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sábado, janeiro 10, 2026

"O medo ou os valores - escolham!"


Artigo que escrevi a convite da revista "Visão", na sua edição desta semana, sob o título em epígrafe


A avalanche de informação inunda-nos de temas inquietantes. Das guerras à desregulação climática, dos efeitos da Inteligência Artificial à crise global de confiança nos agentes políticos, da angústia de uma juventude com futuro problemático ao ambiente perverso em torno das migrações – criou-se a sensação de que as nossas sociedades estão, de forma crescente, a ficar sem soluções eficazes para a imensidão de problemas que as submergem.

Com alguma naturalidade, isso induz sentimentos de insegurança. Torna cada vez mais pessoas permeáveis à tentação por opções radicais, mesmo que isso signifique abandonar valores e princípios que, ainda há pouco, se davam como adquiridos e definitivamente aculturados na cidadania democrática contemporânea.

Não há uma resposta fácil e única para explicar o que nos sucedeu, mas arriscaria simplificá-la numa palavra: o medo.

O medo, enquanto força política, não é um sentimento meramente passivo. É um combustível ativo, sistematicamente refinado e injetado no debate público por algoritmos que privilegiam o escândalo e pela indústria do clickbait que monetiza a indignação.

Esta economia da atenção cria um círculo vicioso: a perceção de caos alimenta a procura por soluções simples, frequentemente autoritárias, que, por sua vez, degradam ainda mais os mecanismos complexos e deliberativos da democracia. A verdadeira crise, portanto, não é só a dos problemas, mas a da nossa capacidade coletiva de os processar sem pânico. A falsa solução é, claro, a do populismo.

O medo é respeitável, mas é sempre superável pela inteligência. As pessoas gostam de viver com previsibilidade, mesmo que ela comporte uma dose natural de risco. Todos podemos ser assaltados, mas gostamos da sensação de que, em grande medida, gerimos a geografia do perigo ao escolher os nossos caminhos. O que ninguém gosta, definitivamente, é da má surpresa que pode surgir depois de uma esquina, do confronto com o desconhecido ameaçador, para nós e para aqueles que protegemos.

Podendo isso não passar de uma ilusão, o cidadão comum foi levado a olhar para os poderes públicos como uma espécie de polícia da desregulação social. Compete aos políticos, em democracia, apresentar fórmulas para nos ajudar a gerir o dia seguinte. Ora, torna-se cada vez mais evidente que esses mentores da vida pública vivem sob um profundo desgaste de credibilidade. Isso conduz à perda crescente da sua eficácia como um fator indutor de segurança para as sociedades. Olhar para um agente político como um potencial suspeito de abusar do cargo para interesse próprio passou a ser uma atitude corrente.

Se este ambiente de suspeição resulta de culpa objetiva dos atores públicos ou de um ataque deliberado à sua legitimidade por incendiários de opinião, é uma segunda questão. O facto é que está criado um manto de dúvida sobre os agentes políticos.

Em democracia, a regra começa a ser o encurtamento da sua sobrevivência no poder, sob um estado mínimo de graça que lhes garanta eficácia. Acresce que a impopularidade dos partidos "catch-all", outrora hegemónicos, leva a uma fragmentação política crescente. Surgem partidos oriundos de nichos ideológicos, obrigando a coligações instáveis que geram crises cíclicas de ingovernabilidade.


Um Mundo dividido


Se este ambiente de dúvida corrói as democracias internamente, um sentimento análogo de insegurança também se instalou no plano global, em escassos anos.

Depois de uma Guerra Fria que abalou mas não pôs em causa o sistema pactado em 1945, vivia-se um ambiente de relativa acalmia. Acreditava-se que o derrotado na luta global aceitara a sua inferiorização e permitia a exploração do sucesso pelo vencedor. Fixou-se mesmo a ideia de que qualquer futura linha divisória do mundo já não passaria por ali. Essa ilusão morreu na Ucrânia.

A arquitetura institucional do mundo multilateral, com a ONU no centro e o direito internacional como norma, colapsou, afetando a confiança coletiva. O mais irónico é que os próprios Estados Unidos de hoje são "coautores" da desconstrução desses mecanismos de diálogo e confiança mútua. A cobardia moral que o mundo ocidental evidenciou depois em Gaza, e que a Europa prolonga hoje com o cinismo da sua realpolitik de poder acossado, completou esse quadro de afastamento de um mundo decente. O cidadão comum, que já via diluída a sua confiança nas estruturas nacionais, passou a confrontar-se com a ruína do quadro de referência global.


Que fazer?

Este texto não pretende ser sossegante, porque é também tributário da incerteza. Mas se a questão é saber a que devemos estar atentos no futuro imediato, a resposta é muito simples: aos valores.

Tenhamos nós as dúvidas que tivermos, e sem querer esboçar regras de autoajuda, entendo que a única forma responsável de olhar os tempos que se aproximam é sermos de uma extrema firmeza nos "basics" que nos servem de referência: olhar a política sempre sob o primado da democracia e da recusa do excecionalismo; agir em sociedade na permanente rejeição de ideologias sectárias ou discriminatórias; lutar pelo predomínio da verdade, denunciando a desinformação e expondo a falácia das perceções assustadoras.

Mas a firmeza nos valores de que falamos não pode ser uma declaração de intenções vaga. Exige uma prática quotidiana de cidadania exigente. Significa valorizar o jornalismo lento de investigação sobre o rumor viral; exigir transparência mesmo ao político do “nosso” campo; reconhecer a complexidade de um problema global em vez de culpar um bode expiatório local. Estes “basics” são o antídoto institucional e cultural: uma justiça independente e transparente, uma educação que ensine pensamento crítico e não apenas competência técnica, um espaço público onde o debate rigoroso não seja abafado pelo grito.

Combater, denunciar e educar contra o populismo do medo é a única palavra de ordem que vale a pena lançar: contra o medo ao diferente, ao diverso, ao contraditório.

2026 será um ano de desafios – a palavra com que a linguagem moderna gosta de exorcizar as dificuldades. Deixemo-nos de eufemismos: 2026 será um ano como qualquer outro, porque os novos anos carregam sempre todas as incertezas do futuro. A diferença estará em como o enfrentamos. Uns serão capazes de o fazer, afirmando e defendendo valores. Outros acobardar-se-ão, trocando princípios pela pressão dos receios, por mais primários que estes sejam.

É só escolher!

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