sexta-feira, novembro 13, 2020

Square one?


Nos jogos de salão, com dados, há um resultado que obriga ao regresso à primeira “casa”. Há dias, ao ouvir alguns comentários sobre o que se espera do novo presidente americano, em termos da sua atuação na ordem internacional, quase me pareceu que se prenunciava um regresso ao início do “jogo”, ao tempo antes de Trump.

Fazer de conta que Trump não existiu, que é possível voltar ao que muitos acham terem sido os “good old days” de Obama, é pura ilusão. Os países não são jogos. A América depois de Trump será, goste-se ou não, a América pela direção da qual a presidência Trump entretanto passou. E isso deixou marcas. E feridas, lá e nos outros. Mas é natural que algumas das decisões do presidente cessante venham a ser revertidas, embora provavelmente com um afã menor do que ele utilizou para tentar desmantelar o Obama tinha feito.

Vale a pena dizer, para sermos totalmente honestos, algo que, podendo não soar muito bem aos ouvidos de alguns, é uma pura verdade: a herança de Obama, em termos internacionais, é medíocre. A segurança do mundo, no fim dos seus oito anos, não estava em melhor estado do que aquela em que ele a encontrou – e isto, note-se, na sequência do desastre, quase criminoso, que George W. Bush tinha entretanto provocado.

Não tendo conseguido ter tempo para montar a agenda contra a China que tinha em carteira – isto, quase sempre, não é tomado em conta –, por ter ocorrido o 11 de setembro, a administração Bush atuou com toda a legitimidade no Afeganistão, com o apoio não apenas dos aliados como de outros parceiros, estes últimos aturdidos com a condenação esmagadora da barbárie terrorista.

Só que a América, tal como aqueles construtores civis que sempre nos convencem a fazer mais qualquer coisa na obra, na lógica do “já agora!”, achou que tinha de “explorar o sucesso”, como se diz em linguagem militar. Não só começou a entrar em “águas territoriais” russas, na Ásia Central e no Cáucaso, como mexeu no vespeiro do Iraque, tornando-nos a todos usufrutuários do Estado Islâmico, de que foi o involuntário criador. Recuou, ambas as vezes.

Obama herdou essa realidade e, sentindo o tropismo nacional favorável a um recuo do intervencionismo, foi incapaz de montar uma “exit strategy” minimamente eficaz. Lidou pessimamente com as “primaveras árabes”, deu vento ao aventureirismo franco-britânico na Líbia, hesitou no modo como tratar com a Turquia e Israel, revelou-se tíbio na Síria e na Ucrânia, deixou os aliados do Golfo em orfandade e apenas desenhou uma estratégia de contenção económica das ambições chinesas. O seu saldo é pífio e nem sequer com a Europa conseguiu estabelecer um laço sólido e operativo, salvo no acordo nuclear com o Irão.

Alguns dirão: mas, se passamos o tempo a acusar os Estados Unidos de excesso de intervencionismo, que autoridade temos para condenar aqueles que, em seu nome, procuram recuar dessas atitudes intrusivas?

Temos esse direito: é a mesma América que está em ambos os movimentos. A uma potência que se imiscui nos assuntos dos outros, à luz de uma leitura unilateral dos seus interesses, que tenta fazer passar por desideratos do mundo livre, é exigível que os “phasing out” dessas situações sejam feitos de forma responsável e, em especial, sem com isso fazer incorrer a outros, nomeadamente aos seus aliados, riscos que eles não criaram.

O modo como a América de Obama estava a sair da Síria já era irresponsável. Trump seguiu a mesma linha e, como que por “subcontratação”, deixou esse dossiê nas mãos da Rússia, que nunca esteve tão forte e presente na região. E, “para inglês ver”, deixa agora pelo Médio Oriente uma frágil aliança de pânico contra o Irão, em que mistura Israel e os regimes medievais do Golfo. Ao mesmo tempo, anuncia-se um novo caos no Afeganistão, onde a América enterrou muitos milhões de dólares, e os aliados europeus demasiadas vítimas, sem o mínimo resultado.

Esperemos pela política externa de Joe Biden. E que seja nova, não um “remake” de qualquer passado. Não se regressa à “square one”.

No fim do buraco

 


Da notícia, ontem à tarde, só vi o título, que dizia que a Apple ia ficar com as instalações de um restaurante de luxo, no Porto. Fiquei curioso, embora não espantado. A pandemia está a arruinar o setor da restauração e, neste, os espaços de maior luxo, aqueles que são muito impulsionados pelo turismo, estão a ser fortes vítimas. 

Qual era, então, o restaurante “de luxo” que a notícia dizia que ia fechar? Nem o restaurante era de grande luxo, nem sequer ia fechar, sendo transferido para outra área do imenso edifício onde estava instalado, debaixo do Hotel Intercontinental.

Trata-se do Café Astória, uma “marca” consagrada no imaginário portuense. Desde há alguns anos, o antigo café, embora mantendo o mesmo nome, tinha passado a restaurante. Era relativamente sofisticado, tinha um carta interessante, mas não se pode dizer que fosse de luxo. A relação qualidade/preço, com uma simpática decoração a ajudar, era bastante boa.

O Café Astória é um café com alguma história. Situado na esquina do Passeio das Cardosas, no fundo da Praça da Liberdade, a sua entrada dava para a estação ferroviária de S. Bento, que, ao contrário do que hoje acontece, foi, durante muitas décadas, o termo de quase todos os comboios que chegavam à cidade. E um café em frente a uma grande estação tinha então muita importância.

O Astória abria muito cedo. Muito mais cedo do que os vizinhos Imperial, Embaixador ou Brasileira. Lembro-me de aí se poder tomar (o último ou o primeiro, dependendo do freguês) café às seis da manhã, tendo a abertura, mais tarde, passado para as sete, ao que vim a saber. 

Na Baixa do Porto, a casa que encerrava mais tarde era a Stadium, uma espécie de bar na zona sul da rua do Bonjardim. Fechava às cinco. Começava então o “buraco”. 

O “buraco” era a designação que dois notívagos colegas - o Tavares e o Susano -, vagos estudantes de Economia, chamavam à hora que mediava entre o fecho da Stadium e a abertura do Astória. Mais velhos do que eu, tinham-me “adotado” para essas aventuras, às vezes com outros colegas.

Lembro-me de algumas noites começadas a jantar no Ginjal, pouso de algumas horas na Candeia, na rua do Almada, com um salto à Japonezinha, na praça da República, que acabavam inevitavelmente na Stadium. Depois, para “encher o buraco”, passeávamos até à ponte dom Luís. 

Não se bebia muito, nem eu tinha dinheiro para grandes folias, mas eles tinham artes de conseguir “estacionar”, sem gastos, por essas casas da boémia portuense, julgo que graças ao estatuto de universitários e à cumplicidade adquirida dos porteiros. Víamos o que por ali andava, entremeando com conversas interessantes e alguns conhecimentos de ocasião. Às vezes, recordo, essas noites tinham mesmo muita graça, naquilo que foi a minha iniciação à “grande cidade”.

Às seis, acabado o “buraco”, bebíamos um galão e uma torrada no Astória, antes de recolhermos aos lares universitários respetivos, eles na rua do Rosário, eu na Torrinha. 

Não é impunemente que demorei dois anos para fazer duas cadeiras, no meu nunca acabado curso de Engenharia Eletrotécnica. Mas a verdade é que só tive 18 anos uma vez na vida.

quinta-feira, novembro 12, 2020

As meninas da rampa


Quem se lembra? Era a meio da rampa do Calvário, lá por Vila Real, nos tempos em que o fluxo de trânsito era outro.

Os instrutores de condução levavam por ali os instruendos a aprender a fazer “inversão de marcha” - tal como os ensinavam a estacionar entre as árvores, a caminho da Meia Laranja. Os carros eram sempre uns Volkswagen ”carocha”, com dois volantes.

Era então uma delícia ver os atrapalhados alunos a fazer “ponto de embraiagem”, para a frente e para trás, com as mudanças “a arranhar”, fortes gemedeiras do motor, frequentemente a “ir-se abaixo”.

Lembro-me de meninas de pescoço esticado para os retrovisores, bem agarradas ao volante, afogueadas e coradas, pelo esforço que lhes era exigido, somado à “vergonha” pelos nossos olhares e ditos atrevidos. Elas apressadas pelo embaraço, nós sem ter nada para fazer, na cidade chata de então.

E recordo-me bem do olhar feroz do senhor Miguel do Bazar, de cotovelo de fora da janela da porta do carro, a ouvir o Olívio das bicicletas recomendar, da comodidade gozona do passeio: “Ó menina! Meta bem a primeira!”

Ainda Ribeiro Telles


A morte de Ribeiro Telles leva-me a contar, de novo, um episódio que creio que já aqui referi um dia.

É uma história que Nuno Brederode Santos ouviu a Melo Antunes, passada num Conselho de Ministros nos tempos do PREC. Nem o Nuno nem o Ernesto Melo Antunes já estão vivos para fixarem melhor os pormenores do episódio, que o primeiro contava, com a sua graça insuperável, nas grandes noites da “mesa dois” do Procópio. Vou tentar ser fiel àquilo que me lembro de ter ouvido.

Nesse ano de 1974, durante um dos três primeiros governos provisórios, o primeiro-ministro Vasco Gonçalves decidou levar a conselho de ministros o tema dos efeitos negativos de certas ações humanas na mudança no habitat que tradicionalmente acolhia a passagem de aves pelo estuário do Tejo.

A título excecional, para abordar o tema, decidiu convidar para ir ao conselho, para apresentar o assunto, o subsecretário de Estado Gonçalo Ribeiro Telles.

A temática ambiental, por essa época, era um assunto ainda muito pouco mobilizador, tratado mesmo com alguma sobranceria, pela classe política.

Ribeiro Telles, que os anos viriam a demonstrar que tivera razão antes do tempo, preocupava-se genuinamente com o assunto, mas, nesses dias de “politique d’abord”, era ainda difícil para ele captar a atenção dos seus pares.

Acresce que esse Conselho de Ministros estava estão, em absoluto, concentrado num determinado tema, sobre o qual era fundamental conhecer a posição do PCP, pelo que era importante ouvir o ministro sem pasta Álvaro Cunhal.

Naquela mesa em forma de ferradura, fechada no fundo, que Marcelo Caetano mandara construir, muito poucos anos antes, numa sala do primeiro andar da residência oficial de S. Bento (ainda por lá me sentei uma meia dúzia de vezes, vinte anos depois), Cunhal tinha um dos lugares imediatamente à esquerda do primeiro-ministro Vasco Gonçalves. À sua direita, o primeiro-ministro tinha sentado Ribeiro Telles.

Depois de uma (como habitualmente) longa introdução de Vasco Gonçalves, com que abriu o debate, iniciou a “volta à mesa” pela direita, isto é, por Ribeiro Telles.

À medida que este falava, percebeu-se que tinha aproveitado o ensejo para derivar para uma interpretação profunda das decorrências ambientais do que se pretendia fazer no estuário do Tejo. De certo modo, o raciocínio, típico do mundo do ambiente, era uma versão daquela metáfora científica consagrada de que “o bater de asas de uma borboleta no Brasil pode provocar um tufão no Texas”. Ribeiro Telles explicava as consequências multiplicadoras de uma possível interrupção do pouso no Tejo das aves, no seu ciclo migratório.

Para o que aqui interessa, tratava-se de uma abordagem que, pela sua tecnicidade, suscitava um interesse apenas limitado por parte dos restantes membros do governo presentes. Ao que reza a crónica que me chegou, a maioria começava a revelar a sua impaciência: ansiavam ouvir o que Cunhal tinha para dizer e isso só ocorreria no fim da ronda de intervenções iniciada em Ribeiro Telles e que nele estacara.

Como sempre acontece nestas ocasiões, em que o que os outros dizem começa a interessar menos, a sala foi invadida por diversas conversas a dois entre membros do governo vizinhos de mesa, criando um crescente “bruá” de fundo que indisciplinava o exercício.

Vasco Gonçalves, ao contrário dos seus ministros, mostrava-se interessadíssimo naquilo que Ribeiro Telles dizia e, por mais de uma vez, pediu “silêncio” aos impacientes governantes. E, para crescente desespero destes, ia mesmo colocando questões ao interventor, inquirindo sobre pormenores que Ribeiro Telles, com o maior agrado, lhe ia detalhando, alongando assim, perante a impaciência geral, o seu tempo de palavra.

Foi numa dessas perguntas que o primeiro-ministro inquiriu: “E que ave seria mais prejudicada, nas suas migrações, por essa possível intervenção?” Ribeiro Telles respondeu-lhe: “O maçarico de bico direito”.

Nessa altura, as conversas na distraída sala estavam a tornar o Conselho já um tanto caótico e Vasco Gonçalves, desagradado, deu então um murro na mesa e, elevando a voz e com cara grave, disse: “Senhores ministros! Peço o favor da vossa atenção! O senhor engenheiro Ribeiro Telles está a falar sobre o maçarico de bico direito”.

A sala “acordou”, não tanto por um remorso de atenção, mas numa genuína gargalhada coletiva. E, agora já perante as caras sorridentes de todos, com Vasco Gonçalves furioso, Ribeiro Telles lá concluiu a sua explicação sobre os riscos que impendiam sobre o futuro do maçarico de bico direito, se privado de amarar no nosso Tejo e zonas adjacentes.

Minutos depois, finalmente, Cunhal teria oportunidade de intervir sobre o tal tema grave que a todos preocupava, quiçá, embora injustamente, um pouco mais do que o destino da ave que, por instantes, pousara, com inegável graça, nesses dias da Revolução.

Ribeiro Telles pode ter sido pouco ouvido nessa ocasião. Mas o tempo veio a provar que, afinal, era ele quem tinha razão ao dar voz e razão às questões ambientais que hoje determinam o nosso futuro.

quarta-feira, novembro 11, 2020

Conversas globais


O jornalista e professor universitário Pedro Pinto conversou na TVI com 27 pessoas, em 2019 e 2020 - sobre globalização, China vs EUA, economia portuguesa, competitividade europeia, robótica e digitalização e, nos últimos tempos, também sobre a pandemia.

O resultado dessas conversas está agora em livro. Por ali estão as ideias de figuras como Paulo Portas ou Mariana Mortágua, Jorge Braga de Macedo ou Fernando Rosas, António Costa Silva ou Carlos Moedas, entre outros. Como foi também o meu caso.

Gonçalo Ribeiro Telles


2020 é um ano sinistro. Com 98 anos, desaparece hoje Gonçalo Ribeiro Telles.

Somos um país com muito poucas unanimidades. Ribeiro Telles fazia parte das escassas figuras, em Portugal, que merecia um generalizado respeito. Isso era devido à sua obra profissional mas, essencialmente, por ter visto, antes de quase todos, a importância das questões ambientais para o nosso futuro coletivo e de ter tido a coragem e o desassombro de nos alertar para elas, num tempo em que fazê-lo era considerado uma bizarria, quase uma ideia ridícula e sem sentido. 

Gonçalo Ribeiro Telles foi um cidadão de bem, cujo empenhamento cívico, sem abandonar a bandeira monárquica que sempre foi a sua, honrou o país e a nossa democracia. 

Deixo aqui um abraço sentido ao seu filho Francisco e, nele, a toda a família enlutada

Paridade


E ninguém faz o favor de notar que, após a sua última recomposição e para os próximos três anos, no Conselho Geral Independente (CGI) da RTP, órgão que escolhe a administração da empresa e vela pelo cumprimento do serviço público, vai passar a haver uma perfeita paridade homens-mulheres (três cada)?

Alguém é capaz de indicar uma outra estrutura em que as coisas se passem desta forma?

Artur Portela


Morreu Artur Portela. Há minutos, um jornalista pediu-me um comentário sobre a sua figura. Tive de dizer-lhe que, embora conhecendo muito bem a sua obra, só o tinha encontrado uma única vez.

Foi há poucos anos, num almoço com amigos comuns, organizado precisamente com esse objetivo. Recordo-me de lhe ter então dito que julgava ter lido todos os seus livros - e não foram tão poucos como isso. “Também os da fase ‘nouveau roman’?”, estranhou. “Claro! O ‘Avenida de Roma’ e o ‘Rama, verdadeiramente’ “, assegurei, para espanto dele.

Mas julgo não lhe ter referido que, então com bastante menos prazer, porque estava à época no outro lado da “barricada”, também recordava os seus (politicamente ácidos) editoriais no “Jornal Novo”, um órgão de combate político por ele dirigido e criado por quem se opunha ao PREC, o que não era o meu caso.

Artur Portela (assinou, por muito tempo, Artur Portela Filho, para não se confundir com o pai, também um grande nome do jornalismo português de outros tempos) dirá pouco às novas gerações. E, no entanto, essa figura consagrada do mundo da publicidade foi uma personalidade muito original na nossa imprensa, devendo-se-lhe também algumas incursões interessantes na literatura e até na história. 

Entre o muito que fez, relevo que Portela trouxe um novo estilo à crónica de atualidade. A leitura da sua coluna “A Funda” - publicada no “Jornal do Fundão” e, depois, no “República” - tornou-se num vício para muita gente, desde logo para mim. Nunca esquecerei ”Os Árabes da Rua do Século”, um texto antológico a gozar a patranha que um grupo de foliões pregou ao jornal “O Século”, tendo como vítimas Roby Amorim e José Mensurado. 

Mas também recordo a dimensão polémica da sua vida de publicista, porque Portela não fugia a ela - e quem é do meu tempo e estava atento a esses meios tem, com certeza, bem presente uma deliciosa e famosa troca de argumentos com Mário Castrim, no “Diário de Lisboa”.

Na língua portuguesa que Portela usou nos seus textos, de forma imensamente criativa, é clara a influência de Eça de Queiroz - de quem teatralizou “A Capital”, o que motivou um artigo crítico meu, no “Comércio do Funchal” (ou seria no “& etc”?), intitulado “Ora Eça, ó Portela!”, creio que em 1972. 

Julgo ter-lhe referido isto, durante a chanfana que partilhámos, servida pelo João “Espetáculo”, na Imperial de Campo de Ourique, onde agora não tenho ido, por precaução contra a Covid. A mesma Covid que, ao que leio, apanhou Artur Portela, aos 83 anos.

O império


Vi por aí uma polémica em torno de um cantor, autor de uma canção com o título de “Império”. Confesso que a minha curiosidade não vai ao ponto de ir ouvi-la.

Mas a polémica lembrou-me o Alberto. O Alberto era o meu cozinheiro em Luanda. Herdei-o do meu antecessor, tal como a lavadeira, a Domingas.

O apartamento em que eu ia ficar instalado, na marginal de Luanda, nesse longínquo ano de 1982, “eclipsou-se”, da noite para o dia, entre a partida desse meu colega e a minha chegada. Parece que foi “requisitado” pela Secretaria de Estado da Habitação local, embora a doutrina se divida sobre o que realmente se passou.

Quando cheguei a Luanda, instalei-me num hotel, num tempo em que a penúria de bens também atingia essas unidades. E aí tive de viver quatro meses, com as minhas mobílias encaixotadas na embaixada, até que arranjei uma nova casa. Foram tempos bastante complicados, mas ser novo ajudava.

O Alberto apresentou-se “ao serviço”, logo no meu primeiro dia de Angola. Por meses, não tive nada para lhe dar que fazer, embora pagando-lhe sempre.

Achei contudo estranho encontrar o Alberto, várias vezes, pelas escadas da embaixada, ao longo desse tempo. “O que anda a fazer por aqui?” (eu nunca consegui tratar um empregado, ou um soldado, por tu). Ele metia os pés pelas mãos, até que alguém me explicou: a embaixada tinha um acordo com uma padaria e o meu antecessor recebia uma partida de pão todos os dias, que era essencial para a alimentação da família do Alberto, que tinha muitos filhos e vivia num musseque junto ao aeroporto. Essa “pontualidade” ao serviço tinha, assim, uma explicação simples...

O Alberto, Resende de apelido, já não devia ser novo, porque tinha passado a idade militar. Tinha uma cara séria, fechada. Com o tempo, tive ocasião de apreciar esse fácies com ar de zangado. É que os problemas só surgiam quando o Alberto sorria: significava que tinha bebido, e isso acontecia bastantes vezes.

Sóbrio, o Alberto era um razoável cozinheiro, não o estando era um trapalhão e era preferível mandá-lo para casa. Quantas vezes, ao abrir-lhe a porta, de manhã, deparando com um sorriso escancarado e um hálito inconfundível, eu lhe dizia: “Vá-se embora, Alberto. Volte amanhã!” E o Alberto rodava os calcanhares e zarpava de volta ao musseque... com o pão do dia, claro.

Para além do resto dos copos de vinho, de toda a gente que tinha estado à mesa, num almoço ou jantar lá em casa, que ele escorropichava da bandeja entre a sala e a cozinha, o Alberto era fã de “caporroto”, uma aguardente cuja fermentação era às vezes acelerada com uso do ácido de pilhas elétricas... A sério! Uma vez provei! Não era mau de todo...

Um dia, fui com o Alberto à Corimba, um subúrbio de Luanda, no meu carro, buscar qualquer coisa para casa. Em Luanda, nesse tempo, passávamos metade do tempo a tentar arranjar coisas para comer e a outra metade a comê-las, em jantaradas com os amigos. Também havia bastante trabalho e tempo para dormir, claro!

Nessa viagem, pela estrada acidentada, a fugir aos buracos, perguntei ao Alberto que diferenças ele achava que havia em Angola, desde a independência, que tinha ocorrido apenas sete anos antes. Vivia-se então em guerra civil, Luanda era uma cidade sitiada, parte do país estava a ferro e fogo.

O Alberto nunca me pareceu ser um grande fã do MPLA. Sempre desconfiei que tinha simpatias pela Unita. Ele era de Sumbe, antigo Novo Redondo, uma localidade que ficava a algumas horas de Luanda, por uma estrada que, com o tempo, veio a tornar-se muito perigosa. Depois da independência, Sumbe chegou a chamar-se Nzunga Cabolo, até a historiografia do MPLA ter descoberto que esse herói tinha tido os seus “podres”. O Alberto, às vezes, enganava-se e falava da sua terra como Nzunga.

Nessa conversa, e via-se que o fazia com naturalidade, sem ser para me agradar, o Alberto disse muito bem do “tempo do colono”, designação muito comum em Angola, para identificar a época local “da outra senhora”. Esse tinha sido um período, segundo ele, em que “os mercados estavam cheios”, as estradas não tinham covas, “as coisas funcionavam”. A certo ponto da conversa, entusiasmou-se e disse mesmo: “Os portugueses deviam regressar”.

Achei aquilo um tanto exagerado e retorqui: “Mas quer que Angola volte a ser colónia de Portugal?” O Alberto olhou-me, com a cara séria que era a sua, e afirmou, com clareza: “Não, não! A independência é nossa, ninguém a leva!”. Tomei nota. O Alberto tinha toda a razão. E hoje é 11 de novembro, dia da independência de Angola.

Ao ouvir falar hoje de “império” lembrei-me desta conversa com o Alberto Resende, meu cozinheiro em Luanda. Que será feito dele?

Declaração para o Fórum Demos

 "Só o tempo nos dará bem a noção do tempo, e dos estragos feitos nesse tempo, que estes quatro anos de Donald Trump fizeram perder ao mundo. No que toca à Europa, de cuja unidade no pós-2ª Guerra Mundial os Estados Unidos foram o grande promotor, a América de Trump revelou-se um aliado hostil, agravando o relacionamento com os parceiros e favorecendo mesmo alguns fatores desagregadores, como o Brexit. A meu ver, a grande distância, contudo, a mais gravosa atitude de Trump foi a sua oposição ao Acordo de Paris, um passo vital para a sobrevivência da humanidade, que o presidente americano tornou refém de interesses económicos de curto prazo. A reversão dessa insensatez foi já anunciada por Joe Biden. Esperam-se também da nova administração, ainda na área multilateral, gestos concretos para recuperar o caos que os EUA induziram na funcionalidade da Organização Mundial de Comércio, bem como na revitalização e credibilização da Organização Mundial de Saúde. E um regresso à Unesco. No plano bilateral, veremos se a sintonia que os democratas têm com os republicamos na questão da China se expressa ou não num discurso diferente. O possível regresso dos EUA ao acordo gizado pela administração Obama, com aliados europeus, para conter as ambições nucleares do Irão é outra das questões a observar. Do mesmo modo, como se comportará a nova América quanto a outros “avanços” entretanto ocorridos no cenário do Médio Oriente. A embaixada dos EUA volta a Tel-Aviv? E as relações com a Rússia? Depois das “cumplicidades” de Trump com Putin, que fará Biden? E a Coreia do Norte? E a Venezuela? E Cuba? E Guantanamo? A prometida “Cimeira das Democracias” pode fazer perigar a inclusividade da ordem internacional, tutelada pelas Nações Unidas, introduzindo uma nova clivagem à escala global? Até ver, António Guterres tem razões para dormir descansado - e razões para crer que o poderá continuar a fazer em Nova Iorque no próximo quinquénio."

Um manifesto de decência


Um texto publicado ontem no “Público”, subscrito por figuras da direita, situadas numa faixa etária que, em média, deve rondar os 40 e poucos anos, assume-se como um separador de águas entre esse grupo de “conservadores, liberais, moderados e reformistas” e uma “direita autoritária”, com uma postura “nacionalista, identitária e tribal”, que por aí anda.

Devo dizer que, independentemente de interpretar a presença de alguns nomes dentre os subscritores como uma reserva de mercado para as suas próprias apostas partidárias, vi esta tomada de posição como a coisa mais saudável que, nos últimos anos, surgiu oriunda daquela área política.

Era tempo da direita democrática, sem a presença ativa da qual o nosso regime constitucional não tem o menor sentido, deixar uma nota explícita de repúdio pela sua frequente amálgama com algumas correntes populistas, com laivos racistas e xenófobos, no limite com contornos fascistas e afins.

A culpa de se ter deixado envolver pela caricatura resultou do silêncio até agora mantido por essa mesma área política, como o surgimento deste texto bem evidencia. Mas esta é também uma bela justificação para os seus adversários, nos quais me incluo, passarem a olhar este setor, sempre e quando a sua postura e ação se afirmar no sentido que agora revelou, como um parceiro na defesa do processo democrático.

Não é uma coincidência que o texto tenha surgido depois do anúncio do compromisso, em termos escritos, entre o Chega e a coligação que agora assume o governo dos Açores. E porque o não é, este manifesto acaba por ser uma manifestação de repúdio daquela obscena aliança.

É muito saudável para a salubridade da nossa vida política ver alguma direita democrática afastar-se de um ato de puro oportunismo, que abre a porta e estende a mão a um partido que traz consigo uma agenda que cavalga medos, preconceitos e sentimentos mesquinhos, indignos de um mundo civilizado e tolerante. E, como bem refere o texto, não é por outros, à esquerda, terem “cedidos a frentismos que anteriormente rejeitavam” que, do outro lado do espetro político, se vão “cooptar radicalismos de sentido contrário”.

Mas o Chega não é um partido legal? Claro que é. Cumpre formalmente os requisitos para se enquadrar na moldura constitucional. Porém, o seu discurso e propostas têm demonstrado que alimenta uma doutrina que o coloca, claramente, fora dos limites da decência política democrática, como os subscritores deste manifesto bem observaram. Coisa que, pelos vistos, o Dr. Rui Rio não terá visto.

terça-feira, novembro 10, 2020

Ditos

Nunca como nesta pandemia vi melhor aplicada a velha fórmula “querer sol na eira e chuva no nabal”. Ou a tradicional expressão anglo-saxónica NIMBY (“not in my back yard”). Ou, ainda, o dito popular antigo “só sábios éramos sete”. Por este andar, alguém ainda cita uma frase clássica da Dra. Manuela Ferreira Leite!

segunda-feira, novembro 09, 2020

Cruzeiro Seixas



Morreu ontem, à beira de fazer 100 anos. Artur Cruzeiro Seixas foi uma grande figura da cultura portuguesa, da pintura à poesia. A coincidência do nome comum não nos tornava parentes.

Conheci-o em 1975, através do meu primo e seu grande amigo Carlos Eurico da Costa, colega no Grupo Surrealista de Lisboa. Jovem diplomata, eu trabalhava no recém-criado setor da cooperação para o desenvolvimento. Cruzeiro Seixas tinha a intenção de ir como cooperante para a Guiné-Bissau independente. Falámos umas boas horas.

Há não muito tempo, retomámos essa conversa com mais de 45 anos, num jantar simpático de amigos. Recordo-me que gostou de ver, numa minha parede, um seu quadro. Tinha uma imensa lucidez e uma bela memória. Queixou-se-me de que, no sítio onde passava os dias, tinha pouca gente com quem pudesse ter uma conversa com interesse. Mas gostava muito da vida.

A hora de Cinderela


Em 1983, quando vivia em Luanda, colocado na nossa embaixada, foi, a certa altura, decretado um recolher obrigatório, que, ao que recordo, se prolongou por um período superior a dois anos. As embaixadas tinham livre-trânsitos próprios, mas, mesmo assim, a circulação nesse período era muito pouco confortável. Havia controlos armados em certos pontos da cidade, assegurados por jovens soldados, cuja fragilidade à progressiva influência da cerveja tornava tudo muito imprevisível. A “hora da Cinderela” era a meia-noite, a partir da qual a proibição de circular se iniciava, até às cinco da manhã.

Quando nos distraíamos, depois de um jantar mais prolongado, havia que conduzir com a máxima das cautelas, ao aproximarmo-nos desses controlos. Nem deveríamos ir demasiado lentamente, para não dar impressão de que podíamos estar a tramar algo, nem mais rapidamente, para não criar a ideia de que nos preparávamos para fugir à fiscalização. Depois, era o diálogo, sempre sorridente, com os “camaradas”, até termos a luz verde para avançar. Aí vinha o último perigo: tinha de haver a noção exata de que fôramos autorizados a prosseguir. Como, por vezes, as confusões de linguagem existiam, recordo-me que arrancava sempre com os olhos postos no espelho retrovisor, não fosse dar-se o caso do militar ter entretanto mudado de ideias e querer ver mais algum papel. É que se ele interpretasse esse arranque como uma desobediência, era difícil depois arguir contra uma rajada de Kalashnikov...

Em casa, a tentar dormir, no silêncio da capital angolana, sem carros a circular, começou por ser desagradável ouvir, com uma regularidade quase quotidiana, essas rajadas de metralhadora. No dia seguinte, de se perguntasse, ninguém tinha ouvido falar de qualquer incidente grave, pelo que essa sonoridade passou a fazer parte da nossa paisagem auditiva. Confesso que, ao fim de uns meses, aquilo quase que não interrompia o sono.

Nestas noites silenciosas de Lisboa, que agora começam, esse risco não existe. No que me toca, pouco sensível aos pruridos libertários que agora por aí emergem, apoio e respeito as medidas decididas, pelo interesse comum que reconheço na sua entrada em vigor.

Mas irei lembrar-me deste recolher obrigatório na próxima noite de Santo António em que, tão cedo quanto possível, todos nos possamos cruzar sem máscaras, bebendo copos pelas ruelas de Alfama, em espaços atulhados de gente, sardinhas e fumo. Essa é a minha Lisboa! Não a dispenso!

domingo, novembro 08, 2020

Observare


Nesta segunda edição do programa “Observare”, na TVI, dirigido por Pedro Pinto, com Carlos Gaspar, Luís Tomé e eu, desta vez a partir de casa. Falámos naturalmente dos Estados Unidos, mas não só. Veja aqui.

Vitória

Uma bela frase de um amigo: “Como monárquico que sou, fiquei ontem muito contente com a derrota dos republicanos”

Apontar é feio!


Ainda um dia nascerá um presidente americano que não tenha aquele irritante gesto de apontar para a plateia

Os portugueses

Os portugueses refilam quando o governo não apresenta medidas para fazer face às movimentações de pessoas que ajudam à propagação da pandemia. “Anda tudo à balda!”

Quando o governo impõe medidas, os portugueses reagem logo quanto às medidas determinadas, muitas vezes ridicularizando-as, porque acham que as medidas, afinal, deveriam ter sido outras, porque a malta (os gajos lá do café, um dos quais tem um primo que é político e outro um cunhado na GNR) é que sabem as medidas “que deveriam ser”. 

Quando as medidas do governo são duras, queixam-se de que são duras demais, que a economia é abafada, que as liberdades estão ameaçadas, que vem aí o fascismo. “Já quase só falta a pide!”.

Quando as medidas são brandas, flexíveis, com margens deixadas ao bom-senso e ao espírito cívico, acham que medidas dessas não vale a pena, que “o pessoal assim não respeita nada” e, claro, conclui com o definitivo “assim não vamos lá!”.

Têm toda a razão! Assim não vamos lá! Porquê? Porque são os portugueses. Somos.

sábado, novembro 07, 2020

No “Jornal de Notícias”

 

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É o que eu penso!

Não quero ser desmancha-prazeres, mas acho mil vezes mais importante a notícia da saída de Trump do que o facto de Biden assumir a presidência. Mesmo podendo dizer-se que uma coisa decorre da outra. O fim da era Trump é, para o mundo, a grande notícia da década!

Tempus fugit

Com todo o respeito que uma declaração ministerial sempre deve merecer em democracia, por que será que está instalada na opinião pública uma...