sexta-feira, maio 08, 2020

8 de maio, dia da Vitória


Onde é que eu estava a 8 de maio?
  • Hoje, estou confinado...
  • Há cinco anos, estava, precisamente a esta hora, a dar uma aula em Lisboa! 
  • Há 10 anos, estava a trabalhar em Paris.
  • Há 15 anos, estava a trabalhar em Brasília.
  • Há 20 anos, estava a começar uma visita de trabalho à Turquia.
  • Há 25 anos, estava a regressar de uma deslocação em trabalho a Itália.
  • Há 30 anos, tinha acabado de chegar a Lisboa, há pouco, depois de ter dado uma volta completa ao mundo (mesmo!), juntando trabalho e férias.
  • Há 35 anos, estava trabalhar em Luanda.
  • Há 40 anos, estava a trabalhar em Oslo.
  • Há 45 anos, estava na tropa, em Lisboa, no início do “Verão quente”, a fazer provas para entrar no MNE.
  • Há 50 anos, andava a tentar estudar Ciências Sociais, em Lisboa.
  • Há 55 anos, andava a fingir que estudava Engenharia, no Porto.
  • Há 60 anos, andava, garbosamente, no 3° ano do liceu, em Vila Real.
  • Há 65 anos, andava no escola primária “do Trem”, com o professor Pena.
  • Há 70 anos, brincava na casa onde então vivia, na rua Avelino Patena, desconhecendo que aí, onde tinha nascido, haviam reunido, faz no próximo dia 5 de outubro 110 anos, os conspiradores que implantaram a República em Vila Real (já lá está a placa).
  • Há 75 anos, dia da Vitória aliada na 2ª Guerra Mundial, ainda não andava por cá.

A China vai dominar o mundo?


No mundo antes do surgimento do novo vírus, a afirmação geopolítica da China vinha, desde há muito, a suscitar uma forte preocupação americana, desde logo pela perceção de que isso representava uma crescente ameaça direta à sua preeminência à escala económica global. Ao contrário de Obama (e do que poderia ter sido uma administração Clinton), que tinha apostado num “cerco” de parcerias económicas, envolvendo os seus aliados vizinhos da China, a linha de Trump apontou para um diálogo bilateral tenso, apostando em como Beijing não se arriscaria a um confronto económico-financeiro no qual teria muito a perder.

No imediato, a China contemporizou, Trump ganhou tempo e procurou levar os europeus para uma frente comum contra o perigo chinês. A Europa, que começa a encarar a China como um poder adversarial, não parece assumir ainda uma linha comum que permita uma sua antagonização aberta. Porém, o modo como aliados europeus dos EUA aceitaram incluir uma inédita referência à questão chinesa no comunicado da última cimeira da NATO prova que a porta, para um futuro entendimento entre americanos e europeus, não está totalmente fechada. A acontecer, isso só poderia ser feito desde que Washington optasse por uma postura de razoabilidade, pouco provável com a administração atual.

A preocupação europeia pela tomada de posições do capital chinês em ativos seus já não é de hoje, mas a verdade é que, num mercado aberto, quem tem meios disponíveis para aproveitar as oportunidades dificilmente pode ser travado por procedimentos administrativos. A Europa queixa-se de que países como Portugal alienaram ativos para mãos chinesas? E alguém dessa Europa se “chegou à frente”, no momento certo, para o evitar? Além de que convém notar que o nosso país, ao contrário do que alguns pensam, está muito longe de ser o maior hospedeiro europeu de capitais chineses.

A pandemia trouxe novos dados a esta equação. De um dia para o outro, a Europa parece ter acordado para a imensa dependência que, ao longo de décadas, criou face à China. E logo teve um reflexo “nacionalista”, protecionista, a que até o nosso primeiro-ministro foi sensível no seu discurso europeu. Há aqui, porém, um forte equívoco: o “made in Europe” não dá garantia estratégica absoluta a ninguém, como os italianos bem perceberam no auge do seu estado de necessidade. Além de que a China, passada a pandemia, vai regressar como um mercado essencial para a recuperação da indústria europeia, por muitas preocupações geopolíticas que Bruxelas possa suscitar.

Já se percebeu que os EUA optarão por alimentar cada vez mais teorias conspiratórias contra a China, que dêem a Trump a um inimigo externo que o ajude a renovar o seu poder interno. Não parece, contudo, que esse caminho possa vir a ter muitos seguidores, num mundo ansioso por capitais que o, embora limitado, crescimento chinês proporcionará. O futuro económico global não é muito risonho, mas nada indica que nele a China não possa continuar a sorrir.

(Artigo publicado a convite da revista “Visão”)

A oportunidade

A direita portuguesa, aquela que é democrática e quer continuar a ser decente, tem uma oportunidade de ouro para se demarcar do Chega. É que, se o não fizer, dá um bom argumento a quantos acham que, lá no fundo, ela tem a tentação eleitoral de ir colher votos racistas e xenófobos.

Gostos não se discutem



O Portugal de que gosto


Não alimento juízos definitivos de valor sobre o modo como os povos se relacionam uns com os outros, em termos de maior ou menor abertura para conviverem com as respetivas diferenças. Não entro na polémica, que alguns procuram trazer para a praça pública, sobre se Portugal é ou não um país racista ou xenófobo. Não faço parte de quantos acham que é útil fazer uma “sindicância” sobre o nosso passado colonial, lançando um debate auto-flagelatório sobre a nossa História. Já percebi que essa agenda anda por aí e, sobre ela, tenho a mesma teoria que as pessoas prudentes das aldeias têm sobre as queimadas: feitas sem ter em conta a força dos ventos podem dar origem a grandes incêndios.

Ao contrário do que acontece com muitos com o avançar da idade, sinto que tenho cada vez menos ideias gerais. Aprendi que as coisas são, em geral, muito mais complexas do que aquilo que uma abordagem impressionista parece indiciar. Talvez por isso, não alimento conversas de café sobre estados de alma nacionais. Vivi o suficiente para ter aprendido que se pode dizer uma coisa e o seu contrário e, no entanto, continuar a estar certo - porque a perspetiva é a do ponto a partir do qual se olha e não daquilo que está à vista.

Na vida que levei por algum mundo, representando Portugal, nunca ninguém me ouviu dizer que “os portugueses não são racistas” ou que a nossa colonização (e, já agora, a nossa descolonização) foi “exemplar”. Não é por Gilberto Freyre ser oriundo de uma antiga colónia que o “luso-tropicalismo” passou a ser uma categoria elogiosa, nem a nossa relação colonial ganhou uma suposta “bondade” graças a uma certa forma portuguesa de estar no mundo.

Somos hoje o que somos, como país. Mas de uma coisa tenho a certeza: seremos sempre um pouco mais se o nosso discurso assentar numa linha humanista e, em especial, numa firme vontade de fazer coincidir aquilo que fazemos com aquilo que, nesse domínio, defendemos.

Foi-me sempre agradável, como diplomata e como português, ver reconhecido nos fóruns internacionais, e no que os outros dizem sobre nós, a generosidade da nossa cultura de acolhimento dos estrangeiros que nos procuram, seja para melhorarem as suas condições económicas de vida, seja para se acolherem, para se refugiarem, quando perseguidos ou vítimas de situações de conflito.

Gosto muito de ver Portugal na vanguarda das atitudes internacionais em matéria de ações solidárias face aos migrantes e refugiados – da mesma forma que me envergonho ao ver certas forças políticas nacionais, com fortes responsabilidades democráticas, serem cúmplices pelo silêncio face aos comportamento miserável de alguns Estados europeus, só porque são dirigidos por partidos que pertencem à sua “família” política. Há famílias que não se recomendam!

Nesta crise da pandemia, senti um grande orgulho em ser português ao assistir ao gesto nobre, unilateral, do governo do meu país de legalizar todos os indocumentados estrangeiros. É deste Portugal que eu gosto.

quinta-feira, maio 07, 2020

Entrevista

Nenhuma questão importante deixou de ser colocada ao ministro das Finanças por Vitor Gonçalves, na Grande Entrevista que a RTP lhe fez esta noite. Será muito difícil fazer outras entrevistas assim?

Em defesa da liberdade de expressão

No debate que por aí anda sobre os comentários racistas, surgiram certas vozes a defender que, simplesmente, se deve calar à força quem disser enormidades daquele quilate. Cuidado! Não brinquemos com a democracia! Só o incumprimento da lei deve ser limite à liberdade de expressão

A câmara baixa

Há quem ache pouco prudente centrar um debate parlamentar num tema tão nojento como o que foi introduzido por um dos deputados da direita radical. Interrogo-me sobre se, afinal, não pode ser bem pedagógico ver a casa da democracia reagir, com voz dura, àquelas isoladas baixezas.

Honra e desonra

A TSF tem um lugar de honra na história da rádio em Portugal. Quando surgiu, cumpriu um papel de vanguardismo mediático idêntico àquele que tiveram o Expresso e o Público. Hoje, ao abrir o seu Fórum a uma temática como a que escolheu, a TSF arrisca-se a que alguém possa dizer que está a caminhar para um quadro de desonra. Não é esse o lugar da TSF.

As esquinas de Lisboa

Ontem, atravessando Lisboa de carro, cruzei-me com grupos de pessoas, sem máscara, conversando em esquinas, em registo de “business as usual”, com idade não só de terem juízo como de deverem ter cuidados acrescidos, por virtude dessa mesma idade. Fiquei com um mau pressentimento.

O mito das máscaras

Parece instalado na sociedade portuguesa o mito de que, usando uma máscara comum, se pode deixar de manter a distanciação física em relação aos outros. Não sou especialista, mas é por demais evidente que a máscara apenas limita parcialmente o risco de emissão e escassamente o de inalação.

quarta-feira, maio 06, 2020

Amanhã, na “Visão”


Munchau

Se eu estivesse no lugar de António Costa ou de Mário Centeno, este tweet de Wolfgang Munchau, que não é um produtor de “bocas”, mas é um observador muito atento de sinais (vitais), far-me-ia perder uns minutos de sono: “Other real bullet is the German court's explicit accusation that ECJ transgressed its competences, and is therefore to be ignored. Will open floodgates. This is the German version of Brexit.”

Igreja

Esteve muito bem o Cardeal Patriarca na questão das celebrações. Esteve presente na Assembleia da República e adotou uma atitude de sensatez quanto ao evento em Fátima.

Ai CDS...

É patético ver um partido com as credenciais históricas do CSD não se retratar abertamente, com a dignidade que deve ser a das instituições sérias, depois de ter embarcado numa acusação, que está já mais do que provada como infundada, que envolveu o historiador Rui Tavares.

Espirro

Dei um espirro (com máscara) num supermercado. Guardarei até ao final dos dias os olhares que vi à minha volta...

Pelo sim, pelo não...

Fui ao barbeiro. Coitados! Nem nos cuidados intensivos de um hospital se vive assim...

Mascarilhas

Antigamente, os homens tiravam o chapéu para cumprimentar os outros. Hoje, tiram a máscara para que os outros os reconheçam. Que raio de mundo em que estamos...

Regresso à escola

Mário Nogueira fala das condições “absurdas” para o início da aulas. Alguém que o informe que, no caso dele, pode continuar a não as dar...

Parabéns, “Observador”!

Se bem percebi, o “Observador” propõe que o governo não dê subsídios, mas que estimule que sejam feitos empréstimos às empresas de comunicação social, baseados no número de trabalhadores que esses órgãos tinham antes da crise e que não dispensaram.

Se assim é, parece uma ideia muito sensata.

Tempus fugit

Com todo o respeito que uma declaração ministerial sempre deve merecer em democracia, por que será que está instalada na opinião pública uma...