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sábado, janeiro 03, 2026

Depende


Há pouco, na rua Direita, naquela que, em outros tempos, foi a artéria mais movimentada de Vila Real, hoje um quase deserto em matéria de comércio, deparei com este letreiro. E dei comigo a pensar que, se o meu amigo José Araújo, Zé Foquita para a memória da cidade, fosse vivo, estaria a rabujentar com o nome. Porquê? Porque, na avenida Carvalho Araújo, ele tinha a sua Galeria d'Artes e ai de quem lhe fizesse sombra! Mas nem o Zé é vivo há muito nem as duas lojas coincidiram no tempo, pelo que esta nota acaba apenas por ser um pretexto para a historieta que vou contar.

O Zé era um comerciante bastante atípico. Na sua loja de antiguidades e velharias, nem sempre era fácil comprar alguma coisa. Tinha mau feitio e, se embirrava com o potencial comprador, ou se estava relutante em desfazer-se de uma peça, começava com circunlóquios que logo afastavam a clientela. Assisti a algunas cenas dessas.

Terá sido esta última circunstância que, um dia, o meu pai, que o conhecia quase desde criança, experimentou. Entrou na loja do Zé, que era nosso vizinho de porta na avenida central da cidade, e perguntou quanto custava um relógio francês, com pêndulo de violão, que se via da rua. Desde sempre, o meu pai teve um fascínio por esse tipo de relógios. Herdei três! 

O Zé, que pelos vistos estaria num dos seus dias de não querer vender, respondeu-lhe: "Depende, senhor Costa". O meu pai ficou intrigado. "Depende de quê, senhor Araújo?" E o Zé sai-se então com esta: "Depende do preço que eu pedir: tanto posso pedir nove, como dez ou doze contos por ele..." O meu pai rodou os tacões, ao mesmo tempo que lhe disse: "Estou esclarecido, senhor Araújo!" Chegou a casa furioso: "Aquele teu amigo não regula bem da cabeça!" E contou-me o episódio.

Nesse ou no dia seguinte, no balcão da Gomes, junto à máquina do fiambre, onde o Zé se encostava para fumar, de samarra sobre os ombros (em Vila Real, "homem que é homem" não veste a samarra, "para não dar confiança ao chiasco"), perguntei-lhe: "Então não quiseste vender um relógio ao meu pai? Disse-me que lhe deste uma resposta muito estranha". 

O Zé riu-se: "O teu pai não percebeu o que eu lhe disse e saiu logo da loja, sem me dar tempo de lhe explicar que eu tinha ali o relógio à consignação e que o proprietário ainda não tinha decidido qual o preço exato que ia pedir". 

Quando, ao fim do dia, contei a resposta do Zé ao meu pai, este não me pareceu muito convencido: "Esse teu amigo anda sempre contra o vento..."

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