quinta-feira, março 26, 2020

Os poetas contra o vírus



O meu amigo Manuel Alberto Valente publicou no Facebook, numa “desgarrada” de poetas que por aí anda (que pena tenho que o António Russo Dias não ande a versejar os nossos dias), esta letra magnífica de fado. Não resisti a reproduzi-la, como farei a outras a que ache graça, para benefício dos utentes deste blogue que, nos últimos dias (alguma vantagem colateral terá o vírus!) ronda os 2000 leitores diários:


SEMPRE FADO

Já houve um fado operário,
anarquista, lutador,
que tinha como ideário
fustigar o opressor.

Já houve um fado calado
pela mordaça e pelo medo,
um fado no chão deitado,
de lamechice e putedo.

Com Marceneiro gritou,
com Maurício foi genica,
e até a Bica inventou
o tal Miúdo da Bica.

Mas veio Amália e depois
o fado foi outro fado,
passou a valer por dois,
já estava livre e curado.

Por isso já pôde rir
esse Homem na Cidade
que nunca deixou cair
a palavra liberdade.

E o fado do Camané,
da Aldina, de tantos, tantos?
O fado fica de pé
por mais que chorem os santos.

E mesmo nos tempos duros,
com quarentena e temor,
o fado ultrapassa muros
e ajuda a vencer a dor.

Por isso, gente, de pé!
Cantem alto, corações!
O Chico do Cachené
e a Rosinha dos Limões.



Manuel Alberto Valente

O Carlos Eurico e a pesca


Carlos Eurico da Costa, sucessiva ou simultaneamente, jornalista, poeta surrealista, publicitário

e gestor empresarial, morreu em 1998. Já por aqui falei dele, no passado.

O Carlos, que tinha a “qualidade” de ser meu primo direito, que acumulava com o privilégio que eu tinha de ser um seu grande amigo, era um caçador e um pescador de eleição.

À primeira das práticas, nunca teve coragem de sugerir que aderisse. No tocante à segunda, recordo uma jornada à beira-Tejo, algures a montante do Barreiro, nos anos 70, cujo insucesso, no que pessoalmente me toca, me permitiu ter um alibi para escapar a um vício que não tinha, assim podendo usufruir de uma imensidão de manhãs domingueiras na cama, nos anos desde então.

Sobre a primeira dessas artes, Carlos Eurico da Costa escreveu “A Caça em Portugal”, que quem disso sabe diz ser uma obra de referência. Sobre a pesca, não lhe conhecia nada escrito.

Até ontem, quando o seu filho Paulo me revelou um curto manuscrito em que o pai lhe dava dicas para pescar. É do tempo em que o Carlos tinha uma casa de fim de semana na Herdade do Pinheiro, a sul de Setúbal, por onde apareciam José Saramago, Cardoso Pires e “tutti quanti” de um mundo literário lisboeta onde se moveu desde sempre. É um texto quase poético, como o leitor avaliará:

Paulo

É aquela ágil e também mental forma de pressentir onde está o peixe: o vento, a cor da água, o seu revoltear, a sensibilidade para pressentir onde está a presa. “Cheira-se” o vento, regarda-se a espuma das águas nas rochas, a sua transparência. E depois - é pelo instinto. Olhar sempre as núvens e nunca estar de costas para o mar, para a onda. 

Agosto 89



quarta-feira, março 25, 2020

Helpline

No início de abril, por várias razões, muitas famílias podem ver-se desmunidas de recursos para o básico do seu dia-a-dia, para alimentação e outras despesas básicas.

Não seria de criar uma “helpline” que permitisse às autoridades e às IPSS darem ajuda pontual de emergência?

A certificação dessa necessidade poderia, com alguma facilidade, ser feita pelas Juntas de Freguesia. Uma ajuda em “cash” ou em espécie poderia ser dada a essas pessoas.

O excedente de ontem

É de saudar o excedente orçamental de 2019. Foi produto de um trabalho magnífico, de uma sábia gestão política e todos nos devemos congratular com o conseguido. 

Mas permitam-me que, nestes dias que correm, me não apeteça comemorar muito. É que o que aí vem...

Dias difíceis

Penso no que deve ser a dificuldade da vida de pessoas que vivem em casas minúsculas, com a agitação dos filhos a perturbar o teletrabalho de alguns, o inevitável stress familiar provocado pelo confinamento e, muitas vezes, a angústia do seu futuro económico.

Escrever na água


Com o mundo a mudar de forma tão rápida, sem que ainda saibamos quanto e para onde, alinhar ideias sobre o quotidiano é um exercício arriscado. Sinto-me a escrever na água. Mas é necessário ir refletindo sobre esta mudança.

Fala-se bastante, nos últimos dias, na possibilidade de uma alteração da relação geopolítica de forças à escala global, por virtude desta crise. Nessa leitura, o mundo ocidental, com os EUA em maior evidência, seria a principal vítima e a China o grande beneficiário.

A equação para análise desta questão tem duas variáveis essenciais: a economia e a política, esta como resultante do choque humano e social.

O primeiro é facilmente comparável. Daqui a uns meses, será mais claro o estado em que ficaram as grandes economias, embora não devamos esquecer que, numa escala global interdependente, a “saúde” de umas dependerá muito do estado das restantes.

A segunda variável é de uma mensurabilidade mais complexa. As ditaduras, como a da China, têm uma capacidade de contenção rápida dos efeitos políticos de uma tragédia. As democracias, porque tributárias da liberdade de opinião, acomodam de forma diversa essas consequências. Se parece evidente que a China não deve sofrer abalos políticos por virtude desta crise, no mundo ocidental tudo está em aberto. Trump será reeleito? A União Europeia continuará a ser digna do nome ou “balcanizar-se-á”, por falta de consenso (relembro, porque é feita de democracias)?

Devo dizer – e aqui entro na especulação – que a História nos mostrou que a natureza da economia americana, na crueldade do seu modelo de capitalismo, muito tributário da teoria da “destruição criativa” de que nos falava Schumpeter, sempre mostrou uma capacidade maior de reinvenção do que qualquer dos seus parceiros de sistema, talvez com exceção dos “tigres asiáticos”. Há uma flexibilidade no modelo americano que os faz sair mais cedo das crises. Mesmo daquelas em que foram os principais protagonistas, como em 1929 e 2008.

Por tudo isso, a menos que o fizessem por deliberada abdicação, na qual não acredito, estou em crer que os EUA, devendo sair enfraquecidos economicamente desta conjuntura, não vão ser afastados do seu papel de potência dominante. Como o caso russo hoje demonstra, numa escala menor, a economia não determina, por si só, a capacidade de expressão de poder de uma entidade internacional. Se isso assim acontecesse, a União Europeia, uma das grandes forças económicas do mundo, seria um formidável poder. E é o que é.

terça-feira, março 24, 2020

Cabelo e amizade


Telefonou-me há pouco o meu barbeiro. Para saber como eu estava. Na realidade, quem me telefonou foi o meu amigo Joaquim Pinto, que, há décadas, é o meu barbeiro, ali no Apolo 70.

(Diz-se cabeleireiro de homens, mas eu habituei-me assim, e ele não se importa).

É muito bom ver a nossa vida pontuada por gestos simples desta natureza, de gente com a qual, de um relacionamento que começou por ser profissional, passou há muito a haver uma amizade.

Quando vou ao meu barbeiro - e que precisado que estou, por estes dias! - sei que vou conversar com um amigo. Nunca falamos de política nem de futebol, falamos da vida e dos amigos comuns. Esta é também a Lisboa que me faz muita falta! Lá virá!

Os olás dos dias

Nos Natais, as saudações aos amigos são mais curtas, mais sintéticas e com um discurso ritualizado. Nestes dias, vamos tendo mais tempo para a conversa. Prouvera (alguns já nem se lembram da palavra) que todos tenhamos saúde.

Parlamento

Alguns estranham que a Assembleia da República continue a reunir, num tempo de confinamento generalizado. É bom perceber-se que, precisamente pelo facto de alguns direitos constitucionais estarem restringidos, é essencial que o parlamento esteja ativo. Ele é a casa da democracia!

Astérix


Um ataque cardíaco matou o desenhador Uderzo, com 92 anos. Era o sobrevivente de uma dupla cujo humor ajudou a educar mais do que uma geração, cujo trabalho funcionava também como uma subliminar lição de História. Há já muito tempo, em 1977, que Uderzo perdera a “outra mão”, Goscinny, e, tal como aconteceu com o “renascimento” da banda desenhada de “Blake & Mortimer”, Astérix e Obélix e Idéfix nunca mais foram a mesma coisa. Hoje, vou ler/olhar para dois ou três álbuns. É o lado positivo da quarentena.

Costa

Será porque me sinto politicamente próximo dele, tornando-me por isso suspeito aos olhos de quem dele não gosta, que acho que António Costa está a fazer um excelente trabalho nesta crise, mostrando um grande sentido de responsabilidade e transmitindo confiança aos portugueses?

DGS

Sei que isto não é apenas geracional, é também “de grupo”, mas a mim, quando estou distraído e oiço “segundo a DGS”, toca-me ainda uma certa “campaínha” histórica.

Distância oficial


Ainda não tenho os reflexos do vírus interiorizados. Demorei alguns segundos até achar justificável a distância entre Marcelo e Centeno.

O meu fuso

É-me cada vez mais difícil falar com alguns amigos sobre a crise do vírus. Eles citam e pedem-me para comentar o que viram ou ouviram, “ainda há pouco”. Ora eu não vejo mais do que meia hora de televisão sobre o assunto, e sempre ao final do dia. Optei por viver noutro “fuso”.

Dois choques

No 11 de setembro, vivia em Nova Iorque. O choque foi imenso, mas foi súbito e as pessoas foram-se adaptando. Este é crescente e a angústia sobe dia após dia.

segunda-feira, março 23, 2020

Higiene

A melhor dia foi a daquele cidadão que limpou a sua televisão com um desinfetante e, em seguida, deu-se conta que a CMTV tinha desaparecido dos canais.

Olímpica ilusão

Só pela cabeça teimosa dos japoneses passava pela cabeça ainda poder realizar as olimpíadas. Mas compreende-se que deve ser terrivelmente frustrante para quem andou anos a treinar ver cancelados os Jogos.

O que aí virá

A euforia dos anos de normalidade que tivemos faz-nos esquecer a tragédia que vai ser o inevitável aumento do desemprego: pobreza das famílias, custos sociais, aumento da criminalidade, rejeição xenófoba dos (“ameaçadores”) estrangeiros. E vai ser preciso apoiar muito as IPSS!

Beijos e abraços

Há já por aí uma escola higienista radical que acha que, passada esta crise, vai-se manter a prática de “distanciação social”. Era só o que faltava! Em tempos normais, sem pandemias e com risco normais, continuarão os beijos e abraços.

Mudar?

É talvez cedo para falar disto, mas creio haver uma grande inocência por parte de quantos pensam que, passada a crise do vírus, o mundo vai “tomar consciência” e mudar radicalmente de hábitos. Alguns o farão, a esmagadora maioria voltará ao “business as usual”. Só que mais pobres.

Tempus fugit

Com todo o respeito que uma declaração ministerial sempre deve merecer em democracia, por que será que está instalada na opinião pública uma...