Aqui fica a homenagem sincera de um ateu à igreja católica, pela contenção e bom senso usada na cerimónia de Fátima.
quarta-feira, maio 13, 2020
Tenho um amigo preocupado
Em tempos de pandemia, tenho um amigo que, sem falha, diariamente me telefona, às vezes mais do que uma vez. Acha estranho, aliás, que eu não esteja sempre do “outro lado” da linha, como se o confinamento fosse uma espécie de “Big Brother” televisivo.
Nas conversas, transmite-me preocupações sobre questões geopolíticas magnas, das divergências financeiras europeias ao conflito entre os EUA e a China ou à crise das viagens aéreas. No que cabe à pátria, cuja política sempre nos dividiu sem acrimónia, tem teorias sobre a partilha de poder, que vogam em torno do Centeno, do Costa e do Marcelo, ouvindo-me sempre replicar-lhe com ironias. Deve achar que eu “bebo do fino”, mas que não me abro, por mera tática.
Não obstante viver com o mundo “às costas”, sob o peso insuportável dessas angústias acumuladas, ele parece dormir bem. E, ainda assim, tem tempo para ler tudo, para o “zapping” dos noticiários, decantando um saldo sempre tremendista.
Não imaginam as coisas que ele sabe sobre o vírus, e a sua propagação, e o seu combate, e as suas curvas, e o respetivo achatamento, que deve ir desencantar a fontes raríssimas, para além de Paulo Portas, que tem como seu oráculo regular.
Atura, com bonomia, o meu alheamento sobre tudo isso, embora o sinta incrédulo quando, perante o seu explanar das perfídias chinesas na pandemia, lhe digo, com a maior sinceridade, que não tenho a menor opinião.
Acredita pouco na diretora-geral de Saúde e, ainda menos, na ministra da dita, tendo dificuldade em perceber quando asseguro que, pelo contrário, sigo cegamente o que delas ouço. Aliás, pensasse eu o oposto do que dizem as senhoras, o que é que, de importante, mudaria na minha vida? Passaria a preocupar-me, como acontece com ele. Ora eu tenho como lema firme de vida fugir a sete pés das preocupações.
Esse meu amigo também se faz eco de teorias conspirativas, de Bilderberg às máscaras e aos ventiladores, que, como é da natureza das ditas teorias, ajudam a explicar tudo, mesmo que não saibamos exatamente o quê. É que ele compra o único jornal diário que me teriam de pagar para ler, o que me habilita com o contacto indireto com o mundo dos títulos e dos escândalos, sem correr o risco de ser diretamente infetado.
Uma coisa esse meu amigo não deve perceber: como é possível eu continuar a ter temas para escrever uma meia dúzia de artigos por mês, bem como alimentar diariamente o meu blogue, sem a intensidade de informação que ele colhe. Talvez não devesse revelar o segredo: hoje, por exemplo, falando sobre ele...
terça-feira, maio 12, 2020
Definição
Li, há pouco, uma bela definição. Há pessoas para quem uma notícia é verdadeira, nunca passando à categoria de “fake news”, se diz precisamente o que essas pessoas pensam...
Populismo
Para a demagogia do Chega, o assassinato da criança é sopa no mel do populismo. Se o assassino tivesse sido um cigano, então é que era ouro sobre azul...
segunda-feira, maio 11, 2020
O grande lóbi
A verdadeira força que o futebol tem neste país mede-se pelo modo como consegue “forçar”, em tempos sanitários bem duvidosos, o recomeço do campeonato.
Não houve um único partido a reclamar, porque todos estão infiltrados de lobistas dos vários clubes
A Aspirina do Jorge
“Ainda não sou médico! Mas já posso receitar Aspirinas!”
Num final de tarde de 1967, o meu amigo Albano Tamegão, que comigo partilhava um quarto de estudante no Porto, preocupado com um febrão que me apoquentava os dias, decidiu pedir a um colega mais velho, do curso de Medicina que ambos frequentavam, para ir “consultar-me”, lá a casa.
O “quase médico” era o Jorge Ginja. Todos éramos integrantes do Teatro Universitário do Porto, onde passávamos as horas livres dos nossos dias, num ambiente de camaradagem cultural que ajudava a compor uma vida de estudante que começava nas diferentes escolas universitárias que frequentávamos e que acabava no mundo que existia no fundo daquele esconso corredor, entalado entre a GNR e o que então era a Faculdade de Letras, antes ou depois passando, quase obrigatoriamente, pelas mesas do Piolho, onde cruzávamos o pessoal do Orfeão e do Coral.
O Jorge lá me “receitou” a Aspirina e estou vivo, até hoje. Não é o caso dele, que acabo de saber que morreu, na terra onde eu nasci, em Vila Real.
Um dia, já há muitos anos, no guarda-vento da Gomes, dei de caras com o Jorge Ginja. “O que é que andas a fazer pela minha terra?”, perguntei-lhe. Desde esses anos no Porto, em que fizéramos digressões teatrais pelo país, de Coimbra à Covilhã, passando por Amarante e Vila Real, tinha-lhe perdido o rasto. O Jorge, com aquele sorriso nervoso que era sempre o seu, disse-me: “Trabalho cá. Agora vivo em Vila Real.” Fiquei contente.
Depois, com os anos, assisti ao Jorge transformar-se num “vila-realense” adotivo. Não apenas como médico, mas também como figura da nossa Cultura, que passou a representar no Norte. Ligavam-me a ele, como logo entendi, algumas cumplicidades políticas, embora ele viesse de raízes ideológicas que se tinham mantido, até bem mais tarde do que eu, num terreno radical. Alguém, um dia, me disse, numa caraterização política que me agrada, que o Jorge Ginja era uma “voz grossa”. Era isso mesmo! E ainda bem!
Recordo-me do abraço forte que me deu, creio que em 2013, numa tarde pardacenta, no fundo da Avenida, numa manifestação contra o vírus que então se chamava “troika”. “Fico muito contente por te ver por aqui”, disse-me, talvez porque achasse menos curial que um embaixador reformado se juntasse àquele repúdio público à indecência política.
O Jorge Ginja era um puro, um homem com o sentimento à flor da pele. Um bom sentimento. Vou sentir falta dele - das mesas da Gomes ao balcão da Tosta Fina, passando pelos almoços no Lameirão, onde nos vimos pela última vez. Fico com a sensação de que nunca falámos tanto como talvez devêssemos ter falado, caro Jorge! Mas a tua Aspirina curou-me. Para sempre!
(Artigo que hoje publico no “Jornal de Notícias”)
domingo, maio 10, 2020
Leonardo Mathias
Quando, há dias, desapareceu, depois de uma vida de sucesso e prestígio, tive o ensejo de fazer aqui um breve perfil admirativo de Leonardo Mathias, uma das mais brilhantes figuras da nossa diplomacia. E um amigo pessoal, o que, para mim, não é menos importante.
Hoje, no suplemento do “Público”, a jornalista Bárbara Reis traça-lhe um interessante perfil político e profissional, recuperando episódios e momentos da sua carreira, ouvindo alguns dos seus amigos e familiares. Recomendo vivamente a leitura deste artigo.
O texto aborda, desde o tíitulo, a dualidade de um percurso feito entre o Estado Novo e o novo regime democrático. Mathias identificava-se, sem ambiguidades, com o primeiro, em especial no tocante à política colonial, em que acreditava e que defendeu, com brio e com brilho.
Com o 25 de Abril, o grande servidor do Estado que ele era, sem necessitar de renegar as suas opções ideológicas, ofereceu a sua maestria diplomática ao novo país democrático que entretanto tinha emergido. Com lealdade, colocou o melhor de si ao serviço do país que sempre representou, da melhor forma que soube. É assim um grande servidor do Estado e ele foi-o, de forma excelente.
sábado, maio 09, 2020
E ele regressou, claro...
Por estes dias, aqui pelas redes sociais, regressou em glória o “whataboutism”. Há um pessoal que, como se sente encostado às cordas, em matéria de coerência, não conseguindo explicar o que tem de explicar, chama logo a jogo o “outro lado”, na lógica do “Ai é? E então no caso do...?”
Centeno
Sente-se já uma satisfação evidente em certos setores, que nem cuidam em disfarçar, pela possibilidade de Mário Centeno vir a não renovar o seu mandato como presidente do Eurogrupo. Aqui pelas redes sociais, a notícia de ontem do Frankfurter Allgemeine caiu como sopa no mel. Verifiquem!
Ai restaurantes...
Nunca digo que “desta água não beberei”, mas tenho dúvidas que o meu gosto por restaurantes seja superior à estranheza que me causará a chegada de empregados mascarados, com distâncias que não permitem bocas do tipo “já viste os olhos daquela miúda?”
Lideranças (2)
Recebi vários comentários, traduzindo uma surpresa positiva, elogiosos das palavras que o novo líder do CDS, Francisco Rodrigues dos Santos, usou para denunciar a demagogia do deputado europeu Nuno Melo, na mais que provada falsa questão sobre Rui Tavares e a “Telescola”.
Pôs os pontos no is, aproveitando também para “puxar o tapete” às atordas parlamentares de Ana Rita Bessa e de Telmo Correia, mostrando assim que ninguém pode espalhar mentiras, em nome do CSD, à sua revelia.
Uma liderança revela-se desta forma, com frontalidade, ganhando o respeito democrático pela afirmação incontroversa da verdade.
Falaram-me tão bem desse texto! Alguém mo consegue encontrar?
Lideranças
Líder do CDS, hoje, ao “Expresso”: “O CDS é um partido eurocontido, não entra no exceitamento federalista, nem na negação dos valores da construção europeia”.
É difícil dizer tanto nada com tantas palavras. Mas, contudo, também consegue nada dizer, com nenhumas palavras, perante o filo-fascismo de alguns dos parceiros do seu partido no PPE.
Uma “palavra” a Franco
Nestes 75 anos da vitória aliada na 2ª Guerra Mundial, convirá recordar que se deve à obstinação do ditador espanhol Francisco Franco, que, na reunião de Hendaye, terá convencido Hitler a não avançar até Gibraltar, o facto da Península ter sido poupada às consequências diretas do conflito.
Como é óbvio, se os alemães tivessem entrado em Espanha, nenhuma diplomacia “pelo meio dos pingos da chuva”, também chamada cinicamente “neutralidade colaborante”, teria evitado o envolvimento português na guerra ao lado do Eixo.
Por essa razão, que é puramente geopolítica, não tem o menor sentido o argumento de que “Salazar poupou os portugueses da guerra”, que alguns saudosistas procuram avançar, em tom atenuante, quando alguém fala, com razão, das décadas de malfeitorias do homem de Santa Comba. O qual, diga-se, anos depois, pela sua cegueira histórica, iria envolver o país em três guerras coloniais, convém já agora recordar.
O preço da vitória
Vale a pena lembrar, nestes 75 anos da vitória aliada na Segunda Guerra mundial, o preço que cada país pagou, em vidas humanas.
O dia da vitória
Estou a ver, ali adiante, a casa onde hoje vivo. Esta imagem é tirada de uma das varandas do edifício onde funcionava a embaixada britânica em Lisboa. Há três bandeiras, de três dos Aliados vitoriosos, nesse magnífico dia de 1945: Reino Unido, Estados Unidos da América e França. E houve também, como os relatos daquele dia o notam, pessoas que tinham na mão apenas um pau de bandeira, sem qualquer bandeira. Queriam simbolizar o outro vencedor da guerra, a União Soviética.
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Tempus fugit
Com todo o respeito que uma declaração ministerial sempre deve merecer em democracia, por que será que está instalada na opinião pública uma...











