Percebo que a presença de capital público na TAP deva objetivar-se em orientações no sentido de interesses do país, definidos pelo Estado. Mas gostava de lembrar que foram decisões insensatas sobre “rotas políticas” que, no passado, ajudaram a levar a TAP ao descalabro.
quinta-feira, maio 28, 2020
Os novos libertários
Em alguns tolinhos, a moda começou mais cedo. Noutros, é coisa mais recente. É a “revolta”, o apelo à “desobediência” contra a “ditadura” do confinamento “oficial”, uma espécie de deriva libertária, a darem-se ares liberais.
E se tivessem um pai ou uma mãe no hospital, com respirador? Diriam o mesmo?
Será impressão minha?
É minha impressão ou Portugal paga hoje, nas idas ao mercado de dívida soberana, as taxas mais baixas de todos os países do sul da Europa?
O mundo adversativo
O jornalismo adversativo é uma forma muito triste de exercer a profissão.
Para compensar qualquer notícia que possa ser lida com tendo um tom positivo, algo que esteja a correr bem, é colocada logo depois uma frase antecedida de um “mas”, “porém” ou “contudo”.
Estejam atentos.
Adeus, CDS ?
O teor das declarações do nóvel líder do CDS, quanto ao Chega e a Orbán, deixa claro a que mercado de votos pretende aceder. Fica tudo mais claro, facilitando e legitimando a escolha dos adjetivos para qualificá-lo.
A Europa mexe
A acreditar na primeira leitura das medidas europeias anunciadas, há duas resistências que se quebram: a mutualização de alguma dívida e a eventual criação de novos recursos próprios. A Europa mexe.
quarta-feira, maio 27, 2020
Mobilidade humana
Hoje, 4ª feira, 27 de maio, entre as 17:00 e as 17:30, no Facebook e no YouTube, António Vitorino, diretor-geral da Organização Internacional para as Migrações, falou comigo sobre o futuro da Mobilidade Humana depois do Covid 19.
Pode assistir aqui.
Pode assistir aqui.
Nós por lá
Quando era embaixador em França, foi-me um dia chamada a atenção para o facto de um comediante, Patrick Timsit, ter feito comentários depreciativos sobre a comunidade portuguesa.
No meu anterior posto no Brasil, tinha-me defrontado, por mais de uma ocasião, com situações idênticas. Algumas vezes houve em que achei oportuno responder a esses comentários, às vezes com “estrondo” mediático. Outras, decidi não reagir.
Este é um problema que se coloca, de forma recorrente, aos embaixadores: avaliar se devem ou não atuar, em face de ataques públicos ao seu país ou aos seus cidadãos. Há que ponderar se tal reacção não acabará por ter um efeito desproporcionado, isto é, se não ajudará a chamar mais atenção para a questão do que aquela que ela teve no momento em que ocorreu. E, depois, nos casos em que decidirmos intervir, há que ainda que escolher e medir o tom que essa intervenção deve ter. Podem crer que é uma questão nada fácil.
No caso de Timsit, optei por aguardar, com vista a perceber se a questão tinha repercussão. Não teve e o assunto morreu.
Há dias, surgiu num canal televisivo um filme que tinha fados de Amália como banda sonora. Parei o zapping por ali. Era uma comédia francesa, com alguma graça, “Marie-Francine” - por cá seria chamada “50 são os novos 30” - assente num romance entre uma técnica de laboratório e um cozinheiro, cuja mãe era uma porteira portuguesa. O papel desse franco-português era desempenhado por Patrick Timsit.
Apetece-me dizer que tudo está bem quando acaba bem.
A dispensa do jornalismo
Os governos, todos os governos, pela natureza das coisas, querem dar de si próprios e da sua ação uma imagem favorável. E tentam que os cidadãos acreditem na narrativa que projetam. Em democracia, as oposições funcionam como contraponto às versões oficiosas. Mas é, muitas vezes, graças a intrusividade da imprensa, que se especializou em explorar os escaninhos do dissenso e a não se deixar encantar pelas versões únicas que se fica a saber, mais cedo ou mais tarde, que as coisas nem sempre são aquilo que nos foi apresentado.
Para isso, surgem versões dos factos, o diz-que-disse, os relatos parciais. É essa a riqueza do trabalho dos jornalistas, esses “impacientes da História”, como lhes chamou Jean Lacouture, para bem caraterizar a sua função antecipadora dos juízos definitivos, com o recuo do tempo.
Contudo, às vezes, vezes que são raras, a realidade dispensa o jornalismo. Há factos que são tão evidentes que não necessitam de mediadores de leitura.
Vem isto a propósito do vídeo que revelou a reunião do presidente brasileiro com os seus ministros e alguns convidados do inner circle. Embora estivesse a ser gravada, aquela reunião não estava destinada a vir a ser conhecida pelo grande público - e muito menos o seria depois do que ali foi dito, em especial da forma com o foi. Era uma reunião de pura coordenação política – e daí decorre a sua “riqueza”.
Naquelas escassas horas, todo o brasileiro ficou a conhecer a “cultura de balneário” do team Bolsonaro. Foi muito interessante perceber que o Brasil tem no topo do Estado uma figura que entende que o voto conjuntural que recebeu o ungiu de uma autoridade quase sem limites, só prejudicada, no seu exercício, pelo empecilho não resolvido de outros poderes, como o legislativo e o judicial.
Ouvir (e ver) o que ali disseram ministros como o da Educação, num arroubo filo-fascista não contraditado por ninguém, do Ambiente, com afirmações para além da decência básica para o exercício de um cargo público, da Economia, cheio da consciência de ser o derradeiro fiador de Bolsonaro perante o empresariado, com as certezas da “mão invisível” a orientar-lhe as escassas dúvidas éticas – tudo isso constituiu um espetáculo memorável. E, nessas horas, foi imperdível a cara do militar vice-presidente, com um auto-controlo no fácies que era um verdadeiro livro aberto.
São raros os momentos como este, em que História, por um acaso, se fez no instante, sem esperar pelo amadurecimento do tempo. Tudo ali ficou imensamente claro, para sempre.
terça-feira, maio 26, 2020
A voz do Porto
Ouvindo hoje Rui Moreira a clamar, lembrei-me do Porto e do seu poder ou falta dele.
Curiosamente, sendo embora a segunda cidade do país, o Porto só com a democracia conseguiu obter uma expressão significativa a nível do poder central. Se olharmos para a história da ditadura – e mesmo da primeira República, passado um tempo de evidência no republicanismo novecentista - verificaremos que a influência política do Porto, como cidade, junto do poder central, foi sempre muito escassa. E, curiosamente, é uma evidência que o Porto teve sempre, em particular nesse tempo, um forte tecido de instituições, formais e informais, desde logo na área empresarial, mas igualmente no domínio cultural e no terreno social.
Tudo indica que Salazar nunca gostou do Porto, talvez porque a cidade projetasse uma sofisticação, quiçá algo snobe e elitista, que se contrapunha ao ruralismo pretendidamente esclarecido que ele próprio representava e que Coimbra, com Lisboa, aqui também através da universidade, era suficiente na sua tarefa de cooptar o pessoal político da ditadura.
Graças à sua força económica – recordo que então se dizia: “o Porto trabalha, Lisboa diverte-se” -, o Porto como que se isolou um pouco no processo político à escala nacional, mantendo uma dinâmica própria, uma burguesia longe do cosmopolitismo do dinheiro “novo” de Lisboa, mais Clube Portuense e muito pouco Linha do Estoril. O Porto ia fazendo pela vida...
Diga-se, contudo, que o Porto burguês não era maioritariamente anti-regime, muito longe disso. O peso da igreja e a proteção dos negócios encontraram sempre no Porto um terreno sólido de apoio ao salazarismo. Mas o Porto da ditadura foi também aquele que deu o maior banho de multidão a Humberto Delgado, em 1958, como já tinha proporcionado o maior comício a Norton de Matos, nove anos antes, na Fonte da Moura. E é o Porto que gera um bispo que atazanou o ditador e, verdadeiramente, abriu caminho às vias católicas dissidentes à escala nacional. Esse é, alias, o mesmo Porto que produziu Sá Carneiro, esse inesperado incómodo que veio a destapar a fraude da abertura marcelista.
Foi o 25 de Abril que levou o Porto a perder esse seu relativo isolamento político. Com Sá Carneiro e as suas adjacências, o Porto entrou muito cedo para a partilha do poder político central. E por lá tem ficado, às vezes de forma influente, outras numa presença simbólica. Quando se forma um novo governo, à esquerda ou à direita, imagino que a pergunta deve surgir: “E do Porto, quem é que se põe?”. Pode soar um tanto cruel estar a dizer isto, mas é esta parece ser a realidade.
Desta vez, no governo, o Porto não se pode queixar... E tem mesmo a liderança da oposição. Porém, não obstante a inegável excelência de muito do pessoal que a política doméstica foi buscar ao Porto, nas últimas décadas, isso só marginalmente quis significar o peso real acrescido da cidade no jogo político nacional.
Mas Porto desenha um outro modelo curioso, sendo nisso quase um “case-study”. Refiro-me ao seu perfil reivindicativo. A cidade do Porto assume sempre um discurso tenso, uma mostra de mal-estar permanente, uma queixa de quem se sente mal tratado. Até as distritais portuenses dos dois partidos do novo rotativismo sofrem desta obsessiva necessidade de terem uma idiossincrasia própria, um discurso façanhudo e de cara dura frente aos aparelhos de Lisboa.
Com regularidade, o Porto convoca os poderes económicos e os seus nomes sonantes para a retoma dos vários episódios dessa espécie de permanente batalha virtual que mantém com Lisboa. E, com o tempo, mas sempre com o sobrolho cerrado, nas entrevistas e proclamações, o Porto lá vai conseguindo levar a água ao seu moinho de vento, melhorar o aeroporto, ter as suas novas pontes, o seu metro, as vias que o seu jogo de cintura interna é sempre capaz de arrancar.
Mas convém que fique muito claro: essa guerrilha política, nas formas curiosas, típicas e mediáticas que por vezes assume, não deixa de ter uma indiscutível legitimidade. Porque a verdade é que, neste país, continua a haver uma macrocefalia muito evidente em torno e em favor de Lisboa
A política e a Cultura
Os titulares da Cultura são, entre nós, uma espécie governativa com uma esperança de sobrevivência potencialmente escassa. O financiamento orçamental que é alocado ao setor é, desde há muito, bastante inferior às reais necessidades para satisfazer as esperanças dos vários lóbis. Alguns, com capacidade de movimentação nas franjas político-partidárias do poder, ainda conseguem assegurar umas linhas promissoras, mas genéricas, nos programas de governo. Esses grupos de interesses movimentam-se logo que chega um novo titular, na ânsia de serem eles, dessa vez, os beneficiados. Os governantes disfarçam quanto podem o óbvio “bluff” em que atuam e vão ganhando tempo junto dos agentes do setor, até ao momento em que, para alguns destes, fica muito claro que a manta está longe de poder cobrir todos e não vai abranger muitos. Entram então em processos reivindicativos - em si mesmos justos, porque foram iludidos nas suas expetativas - com forte cumplicidade dos media, onde, por natureza, encontram ecos de simpatia, facilitaos pela notoriedade de algumas das personalidades que são a cara do setor. Nessa altura, com um qualquer pretexto ou por desgaste, os titulares acabam por ser mudados e recomeça a dança. Esta é a minha visão. Corresponderá à realidade?
segunda-feira, maio 25, 2020
A sina dos diplomatas
Em democracia, um diplomata representa o Estado e executa as instruções que são emanadas dos governos que o voto popular escolheu para dirigir esse Estado.
Mas o diplomata não é um mero executante. À luz da sua experiência e da leitura que desta tenha extraído, ao longo dos anos que leva de serviço público, sobre aquilo que melhor defende o interesse nacional - que é algo que transcende os ciclos políticos -, deve ser criativo na sua tarefa de dar corpo à política externa do país, sugerindo caminhos, alvitrando formas de atuar. Mas, no derradeiro momento, deve obedecer às instruções definidas por aqueles a quem foi conferida a legitimidade democrática para decidir.
E se um diplomata estiver em desacordo com aquilo que o mandam fazer? Há duas hipóteses. Se acha que, ao executá-lo, isso fere a sua consciência ou valores limite, só lhe resta demitir-se e abandonar a carreira. Se se trata apenas de uma divergência de orientação, o diplomata tem obrigação de expor a sua leitura contraditória mas, se a decisão lhe for reiterada, deve cumpri-la, mesmo contra a sua vontade. E, ponto muito importante, a prova da lealdade de um servidor público está, não apenas no cumprimento das instruções recebidas, mas no estrito dever de não publicitar essa discordância.
Em quase quatro décadas de carreira, com 21 ministros dos Negócios Estrangeiros, algumas vezes houve em que, pontualmente, não estive de acordo com aquilo que me foi dito para fazer. Mas, em nenhuma dessas ocasiões, fiz algo contra a minha consciência.
Por que é que trago hoje esta questão? Porque acabo de ler uma carta dirigida pelo embaixador brasileiro em França ao jornal “Le Monde”, reclamando contra a cobertura crítica feita à situação da pandemia no Brasil.
A carta, compreensivelmente, defende a política de Bolsonaro. Quero crer que o argumentário deve ter chegado ao embaixador emanado da capital, dada a sensibilidade do tema. Mas devo dizer que me impressionou muito ver um profissional da diplomacia, embaixador num dos principais postos do mundo, oriundo de uma carreira que tem um património histórico de prestígio e qualidade, por sua iniciativa ou sob instruções, aceder a subscrever uma argumentação que, num determinado ponto, vai a este extremo: os governadores dos Estados brasileiros, quase esmagadoramente críticos da política de “portas abertas”, terão optado pela política de confinamento ou mesmo de “lockdown”, com o deliberado propósito de provocarem a destruição da economia do país, por forma a dificultar as condições para a reeleição do presidente em 2022. Como se fosse minimamente plausível que esses governadores, de vários partidos, se tivessem conluiado para arruinar a economia dos Estados que os elegeram!
Assinar um pensamento tão mesquinho e absurdo como este não honra uma diplomacia como a brasileira. Tenho a certeza que muitos amigos que tenho na carreira diplomática do Brasil, patriotas e alguns até com iniciais simpatias por Bolsonaro, menos por ele e mais por rejeição da alternativa que se lhe opunha, devem ter ficado algo incomodados ao verem o bom nome do Itamaraty descer a este ponto.
Parabéns!
Hoje, celebram-se 98 anos de vida do arquiteto Gonçalo Ribeiro Telles.
Somos um país com muito poucas unanimidades. Ribeiro Telles faz parte das escassas figuras, em Portugal, que merece um generalizado respeito, pela sua obra profissional mas, essencialmente, por ter visto, antes de quase todos, a importância das questões ambientais para o nosso futuro coletivo e de ter tido a coragem e o desassombro de nos alertar para elas, num tempo em que fazê-lo era considerado uma bizarria, quase uma ideia ridícula e sem sentido.
Deixo aqui a minha homenagem a essa grande figura de cidadania que é Gonçalo Ribeiro Telles.
domingo, maio 24, 2020
Bolsonaro (2)
O baixíssimo nível do discurso de Bolsonaro, que um vídeo de uma reunião ministerial revelou, pode acabar por ter um efeito positivo junto do eleitorado que o elegeu. Na realidade, muitas dessas pessoas, que têm, elas próprias, uma linguagem e estão num patamar cultural não muito diferente daquele que ali ficou projetado, sentem, afinal, que têm um presidente que está próximo de si.
sábado, maio 23, 2020
Bolsonaro
Para melhor se entender o caráter da reunião presidida por Bolsonaro, de que há horas foi divulgado um vídeo, é importante ter presente que, num regime presidencialista como o brasileiro (ou como o americano, mas já não como o francês), não existe o conceito de um “conselho de ministros” que reúne todas as semanas, onde é aprovada legislação, como sucede em regimes como o nosso.
Reuniões como a que agora foi mostrada, ocorrem apenas ocasionalmente e têm um caráter de coordenação política, delas não emanando qualquer decisão de natureza colegial. O conceito de colegialidade governamental não faz parte, aliás, do ordenamento constitucional brasileiro. Neste, cada ministro faz chegar ao presidente os projetos de legislação do seu departamento, através da Casa Civil da Presidência da República, a cuja chefia compete, em princípio, assegurar a coerência da ação governativa.
sexta-feira, maio 22, 2020
Eles ai estão!
Mas não: vai ser uma enxurrada de verborreia dos comentadores, das imensas conferências de imprensa, das críticas dos dirigentes e treinadores aos árbitros, com a polícia, que devia ter coisas mais úteis para fazer, a ser gasta a controlar manadas de claques ululantes, raivosas de ódios, cheias de ultras e racistas.
E lá estarão - atentas, veneradoras e muito obrigadas - todas as televisões, a toda a hora, telejornais de quilómetro incluídos, subservientes aos poderes de facto, inventando peças, filmando treinos, alimentando as intrigas, com notícias repicadas do jornais desportivos.
Há por aí um país que estava sedento do regresso às trincheiras clubistas, morto por ouvir falar de bola, nem que seja naquelas emissões patéticas, em que não se vê nenhum jogo, mais apenas uns tipos a falar do que eles estão a ver e os outros não.
Só um país triste se alegra desta forma.
Quem tem capa...
Parece que passou a ser moda, nas redes sociais, inventar-se imagens falsas, dando-lhes uma aparência de plausibilidade. Esta semana acontece com a capa da Visão.
Há poucos dias, um outro vigarista gráfico alterou o rodapé de uma imagem televisiva, colocando um palavrão onde estava outra palavra. Foi um festim de difusão de algo que nunca tinha sucedido e que, a acontecer, poria em causa o rigor profissional dos responsáveis pela legendagem daquela estação.
Posso estar enganado, mas tudo isso tem muito a ver com um certo tipo de humor profissional alarve que por aí anda, que joga com as fronteiras da verdade e, claro, com a ignorância de muitos. E como parece que vivemos no reino da inimputabilidade e do vale tudo...
Posso estar enganado, mas tudo isso tem muito a ver com um certo tipo de humor profissional alarve que por aí anda, que joga com as fronteiras da verdade e, claro, com a ignorância de muitos. E como parece que vivemos no reino da inimputabilidade e do vale tudo...
Nas redes sociais, há sempre gente para acreditar em tudo, e a regra é: “toca a fazer rapidamente ‘partilhas’ dessas vigarices, para mostrar como sou engraçado”. Em lugar de pôr de quarentena quem promove essas imbecilidades, a “cultura” deste mundo de graçola primária leva à difusão imediata daquilo que surge como insólito. Depois, se não for verdade, pronto!, não tem importância, olha!, afinal era falso...
Com a divulgação intensiva dessas imbecilidades, cada dia se abandalha mais a comunicação entre as pessoas, que este tipo de espaços de comunicação poderia proporcionar.
quinta-feira, maio 21, 2020
quarta-feira, maio 20, 2020
Os medos da Europa
Há dias, ao selecionar livros para entregar a uma biblioteca, dei-me conta de que começava a dispensar dezenas de volumes sobre questões europeias. Tendo encerrado anos de experiência diplomática, e depois académica, a utilidade daqueles livros tinha desaparecido. Por ali estavam coisas desde os primórdios a tempos mais recentes da construção europeia. Alguns desses textos, na sua época, foram tidos como “definitivos”, pelo que, se houvesse tempo, teria graça serem comparados com a realidade superveniente. Mas não há tempo.
A Europa integrada é um ser mutante. Vai-se adaptando e procurando encontrar medidas capazes de protegerem os seus interesses, mas apenas pode fazê-lo quando constata ter condições para as consensualizar, o que se tem revelado cada vez mais difícil. Tem uma evolução não uniforme, aos “saltos” e por ciclos. Por isso, quando se fala do projeto integrador europeu, estamos, ano após ano, a referir-nos a coisas que vão sendo sempre diferentes.
Do mesmo modo, as ambições iniciais nada têm a ver com aquilo que os Estados membros querem da atual União Europeia - e é hoje muito claro que nem todos querem a mesma coisa e, em certos casos, querem mesmo coisas que, não sendo à partida opostas, acabam por se opor. O aumento do corpo de políticas e da cobertura geográfica, esta com uma imensa diversidade introduzida, desenham uma realidade que torna o processo decisório muito mais complexo.
A experiência provou que, ao lado do grande catalisador de opiniões que foi o seu inegável sucesso como projeto de paz e de desenvolvimento, os temores – isso mesmo, os medos – tiveram um papel não despiciendo na construção europeia, pela positiva e pela negativa.
Desde os receios que fundaram a Guerra Fria até às dúvidas traumáticas que se instalaram aquando da crise financeira, passando pelas tempestades de opinião criadas em torno do terrorismo, mas também dos debates sobre refugiados e migrantes, tudo mostra que, sempre de modo não linear, a Europa reage motivada por ciclos de temores. Foram esses temores que levaram os britânicos ao Brexit, foi o medo do Brexit que levou os restantes 27 a criarem uma eficaz frente negocial face a Londres.
Nos últimos dias, através da força motriz que, mesmo com altos e baixos, sempre foi o eixo franco-alemão, terá ficado gizada uma possível resposta aos efeitos devastadores da pandemia, num tempo político global que já era de extrema complexidade. Uma vez mais, a Europa parece ter acordado à beira do precipício.
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