormecido no banco de trás do Uber, de regresso a casa, ao final da tarde de ontem, depois de um dia intenso, com um sismo pelo meio. A voz que saía, límpida, da aparelhagem do Tesla, era-me familiar. O motorista, cuidadoso, talvez tendo notado o meu cansaço, tinha posto o som baixo. 

Perguntei-lhe: "Quem está a cantar?" Pelo retrovisor vi surgir-lhe um sorriso, ao dizer: "Es la Negra". O sorriso aumentou de expressão quando retorqui: "Mercedes Sosa?" O homem quase ia largando o volante, ao perguntar: "Conoce usted a Mercedes Sosa?" 

Era um chileno e devo ter subido logo uns pontos na sua consideração quando lhe disse: "Eu vi cantar Mercedes Sosa, "la Negra", há bem mais de trinta anos. Mas não me lembrava dessa canção".

Entretanto, com um pouco de conversa à mistura, cheguei a casa, com o motorista a despedir-se, visivelmente encantado por se ter cruzado com alguém que conhecia e gostava de "La Negra". 

Lembrei-me então do "meu" Chile.

O golpe militar que derrubou o governo de Allende, no Chile, em 11 de setembro de 1973, teve um forte impacto emocional na geração política portuguesa que, por cá, expressava então a sua revolta contra a ditadura. À época, eu fazia serviço militar e recordo bem acesas discussões por ali tidas com colegas conservadores, que se regozijaram com o êxito de Pinochet e dos seus esbirros. Acreditam se lhes disser que um deles me telefonou na manhã de ontem?

O 25 de Abril como que nos vingou e foi com um sentimento de forte solidariedade que, em Lisboa, a partir de 1974, viemos a conhecer alguns chilenos que haviam sido forçados ao exílio. Com eles, partilhámos o sucesso da nossa Revolução. Recordo-me de gente do MIR (Movimiento de Izquierda Revolucionaria), com quem passei horas à conversa nas instalações do MES (Movimento de Esquerda Socialista), na avenida dom Carlos.

Seis anos mais tarde, no meu primeiro posto no estrangeiro, na Noruega, vim a cruzar outros chilenos, expatriados nas mesmas condições. Os países nórdicos acolhiam então com generosidade essas pessoas, a quem facilitavam meios para a sua sustentação. A vida dessa gente era muito simples: empregos em fábricas ou serviços, habitações sem o menor luxo e, como pano de fundo de tudo isso, um ambiente de imensa saudade do seu país.

Um dia, em Oslo, fomos assistir a um espetáculo musical da argentina Mercedes Sosa, conhecida por "La Negra", uma cantora que, ao longo da vida, seria uma das vozes mais críticas das ditaduras militares latino-americanas. O seu "Gracias a la vida" marcava-nos então bastante.

Fui ao espetáculo num grupo de diplomatas, que, além de espanhóis e de um brasileiro, integrava um chileno, casado com uma paraguaia, e um casal colombiano. As questões políticas não atravessavam, por regra e por prudência, a conversa de todas aquelas pessoas, jovens profissionais da diplomacia, todos no seu primeiro posto no exterior, que se iam encontrando em agradáveis convívios ao final do dia de trabalho. 

Lembro-me que, à época, eu era, com toda a certeza, a pessoa mais à esquerda de todo aquele grupo, sendo que o chileno, que se chamava Enrique, representava ali o governo de Pinochet. Curiosamente, ambos ficámos amigos para a vida, sem termos tocado alguma vez em temas que pudessem trazer à tona as nossas óbvias divergências. Nas décadas profissionais que se seguiram, vim a apurar esta forma de estar na vida. Ainda hoje tento funcionar assim.

No final do espetáculo, vi os meus amigos latino-americanos a falarem com outras pessoas com a mesma origem geográfica, que ali tinham acabado de conhecer, todos unidos pela voz e pela música de "La Negra". Com o meu "portuñol", meti-me na conversa. E, numa dessas sintonias caídas do acaso, vi-me a trocar impressões com um chileno, que, no passo da conversa, me referiu ser um exilado. 

Era um homem magro, alto, de cabelo comprido, com maneiras suaves. O nome de Allende veio com naturalidade à baila, e ele revelou-me ser irmão da mítica "Payita", secretária de Salvador Allende. Num instante, alguma sintonia ideológica se estabeleceu entre nós. Trocámos telefones e, dias depois, o Fermin, era esse o nome do meu novo amigo chileno, convidou-me, a mim e à minha mulher, para uma almoço simples, num domingo, em sua casa. 

Vivia num modesto apartamento, numa zona menos nobre de Oslo, a que se acedia por uma escada esconsa. Lembro-me bem do aviso que me fez, logo que entrei na casa: "Daqui a pouco, vai chegar, para o almoço, o Enrique, o teu colega da embaixada do Chile. Não te espantes!" Eu espantei-me um pouco, confesso, mas ele logo explicou: "Ele é um chileno como eu e nem imaginas como me fará bem conversar com alguém que também vem do meu país. Temos de adiar a conversa política entre nós os dois para "unas copas", numa outra ocasião". 

E assim aconteceu. Minutos depois, chegaram o Enrique e a Monse. A política, quiçá estranhamente, não passou por aquelas horas em que a saudade dos dois foi atenuada por algumas garrafas de "Casillero del Diablo", um vinho assim-assim trazido pelo Enrique, o único álcool chileno que havia à venda no monopólio estatal de venda de bebidas alcoólicas, Vinmonipolet.

Se hoje tenho uma invejável colecção dos "Rolling Stones", em vinil, devo isso ao Fermin, um amigo magnífico, um revolucionário romântico, cujo partido esqueci, que trabalhava numa fábrica de discos e insistia em me municiar regularmente com exemplares do que ia saindo. Até rock norueguês tenho! Em algumas noites em minha casa, para as quais cuidávamos em não juntar à festa o diplomata chileno, para podermos conversar sobre as nossas afinidades políticas, ouvimos deliciados Violeta Parra e Victor Jara. E, para sempre, guardei a imagem de vê-lo chorar a escutar Zeca Afonso...

Pela vida, com grande pena minha, fui perdendo contacto com imensas pessoas que conheci. Uma delas foi esse meu amigo chileno Fermin, que conheci na Noruega, no final de um concerto de Mercedes Sosa, cuja voz acabei de ouvir, há pouco, num Uber conduzido por um chileno a quem nem sequer tive tempo de perguntar o que pensava do atual presidente Boric. Nem de Allende, claro. Se calhar, foi melhor assim!

Descubra as diferenças

É de facto chocante ver os EUA e a Rússia decidirem o futuro da Ucrânia, na sua ausência. Mas já pensaram bem no modo como o futuro do mundo foi decidido em Ialta, ou nos acordos sobre os outros que América de Reagan negociou com a União Soviética? Foi mesmo muito diferente?

segunda-feira, fevereiro 17, 2025

Papa

Agora, só faltava que nos viesse a faltar o papa Francisco e, numa daquelas rotatividades em que o Vaticano é useiro, saísse na sair na rifa um papa "reaça", mais ou menos a rimar com o poder na América. Já vi esse filme no passado e não gostei.

Ucrânia

É de um mínimo de bom senso que as tropas que possam vir a ser colocadas na Ucrânia, num cenário de pós-conflito, como forças de interposição, sejam oriundas de países que não tenham estado abertamente envolvidos no apoio militar a uma das partes.

Contudo, numa circunstância em que tiver sido acordada a necessidade de dar garantias de segurança ao governo de Kiev, é lógico que essa responsabilidade compita aos países que têm apoiado a Ucrânia. Mas isso não justifica ter tropas de Estados NATO com "boots on the ground".

A uma eventual Ucrânia neutral (como o é a Áustria, que não se fala que tenha ambições de entrar para a NATO) deveria, como garantia do respeito de terceiros por esse seu estatuto, ser fornecida uma proteção militar dissuasória de potenciais agressões externas. 

Aviso aos chatos

Bloquearei qualquer chato que ouse tentar dizer onde estava à hora do sismozito de hoje, como se aquilo fosse o atentado às torres gémeas, o incêndio do Chiado, a morte de Sá Carneiro ou, para os avós, o tiro no Kennedy.

Alguns

A cimeira europeia "de alguns", hoje promovida por Macron para reagir a Trump, vai contar com a extrema-direita de Georgia Meloni, que já foi ao beija-mão a Mar-a-Lago, e com o trabalhismo "ma non troppo" de Keir Starmer, que saltita de lealdades entre ambos os lados do Atlântico.

Lenin revisitado

Ontem, o presidente da Finlândia, Alexander Stubb, um país com uma geografia trágica mas muito sábia, a propósito dos frenéticos dias que o mundo vive, abalado pelas "novidades" que Trump não cessa de nos trazer, relembrou uma frase clássica de Lenin: "Há décadas em que nada acontece e há semanas em que acontecem décadas".

As balas de Tchaikovsky

Ontem, enquanto assistia a uma interpretação de uma obra de Tchaikovsky, lembrei-me da estupidez sectária que, em alguns países, proibiu (e não sei se ainda proibe) a exibição da obra deste e de outros compositores clássicos russos, na sequência da guerra na Ucrânia. Caso idêntico seria se, depois da carnificina ocorrida em Gaza, se viesse a gerar um movimento censório em torno das inúmeras manifestações de genialidade - artísticas, científicas ou outras - com que muitos cidadãos judeus têm contribuido para a cultura universal. O concerto de ontem, com a obra de Tchaikovsky como um prato forte, foi executado pelo pianista Yefim Bronfman, judeu, cidadão israelita e americano, nascido na antiga União Soviética. O bom senso deve acompanhar sempre o bom gosto.

"Fear or values - we must choose"

( This text was published in the Portuguese weekly magazine Visão ) Fear or Values – You Must Choose The flood of information around us brin...