Como as sondagens há muito indicavam, o partido de extrema direita AfD, Alternativa para a Alemanha, obteve um excelente resultado nas eleições legislativas de domingo. Não vai ter possibilidade de entrar no futuro governo, mas o seu peso político está em crescendo, como em crescendo está o receio europeu de ver aproximar-se do poder, na Alemanha, uma força que não esconde a nostalgia por um passado que trouxe a tragédia e a devastação ao continente.
Por estes dias, tenho-me lembrado muito de uma pessoa cujo nome nunca soube, que só vi creio que menos de uma hora, vai já para seis décadas. Alguém que já deve ter morrido há muito, mas que deixou em mim uma imagem impressiva.
Este é um episódio que creio que já aqui contei, mas que agora me apetece repetir, depois do que passou nestas eleições alemãs.
Nesse final dos anos 60 e nos inícios de 70, passeei algumas vezes à boleia pela Europa, chegando até aos países nórdicos. De uma delas, tendo saído da Bélgica, eu atravessava a Alemanha, dormindo em vários locais. Já não recordo qual era a cidade alemã onde, naquele dia, eu pretendia chegar.
Sei apenas, de certeza segura, que o nome da localidade estaria escrito, em grossas letras, numa página branca de um grande bloco de argolas, preservado dentro de uma cobertura plástica transparente, para evitar uma eventual chuva. Tenho saudades de quando era assim imensamente organizado...
Eu estaria, ao que recordo, à entrada de uma autoestrada. A certo passo, parou um automóvel, conduzido por um cavalheiro que à época achei ser já bastante idoso. Num inglês algo macarrónico mas suficiente para uma conversa simples, confirmou o meu destino e convidou-me a entrar para o seu carro.
Coloquei a mochila no banco traseiro e sentei-me ao seu lado. Nesse instante, dei-me conta de que era uma pessoa que não utilizava os pedais da viatura, que tinha uma acentuada deficiência física. Vi que tinha manípulos junto do volante, para acionar o acelerador e o travão.
Terá sido porventura o olhar menos discreto que deitei para tão pouco usuais instrumentos que levou o meu disponível transportador a explicar que havia sido ferido na Segunda Guerra, como soldado da Wehrmacht na frente leste. "Foram os russos que me fizeram isto", disse, com uma voz cortante, para logo acrescentar: "E foram também os russos, durante a invasão do meu país, que mataram a minha mulher".
Estava feita, dessa forma simultaneamente simples e brutal, a sua apresentação. Não recordo pormenores da minha reação, talvez porque houvesse muito pouco que eu pudesse dizer, em face da tragédia que afetara, de forma tão marcada e definitiva, a vida aquele homem.
O tempo que então atravessávamos era de plena Guerra Fria, havia ainda o Muro e as duas Alemanhas. Os russos e a sua visível influência estavam por muito perto, a escassas centenas de quilómetros.
Perguntou-me de onde eu vinha. Ao ouvir o nome de Portugal, vi surgir-lhe na cara um esgar feito sorriso, creio que o único que lhe detetei em toda a viagem. "Você é de um país que tem a sorte de ter tido Salazar no governo. Como a Espanha tem, com Franco".
Comecei a perceber "do que a casa gastava". Mantive uma "cara de poker", terei dito umas banalidades factuais e preparei-me para uns minutos de convívio menos fácil. Por mim, a última coisa que me interessava era uma discussão política. Não me apetecia fazer teatro, mas também não queria irritar o homem, que se prontificara a levar-me no seu carro.
Ao ter ali ao lado um cidadão do país de Salazar, uma figura que muito apreciava, sentiu-se estimulado a continuar a falar contra os russos, contra o comunismo, mas também, na sua política interna, contra o executivo da "grande coligação", entre os cristão-democratas da CDU e os social-democratas do SPD, que então governava em Bona.
Uma sua "bête noire" era o então MNE Willy Brandt, que ele achava "um traidor", um esquerdista "vendido aos vermelhos". Ora eu, à época, até considerava Brandt um excessivo moderado, e a expressão "social-democrata" que o definia melhor do que a ninguém, tinha, no jargão político-radical do país político que eu então frequentava, uma sonoridade muito pouco positiva. Assim, por proverbial prudência, evitei produzir o mínimo comentário que pudesse potenciar a raiva que jorrava do discurso prolixo e incessante do meu interlocutor.
"Mas isto vai mudar, em breve, você vai ver! Aqui na Alemanha, estamos a organizar um novo partido, o NPD, e vamos dar a volta a isto. Um destes dias, vamos acabar com esses vermelhos e criar um regime novo. A Alemanha é um grande país. Temos de resgatar a nossa memória e deixar de ter complexos quanto ao regime que tivemos durante a guerra, que só foi derrotado pela aliança entre as democracias corruptas do ocidente e os bandidos comunistas. Vou hoje para uma reunião do NPD onde, com alguma gente que combateu na Wehrmacht, mas também já com muitos jovens patriotas, estamos a preparar o futuro. Os Brandts e estes traidores que nos governam vão ter a devida lição".
Importa lembrar, chegado a este ponto, que o NPD foi um partido neonazi criado em 1964, que nunca conseguiu fazer-se eleger para o parlamento federal, mas que chegou a estar representado em assembleias estaduais. A sua influência foi sempre muito diminuta na política alemã e alguma radicalização da conservadora ala bávara dos cristão-democratas, a CSU, de Franz-Josef Strauss, terá contribuído para esse inêxito. A AfD na qual ontem votou um em cada cinco alemães, é o herdeiro do NPD a que o meu companheiro de viagem estava ligado.
Uma viagem que estava a ser-me bastante incómoda. Eu olhava a estrada, mantinha-me o mais silencioso que podia, enterrado no banco do automóvel, desejoso que aquilo acabasse rapidamente, um pouco perturbado por aquele insólito encontro com uma Alemanha que apenas pelos jornais sabia que existia.
Num certo momento, num cruzamento, numa zona urbana, tive uma inspiração: disse-lhe que, afinal, tinha mudado de ideias e que ficaria por ali, mudando os meus planos de percurso. Parou, eu retirei a mochila do banco de trás, agradeci a amabilidade da boleia e ele desejou-me umas férias felizes no seu país.
Quando fiquei sozinho, antes de repensar o novo trajeto, devo ter matutado que levava daqueles penosos minutos uma boa história para contar à família e aos amigos. Nunca pensei que viria a pô-la numa coisa chamada blogue.
Hoje quase ninguém anda à boleia, mas começa a haver muitos mais neonazis e gente congénere por aí.
Sem comentários:
Enviar um comentário